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O movimento de conforto e solidariedade que nutre e alimenta a vida

Fomos colocados à prova no quesito solidariedade nos últimos tempos. Não diria que é nossa prova final, seria muito catastrofista e até uma forma cômoda de fuga daquilo que precisamos melhorar ou simplificar (porque precisamos). Tudo que está acontecendo, na verdade, pode ser a primeira prova grandiosa para nos testar sobre o quanto somos realmente capazes de compartilhar e ajudar o próximo que nunca esteve tão próximo de nós e tudo isso além do discurso engajado e da foto para a rede social.

Mesmo em uma tela de computador, o que no salta aos olhos diariamente é o cenário de vulnerabilidade de muitos e mesmo o nosso, no aspecto emocional e também material. No fim, fomos todos nutridos por uma ideia de que o consumo promove o progresso e agora, parece até que estamos sendo consumidos por essa ideia insustentável que levamos adiante por um longo tempo.

A fome e os que agem

A vulnerabilidade social leva muitos a um cenário de fome todos os dias e isso acontece muito antes da pandemia chegar por aqui.

Com a presença da pandemia, algumas prefeituras tiveram que criar mecanismos para garantir a merenda das crianças mesmo em casa, pois não é segredo que muitos alunos fazem suas melhores refeições e talvez as únicas, no ambiente escolar. A escola pública também tem esse papel.

Além disso, grupos e comunidades que já serviam marmitas e doavam cestas básicas, intensificaram seus esforços para suprir aqueles que foram afetados e ignorados de maneira muito mais violenta pela pandemia.

Gabinete de Crise do Complexo do Alemão doa cestas básicas no Morro do Adeus. Foto: Matheus Guimarães / Voz das Comunidades

Existe uma força no alimento que vai além daquela que estimula o cozinhar, a troca de receitas, o tipo de dieta e o se reinventar na cozinha diariamente. A força do alimento mexe diretamente com a vida das pessoas e com a qualidade desta vida. O alimento também dá segurança e certamente preserva a saúde, garante imunidade. Algo valioso neste momento. Por isso, o engajamento dos grupos tem sido de grande valia. Eis um auxílio que coopera e muito, enquanto outros auxílios vivem presos constantemente numa onda de “análise”.

Os vizinhos que cuidam

Vizinhos também começaram a dar suporte uns aos outros. Idosos que moram sozinhos se viram sem ajuda, preocupados e com medo. Contaram com o apoio dos mais jovens residentes do bairro, prédio, vila e até de alguns comerciantes que sentiram falta daquela visita semanal e do bom papo dos clientes. Os idosos que moram com a família tiveram e continuam tendo o protagonismo dos mais jovens da casa que, além das compras, seguem cuidando para que avôs e avós, mães e pais fiquem em segurança.

Imagem: Creative Commons

Uma rede nutridora e o que alimentamos diariamente

O que moveu e move essa rede de ajuda, tem como maior impulso, a busca pelos itens fundamentais e pelo alimento. Estamos todos olhando para o bom uso de cada item, pensando mais sobre desperdício, sobre segurança alimentar, sobre higiene e sobre como colaborar com pequenos comércios e agricultores locais. Isso é especial, mas não é tudo e nem pode ser.

Vamos além? Estamos restabelecendo o dom da partilha e a força da solidariedade sem ego. Mais do que nunca e em alguns casos, dividimos com outros, nossa comida conforto, a fatia do bolo da avó, o feijão que deixa aquele cheirinho no corredor. Estamos aprendendo a cuidar e a conviver de forma genuína e sustentável.

Há também um entendimento maior sobre o que é nutrir, sobre o que é alimentar: Nutrimos ideias, realidades e também o corpo, mas estamos aprendendo com mais profundidade, no cenário atual, que nutrir, é algo que depende de consciência social, ambiental e mesmo política e não se limita a cardápios. Alimentar é tirar da fome. Da fome física, cultural, emocional, social. É e garantir a quem compartilha esse mundo conosco, a vida e não mais uma sobrevida.

Imagem: Creative Commons

Certamente que há diferenças em bairros e essa questão da ajuda, ainda não é a realidade de todos os lugares, mas há algo em comum, ganhando força. Há um novo olhar para o que realmente importa, despertando (eu tenho essa esperança, embora às vezes ela teime em fugir): Podemos, devemos e vamos nos ajudar. Cooperação é chave para passarmos por esse momento e sim, vamos passar!

 

 

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