Sustentabilidade e criatividade na prática! O que os livros cartoneras podem ensinar aos seus alunos?

No Brasil, cerca de 281 mil pessoas vivem da coleta de materiais recicláveis, e 3 em cada 10 são mulheres, a maioria preta ou parda, com baixa escolaridade e renda mensal inferior a um salário mínimo (WIEGO, 2021).

Enquanto professora universitária, entendo que meus alunos estão muito distantes desta realidade e têm dificuldades em compreender os desafios enfrentados pelas populações vulneráveis. No entanto, fui apresentada a uma técnica criativa que se torna material pedagógico de maneira muito fácil: os livros cartoneras, uma técnica latino-americana de mais de 20 anos que une arte, literatura e reutilização de papelão. Esse meu texto tem como objetivo compartilhar com outros colegas professores essa técnica de publicação que serve muito bem para a sala de aula em todos os níveis.

Conheci as cartoneras através de uma colega que organizou um workshop no museu da universidade onde trabalho. Na época, eu lecionava a disciplina de Meio Ambiente e Desenvolvimento. Dentre as dificuldades enfrentadas por nós, professores, está a de capturar a atenção de uma geração que vive hiperestimulada e desatenta.

Resolvi, então, apresentar a eles o movimento e aproveitar a oportunidade para ensinar sobre desigualdades e movimentos sociais de forma criativa e longe do quadro branco. A oficina realizada por meus colegas se desdobrou em uma exposição no museu da University at Albany, nos Estados Unidos, que reuniu uma coleção de livros cartoneros de todo o continente sob curadoria de Paloma Celis Carbajal, especialista da New York Public Library, e serviu de extensão da sala de aula por alguns meses.

Quem quiser conhecer o projeto original pode visitar a página da exposição Cartoneras Workshop, da University at Albany.

Da Crise Argentina às ruas de São Paulo

O movimento nasceu em Buenos Aires, em 2003, no auge da recessão que se seguiu ao “corralito” bancário de 2001. Os artistas Javier Barilaro e Washington Cucurto, com a curadora Fernanda Laguna, passaram a comprar papelão de catadores para encapar livros artesanais, pagando por quilo um valor acima do mercado. A cooperativa de publicação foi batizada como Eloísa Cartonera e inspirou mais de 80 editoras semelhantes em pelo menos vinte países (Institute for Public Art).

Algumas publicações da cooperativa de publicação Eloísa Cartonera. Imagem: Wikipedia.

Em São Paulo, essa lógica ganhou corpo em 2007 com o coletivo Dulcinéia Catadora, coordenado pela artista Lúcia Rosa e formado por catadoras e catadores de papel da capital paulista (Casa do Povo). Esses coletivos produzem arte e literatura sem abrir mão da fonte de renda das catadoras e também de estimular a criatividade delas, dando espaço a novas escritoras que inicialmente não teriam acesso ao mercado editorial de outra forma.

O que um workshop de cartoneras pode ensinar

1. As vidas por trás do papelão

Antes de explicar a técnica, é preciso discutir a realidade das mulheres catadoras. Segundo a WIEGO (2021), com base em dados do IBGE, 80% das catadoras têm entre 35 e 64 anos, 72% dos catadores no Brasil são pretos ou pardos e 77% das mulheres da categoria ganham até um salário mínimo por mês.

Esses números podem ser o ponto de partida da discussão. Como o desenvolvimento de uma arte transforma não apenas o material descartado, mas também a renda e a visibilidade dessas mulheres? Os estudantes são convidados, então, a imaginar futuros impossíveis.

2. Técnicas de escrita

Os textos são produzidos por quem também faz os livros. Pode-se ensinar diferentes tipos textuais, como poesia, conto ou literatura de cordel. É importante dar tempo para que os textos sejam produzidos, submetidos e depois impressos de forma simples, basta papel e impressora comum.

Em uma aula mais técnica, como a minha, temas difíceis de compreender podem virar mote para textos menos técnicos. A criatividade é o principal motor da atividade: vale deixar os estudantes livres para escrever do jeito que quiserem, sem as amarras da ABNT, e colocar no papel o que eles absorveram do conteúdo das aulas.

3. Mão na massa

A oficina coletiva acontece depois que os textos já foram escritos e impressos. É a hora de colocar a mão na massa: cada pessoa “encaderna” o próprio livro do jeito que achar melhor.

Livro cartonera feito pela nossa colunista Tassiana. Imagem: Tassiana Moura de Oliveira (Arquivo Pessoal).

O que é preciso para a oficina? Papelão já cortado no tamanho do livro, canetas e lápis coloridos, revistas velhas, adesivos, tinta, carimbos, linha ou fita para “costurar” a capa, cola… aqui o céu é o limite. Gosta de brilho? Inclua glitter. Gosta de cores? Inclua recortes de papel colorido, tinta, figurinhas.

Da oficina à publicação

Os participantes começam com uma revisão da técnica, depois têm um tempo para recitar o próprio trabalho e, ao final, fazem a encadernação dos livretos. A professora ou o professor pode expor os trabalhos por algumas semanas antes de devolvê-los aos alunos.

Livro cartonera feito pela nossa colunista Tassiana. Imagem: Tassiana Moura de Oliveira (Arquivo Pessoal).

Mais do que um exercício de reutilização, a oficina de cartoneras aproxima os estudantes de uma cadeia de trabalho que sustenta milhares de famílias no Brasil e mostra que sustentabilidade também se mede em quem tem, ou não, acesso à renda, autoria e reconhecimento.

Para continuar essa conversa

Quem quiser se aprofundar pode visitar a página da exposição da University at Albany sobre cartoneras, conhecer o trabalho do coletivo paulistano Dulcinéia Catadora e acompanhar os dados sobre catadores no Brasil, referenciados ao final.

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Saiba como colocá-lo nas referências:

OLIVEIRA, Tassiana Moura de. Sustentabilidade e criatividade na prática! O que os livros cartoneras podem ensinar aos seus alunos? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/08/sustentabilidade-e-criatividade-na-pratica-o-que-os-livros-cartoneras-podem-ensinar-aos-seus-alunos.html>.

Referências e Sugestões de Leitura:

Declaração de Transparência sobre Uso de Inteligência Artificial
Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial Claude para revisão de texto.

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