Por que a América Latina e o Caribe importam para os mercados de carbono?

Potencial de mitigação, biodiversidade e o papel estratégico da região na arquitetura global do clima.
A implementação de um mecanismo de precificação de carbono na região da América Latina e Caribe, seja um mercado de carbono ou um imposto, não ocorre de forma isolada e depende tanto do aparato regulatório existente quanto de janelas de oportunidade para a elaboração e definição de políticas.
Até hoje, os impostos de carbono que foram implementados na região fizeram parte de uma reforma fiscal mais ampla, tendo sido desenhados com objetivos distintos e específicos para o contexto em que foram aplicados, seja pela necessidade de se implementar impostos voltados para a área ambiental, aumentar a receita governamental e saúde financeira ou sinalizar para o mercado um preço de carbono adequado para o país em questão (ICAP & IETA, 2021).
Chile, Colômbia, México e Argentina foram precursores na implementação de instrumentos de precificação de carbono na região, que já responde por cerca de 20% de instrumentos desse tipo globalmente (ICAP & IETA, 2021). Tais mecanismos já começam a impulsionar a demanda por créditos de carbono, como se observa no México, na Colômbia e no Brasil. Neste último, um mercado regulado de carbono foi criado ao final de 2024 com a instituição do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que também prevê a utilização de créditos de carbono para o cumprimento das metas assumidas pelo país no Acordo de Paris.

As oportunidades para a região passam pelo fortalecimento do aparato regulatório e de condições para assegurar investimento e desenvolvimento de projetos de alta integridade que sejam elegíveis tanto para mercados nacionais quanto internacionais. Para que isso se concretize é preciso que a voz desses países ressoe em alto e bom som nas discussões em que as regras do jogo são definidas globalmente. Isso inclui espaços em que estão sendo desenhadas metodologias para projetos de carbono do Mecanismo de Crédito do Acordo de Paris (PACM, na sigla em inglês), um mercado de carbono internacional e centralizado, regulado pelas Nações Unidas e que substitui o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo que integrava o Protocolo de Kyoto, bem como o desenvolvimento de padrões, metodologias e protocolos a serem adotados no mercado voluntário.
Nesse caso, a regionalização do mercado de carbono e tratamento adequado das especificidades locais tem como benefício a mobilização de financiamento climático como forma de viabilizar soluções climáticas escaláveis e de alta integridade capazes de acelerar a ambição estabelecida para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Atualmente, a região conta com 11 protocolos e dois módulos jurisdicionais específicos tendo sido desenvolvidos pelo Climate Action Reserve do qual faço parte como Regional Head de Desenvolvimento de Mercado para a América Latina e o Caribe. O trabalho resulta de meses de consultas, encontros presenciais e reuniões virtuais, envolvendo uma lista extensa de atores locais, incluindo organizações não governamentais, representantes governamentais e desenvolvedores de projetos. Até hoje, mais de 26 milhões de créditos de carbono já foram emitidos pela organização a partir de diferentes atividades de projeto implementadas na região (Climate Action Reserve, 2026).

A América Latina e o Caribe oferecem um significativo potencial para redução e remoção de emissões de gases de efeito estufa, o que contribui para o atingimento de metas locais, nacionais e internacionais. Logo atrás da Europa, a região reúne o segundo maior número de jurisdições subnacionais que assumiram o compromisso de alcançar emissões líquidas zero.
Não à toa, a região tem sido procurada por diversos países como Suíça e Singapura para o estabelecimento de acordos bilaterais, formalizados por meio dos mecanismos de mercado estabelecidos pelo Acordo de Paris que possibilitam a comercialização de créditos de carbono entre países. Sem surpresa, o primeiro acordo bilateral no mundo assinado sob o Acordo de Paris se deu entre Peru e Suíça – apenas em 2024 foram assinados ou negociados 20 novos acordos (ICAP & IETA, 2021).
Por meio da venda de créditos de carbono, os países desenvolvedores de projetos recebem recursos financeiros que beneficiam as populações locais e possibilitam a preservação do meio ambiente, a proteção da biodiversidade e um desenvolvimento mais sustentável. Ao mesmo tempo, contribui-se para o cumprimento da meta de redução de emissões por parte dos países compradores.

O que fica nos países anfitriões, que hospedam os projetos de carbono, vai muito além da redução de emissões contabilizadas por meio da implementação dos projetos e verificação de terceira parte. O México tem o quinto maior potencial quando se trata de projetos de reflorestamento e quarto, no que diz respeito ao reflorestamento de manguezais no mundo (Climate Focus, 2026). A matriz energética brasileira tem cerca de 50% de fontes renováveis, sendo muito mais limpa que a média mundial (EPE, 2026).
A região ainda tem um longo caminho pela frente na busca por um desenvolvimento mais justo, inclusivo e sustentável e não deve alcançar mais do que um terço das 17 metas estabelecidas pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (Scaff, 2024). Nesse contexto, o financiamento externo se faz ainda mais relevante e o mercado de carbono pode ajudar a canalizar esse investimento, possibilitando o desenvolvimento de novas tecnologias e impulsionando a descarbonização de setores-chave da economia, provendo o financiamento necessário para a implementação de soluções baseadas na natureza, como restauração florestal, chegando aonde mais se faz necessário (Banco Mundial, 2025).
Mercados internacionais foram propostos como um mecanismo para fazer face à ambição global de redução de emissões de forma mais eficiente. O mercado de carbono voluntário se expandiu nos últimos anos, possibilitando que indivíduos, organizações e governos, alcancem reduções de emissões reais, verificadas, permanentes e adicionais. E a expectativa é de que esse crescimento continue. Dado o aumento da pressão global por parte de investidores e consumidores para que as empresas se engajem e implementem ações climáticas, a estimativa é de que a demanda no mercado voluntário possa crescer entre 10 e 30 vezes até 2050 (ICAP & IETA, 2021).

Nesse contexto, a América Latina e o Caribe se destacam pelo enorme potencial de mitigação climática que se concentra nos ecossistemas naturais, sobretudo no que se refere às florestas por meio da redução das emissões de desmatamento e degradação florestal. Práticas agrícolas mais eficientes e sustentáveis podem ser implementadas por meio de projetos de manejo de terras agrícolas, mais um setor com grande potencial para gerar créditos de carbono. Por fim, projetos de energia renovável que contribuam para a expansão da geração de eletricidade limpa são benéficos para a região, pois reduzem as emissões e fortalecem sua autonomia e independência energética (Rambharos, 2025).
A região tem tudo o que precisa para se tornar uma peça central na arquitetura global de mercados de carbono. É preciso assegurar integridade em todas as pontas, contabilização técnica robusta, transparência absoluta, coordenação entre os atores e governança estratégica. Temos todos um papel a cumprir.

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Saiba como colocá-lo nas referências:
AVZARADEL SZKLO, Ana Carolina. Por que a América Latina e o Caribe importam para os mercados de carbono? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/por-que-a-america-latina-e-o-caribe-importam-para-os-mercados-de-carbono.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- BANCO MUNDIAL. 2025 State and Trends of Carbon Pricing. Washington, DC: Banco Mundial, 2025. DOI: 10.1596/978-1-4648-2255-1.
- CLIMATE ACTION RESERVE. Voluntary Carbon Credit Program. Los Angeles: CAR, 2026. Disponível em: https://climateactionreserve.org/.
- CLIMATE FOCUS. Carbon Markets – 2025 Review and Outlook. Climate Focus, 2026.
- EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Matriz Energética e Elétrica. Rio de Janeiro: EPE, 2026. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica.
- INTERNATIONAL CARBON ACTION PARTNERSHIP (ICAP); INTERNATIONAL EMISSIONS TRADING ASSOCIATION (IETA). Status and trends of compliance and voluntary carbon markets in Latin America. ICAP; IETA, 2021. Disponível em: https://icapcarbonaction.com/system/files/document/201025_idb_compliancevoluntary_paper-rz.pdf.
- RAMBHAROS, M. O momento do Brasil para liderar com os mercados de carbono. Capital Reset, 2025. Disponível em: https://capitalreset.uol.com.br/opiniao/o-momento-do-brasil-para-liderar-com-os-mercados-de-carbono/.
- SCAFF, P. O desenvolvimento na América Latina e no Caribe além de 2030. CAF, 2024. Disponível em: https://www.caf.com/pt/blog/o-desenvolvimento-na-america-latina-e-no-caribe-alem-de-2030/.