Por que salário digno virou estratégia para as empresas?

Mais de 1 bilhão de pessoas trabalhadoras ganham menos do que o necessário para viver em condições dignas (World Economic Forum). Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 10% das pessoas trabalhadoras do mundo concentram quase metade de toda a remuneração global, enquanto a metade mais pobre da força de trabalho recebe pouco mais de 6% desse total. Para milhões de famílias, ter um emprego não significa, necessariamente, sair da pobreza.

No Brasil, 2026 tem sido um ano decisivo para a pauta de Direitos Humanos, com a aprovação da PEC sobre o fim da escala 6×1 e a entrada em vigor da NR-1 sobre saúde mental.

É desse cenário que surge a necessidade de falarmos sobre o conceito de salário digno: o nível salarial necessário para garantir um padrão de vida digno para as pessoas trabalhadoras e suas famílias, a partir de necessidades básicas como alimentação, moradia, saúde, educação, transporte e vestuário.

Uma questão que atravessa o tempo e permanece necessária

Na Grécia Antiga, Aristóteles já dizia que a vida boa não depende só de virtude, mas também de condições externas e que a miséria impede a felicidade.

A industrialização do século XIX deu forma mais concreta a essa discussão: com jornadas extensas e salários insuficientes, as pessoas passaram a exigir remuneração capaz de sustentar sua subsistência, dando origem às primeiras manifestações organizadas que hoje reconhecemos como direitos trabalhistas.

Em 1919, no contexto do pós-guerra, a OIT reconhece o salário digno como um direito básico. E em 1948, sob a liderança de Eleanor Roosevelt, é lançada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que reforçou esse princípio, ao reconhecer o direito a uma remuneração justa e satisfatória.

Quase 100 anos depois do reconhecimento do tema pela OIT, em 2011, é que surge a principal referência global sobre salário digno, a metodologia Anker, desenvolvida pelo casal de pesquisadores Martha e Richard Anker.

Infelizmente, passados 2.400 anos após Aristóteles, essa discussão continua urgente e necessária.

Salário mínimo NÃO é salário digno

Embora a maioria dos países adote um salário mínimo, esse valor nem sempre acompanha a inflação e o custo de vida das famílias, sobretudo em países menos desenvolvidos. No Brasil, a Constituição determina que a remuneração deve atender às necessidades básicas, assegurando bem-estar e dignidade, mas sabemos que o salário mínimo não é suficiente. O salário digno é, portanto, uma resposta a este cenário.

Dados do IBGE mostram que pessoas pretas e pardas recebem, em média, 60% a menos do que pessoas brancas. Sem contar na desigualdade salarial sobre outros aspectos, incluindo pessoas com deficiência e pessoas trans. A questão territorial é outro fator de desigualdade: o livro “A Loteria do Nascimento”, de Michael França e Fillipi Nascimento, mostra como o lugar onde uma pessoa nasce pode determinar as oportunidades ao longo da vida. Em uma sociedade onde há tantos recortes de desigualdade que determinam quem é mais vulnerável e quais barreiras estruturais enfrenta, a estratégia de salário digno se torna ainda mais importante.

Por que salário digno é importante para as empresas?

Uma pesquisa da Serasa mostrou que 84% das pessoas brasileiras já tiveram a saúde mental afetada por dificuldades financeiras, o que aproxima a política salarial da NR1 e do cuidado com a saúde mental dentro das organizações. A isso, somam-se outros aspectos relevantes:

  • maior produtividade e engajamento das equipes
  • atração e retenção de talentos
  • alinhamento com ratings ESG e certificações, como a certificação B
  • redução de riscos reputacionais e regulatórios
  • cadeias de fornecimento mais estáveis e produtivas

Para a sociedade, os ganhos vão além das empresas: redução de pobreza e desigualdade, fomento a economias locais, ruptura com estruturas históricas de exclusão e fortalecimento da democracia. Há ainda uma importante conexão com a transição justa: garantir renda suficiente é também proteger as populações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

Ilustração criada por Gestão Samaúma.

Na Certificação B, o salário digno ganhou ainda mais relevância com o lançamento dos novos padrões B: passou a integrar como requisito obrigatório no tópico de Trabalho Justo, ao longo do ciclo de recertificação.

O Movimento Salário Digno, da Rede Brasil do Pacto Global, conta com um compromisso de garantir 100% de salário digno para funcionários diretos, contratados e terceirizados até 2030. O tema também está diretamente ligado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Empresas como Natura, Dengo, Banco do Brasil, Unilever, Baluarte Cultura, entre outras, já avançaram nesta agenda, com experiências tanto com colaboradores quanto na cadeia.

Vale salientar que o salário digno não substitui as práticas de remuneração de uma empresa: cada uma exerce um papel complementar: o salário mínimo define o piso legal; o salário digno define o piso social e a remuneração de mercado define o posicionamento competitivo da empresa.

Desafios ao adotar o salário digno nas empresas

Calcular salário digno no ambiente corporativo não é uma tarefa simples, mas também não precisa ser um processo complicado. Além de diferentes valores e metodologias disponíveis, cada empresa tem sua política de remuneração e atua em contextos distintos. Algumas dúvidas frequentes: Qual valor adotar? Devo usar o salário bruto ou líquido? Devo considerar o salário digno familiar ou individual? E pessoas que trabalham de forma remota ou meio período? Quais benefícios podem ser considerados?

Por onde começar?

Em junho de 2026, realizamos o Café B Salário Digno SP, que reuniu diversas empresas, com participação do Sistema B Brasil, Natura, Dengo e Baluarte para compartilhar suas jornadas de remuneração justa. Nesse encontro e em comemoração aos 10 anos da Gestão Samaúma, consultoria na qual sou sócia-fundadora, lançamos a Calculadora Samaúma de Salário Digno, ferramenta para apoiar as empresas no conhecimento do tema, sua gestão e governança.

Para nós, salário digno é uma jornada contínua, que ganha força quando áreas como Sustentabilidade, Recursos Humanos, Suprimentos e Finanças caminham juntas. Se quiser aprofundar nesse tema, terei prazer em seguir esta conversa com você!

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Saiba como colocá-lo nas referências:

BARATELLA, Karina. Por que salário digno virou estratégia para as empresas? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/por-que-salario-digno-virou-estrategia-para-as-empresas.html>.

Referências e Sugestões de Leitura:

Declaração de Transparência sobre Uso de Inteligência Artificial
Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial para revisão de texto, adequação ao limite de caracteres, verificação de fontes e organização das referências e links.

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