Nem toda restauração começa com uma árvore – o erro comum que pode prejudicar nossos biomas!

Quando falamos em restauração ecológica, é quase automático pensar em plantio de árvores. Mudas, covas abertas no solo e áreas preparadas para receber uma nova vegetação fazem parte do imaginário que construímos sobre como se recupera uma área degradada. E não sem razão, afinal, o plantio é uma ferramenta importante no processo de restauração e, em muitas situações, é exatamente o que precisa ser feito.

Mas restauração não é sinônimo de plantio.

Trabalhando há muitos anos com conservação e recuperação da vegetação nativa, aprendi que, diante de uma área degradada, a primeira pergunta não deveria ser “o que vamos plantar?”, mas sim “o que aconteceu aqui?”.

Que vegetação existia antes da degradação? O que levou a área à condição atual? O que ainda permanece? A vegetação consegue se regenerar naturalmente? O que está impedindo que essa recuperação aconteça?

Dependendo das respostas, pode ser necessário plantar milhares de mudas ou nenhuma. Tudo depende da história que a área conta.

Restaurar ecossistemas, não apenas plantar florestas

Estamos na Década das Nações Unidas sobre Restauração de Ecossistemas, período de 2021 a 2030 declarado pela ONU para mobilizar esforços globais para prevenir, interromper e reverter a degradação.

E, nesse caso, a palavra “ecossistemas” importa. Restaurar não significa necessariamente plantar árvores ou mesmo recuperar uma floresta. Diferentes ecossistemas exigem diferentes caminhos para sua recuperação.

Os princípios elaborados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) deixam claro que não existe uma receita única. Dependendo das condições locais, a restauração pode envolver plantio, semeadura, manejo ou a remoção de pressões que impedem a recuperação natural.

E essa diversidade de caminhos se torna ainda mais importante quando pensamos na escala do desafio. O Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal estabeleceu como meta que, até 2030, pelo menos 30% das áreas degradadas de ecossistemas terrestres, de águas interiores, costeiros e marinhos, estejam sob restauração efetiva.

No Brasil, o desafio também é enorme. O país estabeleceu a meta de recuperar pelo menos 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, no âmbito da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg) e do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg).

Em 2025, o governo federal estimou que 3,4 milhões de hectares de vegetação nativa, cerca de 28% da meta do Planaveg, já estavam em processo de recuperação. Mais de 1,7 milhão de hectares desse total correspondem à vegetação secundária em regeneração em áreas protegidas.

Metas e avanços da restauração de ecossistemas no mundo e no Brasil. Fonte: CBD (Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal); MMA/Planaveg (2025). Elaboração da autora com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI), 2026.

Quando pensamos em restaurar milhões de hectares, isso muda a perspectiva. Precisamos plantar e semear, sim, mas também manejar áreas degradadas, controlar espécies invasoras e reconhecer onde a vegetação já está se regenerando e criando condições para que esse processo continue.

Não parece razoável imaginar que uma única solução sirva para tamanha diversidade de ambientes.

Uma paisagem saudável nem sempre é uma floresta

E aqui entra outra ideia que precisamos rever. Talvez parte da confusão venha do fato de tendermos a associar uma natureza bem conservada a uma paisagem coberta por árvores. O problema é que nem todo ecossistema funciona assim.

Vista do cerrado na Comunidade quilombola Kalunga do Engenho II. O cerrado é um dos cinco grandes biomas do Brasil, cobrindo cerca de 25% do território nacional e perfazendo uma área entre 1,8 e 2 milhões de km2
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O Cerrado, por exemplo, é composto por um mosaico de formações florestais, savânicas e campestres. Nesse bioma, há ambientes naturalmente densos, com muitas árvores, e outros abertos, onde elas são esparsas ou mesmo ausentes. No Pampa, os campos nativos também são ecossistemas naturais e muito diversos.

Essas diferenças vão muito além da aparência. Cada ambiente abriga espécies adaptadas a determinadas condições de luz, solo, disponibilidade de água e processos ecológicos. Colocar árvores onde naturalmente predominava uma vegetação aberta pode alterar essas condições e, consequentemente, a biodiversidade e as relações ecológicas do local.

Um artigo publicado na BioScience chamou atenção para os riscos de projetos de plantio de árvores e expansão florestal sobre campos e savanas naturais, que podem provocar perdas de biodiversidade e alterações nos serviços ecossistêmicos. No Pampa brasileiro, uma revisão publicada em 2024 também reforça que restaurar ecossistemas campestres exige estratégias diferentes daquelas utilizadas em florestas.

Nem toda restauração precisa começar pelo plantio

Mesmo em uma área degradada onde antes havia uma formação florestal, o plantio não precisa ser automaticamente o primeiro passo. Muitas vezes, o ecossistema ainda possui condições para se recuperar, desde que sejam eliminadas as barreiras que impedem a regeneração natural.

Diagnóstico de uma área degradada como etapa fundamental para compreender suas condições e orientar as estratégias de restauração. Fonte: Elaboração da autora com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI), 2026.

Isso não significa que basta abandonar qualquer área degradada e esperar que ela se recupere sozinha. Em locais muito alterados, a intervenção é necessária porque podem faltar fontes de sementes, o solo pode ter sido modificado, espécies invasoras podem dominar a área ou as pressões responsáveis pela degradação podem continuar atuando.

Ainda assim, os processos naturais de regeneração precisam ser reconhecidos. Às vezes, a restauração já começa antes mesmo de alguém chegar com uma muda.

Reconhecer esses processos não diminui a importância do plantio de árvores. Há áreas em que ele será indispensável. Em outras, a semeadura direta será mais adequada. Algumas responderão bem à condução da regeneração natural. Muitas exigirão intervenção humana e uma combinação de estratégias.

O ponto é: não deveríamos escolher a solução antes de compreender o problema.

Antes de decidir quantas árvores plantar, ou mesmo se é preciso plantá-las, precisamos compreender a história da área, sua vegetação de referência e seu potencial de regeneração natural. É esse diagnóstico que deve orientar as ações de restauração.

E os resultados desse diagnóstico serão diferentes em uma floresta na Amazônia, em um campo no Pampa, em uma savana no Cerrado ou em uma área na Caatinga.

Restaurar não é impor à paisagem a nossa ideia de natureza. É entender como aquele ecossistema funciona e ajudá-lo a recuperar seus processos, sua diversidade e sua capacidade de seguir adiante.

Às vezes, isso começa com o plantio de uma árvore. Em outras, começa justamente com a decisão de não plantar.

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ARANTES, Carolina. Nem toda restauração começa com uma árvore – o erro comum que pode prejudicar nossos biomas! Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/nem-toda-restauracao-comeca-com-uma-arvore-o-erro-comum-que-pode-prejudicar-nossos-biomas.html>. 

Referências e Sugestões de Leitura:

  • BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Brasil anuncia 3,4 milhões de hectares em processo de restauração no âmbito do Planaveg durante a COP30. Brasília, DF: MMA, 2025.
  • CONVENTION ON BIOLOGICAL DIVERSITY (CBD). Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework: Target 2 – Restore 30% of all degraded ecosystems. Montreal: CBD, 2022.
  • MICHEL, T.; OVERBECK, G. E. Review of ecological restoration in the Brazilian Pampa. Anais da Academia Brasileira de Ciências, v. 96, n. 4, e20231283, 2024. DOI: 10.1590/0001-3765202420231283.
  • UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP); FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Principles for ecosystem restoration to guide the United Nations Decade 2021–2030. Nairobi: UNEP; Rome: FAO, 2021.
  • VELDMAN, J. W. et al. Where tree planting and forest expansion are bad for biodiversity and ecosystem services. BioScience, v. 65, n. 10, p. 1011–1018, 2015. DOI: 10.1093/biosci/biv118.

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