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A Culpa e o Amor de Ser Mãe: 3 lições do maternar

Para todas as mães que vão ler isso escondidas no banheiro ou a prestações, um parágrafo por vez, quando conseguirem uma folguinha, um abraço.

Diariamente, uma mãe se sente insuficiente e se questiona se está fazendo um “bom trabalho”. Diariamente, uma mãe carrega amor e culpa, quase que na mesma proporção (altíssima por sinal). Diariamente, alguém julga uma mãe por uma escolha dela, e o pior, dentro da própria rede próxima (família, amigos, colegas). A maternidade já te feriu quantas vezes? E com quantas pessoas você se sentiu à vontade para falar o que está no seu coração? Todos viemos de um útero, todos somos filhos do mesmo planeta, em que momento deixamos de respeitar o papel materno para colocá-lo na estante como um enfeite sem defeitos?

“Você sonha ser mãe? Porque com esses problemas que você tem, se contente em adotar. Se um dia você engravidar, é provável que não evolua e o tratamento vai te causar sofrimento à toa”. Aos 16 anos, um médico me disse isso. Na época, nem tinha certeza se tinha o sonho (tão imposto socialmente dentro de nós) de ser mãe, mas doeu. Doeu por me sentir incapaz de ser solo fértil e por ouvir algo tão lindo e importante, quanto a adoção é, como algo negativo.

Sempre que alguém falava que não queria ser mãe, me revoltava. Pensava “qual a justiça de tantas pessoas tentando e querendo e quem pode jogando isso fora?”. A maternidade ressignifica a vida. E eu não tinha ideia do turbilhão de mudanças, sentimentos e demandas que ela traz consigo.

Aos 22, engravidei. Sem tratamento algum. Passei a ler, estudar, conversar, fiz uma imersão nesse universo. Me deslumbrei, como seria lindo gerar um fruto de amor, alimentar um ser com o meu corpo, interna e externamente, como seria lindo trazer uma vida ao mundo. De fato é sim, mas é muito além.

Imagem: Creative Commons

Ninguém me falou sobre as estrias, sobre o vazio do pós-parto, sobre as inseguranças, medos, fissuras, dores (muitas dores físicas e emocionais) e solidão. Sobre nossa barriga virar domínio público em que todos, inclusive desconhecidos, sentem-se à vontade para tocar sua barriga sem cerimônia. Sobre todos saberem mais que a própria mãe. E sobre a realidade materna em si.

Eu amava bacon. Amava muito, só de sentir o cheiro já salivava. Na gravidez, só de pensar na palavra já me dava ânsia e tinha que correr para o banheiro. Até hoje não consigo. Eu estava partilhando meu corpo com alguém que não gosta de fritura, nem de carne. Na época, abrir mão do bacon era algo difícil para mim, porque não era minha vontade. E essa foi a primeira lição da minha maternidade, minhas escolhas nunca mais seriam individuais, porque elas impactam um todo que vai além do eu.

Não cedo a todas as vontades da minha filha, pois isso não contribui para a sua formação. Nem tampouco a obrigo a acatar todas as minhas, por acreditar que relação é troca. E essa é a segunda lição: “3+2=5, mas 4+1 também é”.

Não é porque eu gosto/faço as coisas de um jeito que esse é o único modo certo. Cada um tem suas próprias formas, visões de mundo, personalidades e isso independe da idade. Quando nos permitimos perceber o outro, nos percebemos e aceitamos melhor nós mesmos, reconhecendo as semelhanças e respeitando as diferenças.

Imagem: Creative Commons

Nem sempre o dia a dia dá certo, isso envolve choro, birra, frustração (em ambas as partes). E é assim que vamos nos desconstruindo do “eu quero por mim”, para o “hoje podemos tentar desse jeito, no meio termo por nós?”, mas tem momentos que não vai dar. E isso funciona para absolutamente tudo.

O ser mãe não tem trégua. No home office menos ainda. Trabalho da casa, ser mãe, ser mulher, ser profissional, ser mil e não saber mais nem o que se é. E essa é a terceira lição, como disse Clarice Lispector: “perder-se também é caminho”.

Não é fácil, não é simples, não é só riso. Diariamente, diversas vezes ao dia temos que nos reinventar. Só quem exerce o papel materno verdadeiro e vivencia isso, sabe. O maternar envolve ser amor, educar, contribuir para a evolução de alguém que depende de você até que o fluxo natural da vida siga por si só. Pode ser feito por mãe, pai, avó, avô, tutor, pode ser fruto de uma gestação, de uma adoção, de uma situação adversa dessa vida, não importa. O que define não é a nomenclatura ou a origem, mas o laço afetivo e de responsabilidade.

Imagem: Creative Commons

Acredito que como mães (ou quem quer que exerça a maternidade) somos os maiores exemplos da formação de indivíduos que podem fazer a diferença no mundo.

Hoje entendo melhor e admiro quem segue tentando engravidar, quem tem muitos filhos, quem teve um e parou, quem adotou, quem se considera mãe de pet e até quem não quer ter filhos. Maternar é uma escolha para a vida toda, seja nossa, do universo ou conforme a crença que você acreditar.

Mães: parabéns por fazerem o melhor que podem, tenham a certeza de que ninguém seria uma mãe melhor para seu(s) filho(s). Vocês estão indo bem, cada dia é um desafio, o que deu certo hoje pode não dar amanhã e o contrário também é real.

Imagem: Creative Commons

Não se sintam só, eu ainda estou aqui (e muitas mães também), sem apoio fica mais pesado, compartilhe com quem vivencia o mesmo. E, por favor, não julgue outra mãe, ela está fazendo o melhor que pode, de acordo com o que acredita, com as condições e consciência que têm, opiniões diferentes devem ser respeitadas. O mundo já está difícil demais para criarmos inimigas dentro do nosso próprio campo de batalha.

Em uma turbulência, a orientação é “coloque a máscara em si antes de mais nada”, na vida turbulenta de mãe também. Mães precisam muitas vezes serem lembradas de que para cuidar do outro, é preciso cuidar de si. Quando uma mãe não aguenta mais, ela não quer deixar de ser mãe, ela quer descansar, pois está exausta.

Esse texto contém afeto e verdade. Para acalentar as mães incríveis deste mundo, ser transparente com quem sonha com o maternar, levar um pingo de empatia à sociedade e dizer que redes de apoios são fundamentais, pois juntas somos mais.

Imagem: Creative Commons

Tomei a liberdade de escrever em primeira pessoa por falar sobre a vivência do eu e do nós, mães, a partir dos relatos diários que recebo. A maternidade é linda sim, não digo que não. Mas algumas desconstruções são necessárias para que a sociedade evolua. Já diria O Teatro Mágico “A demanda do mundo é amar”, que bom que vocês semeiam amor, teremos lindos frutos na humanidade ❤

 

 

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2 comentários

  1. Descreva a maternidade com tanta verdade e leveza ao mesmo tempo. Parabéns pelo texto incrível.

  2. Que texto incrível ❤️

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