De onde vem a sua comida? Reflexões sobre a sustentabilidade no dia a dia

Domingos são mais felizes por conta da feira. Seja porque acabamos comendo pastel com caldo de cana ou pela celebração da fartura e variedade de comidas que temos acesso.

Quando mudei para uma ilha, Santos, fiquei durante muito tempo pensando que não havia plantação ou criação de animais nas proximidades da minha casa. Naquele tempo, 2009, a minha a primeira constatação foi de que eu, que vinha do Rio Grande do Sul, não teria mais a possibilidade de comprar leite que viesse direto da vaquinha.

Serra do Mar cortada pela Rodovia Imigrantes, principal acesso viário, junto com a Rodovia Anchieta, que conecta a capital São Paulo a toda a região da Baixada Santista, integrando o complexo rodoviário chamado Sistema Anchieta-Imigrantes.

Fui informada de que talvez subindo a serra ou indo até Itanhaém ou Bertioga, eu pudesse conseguir encontrar uma vaquinha. Ou seja, para os residentes de Santos leva, pelo menos, 1 hora e 30 minutos para chegar até um ponto de venda de leite fresco.

Todas as vezes em que vejo no noticiário uma greve de caminhoneiros, ou mesmo na pandemia, senti a emergência de me abastecer, pois era possível que ficássemos sem alimentos. Essa também é uma realidade em feriados prolongados e nas férias. Já aconteceu de eu chegar ao supermercado no dia 11 de outubro à noite e encontrar na seção de hortifruti somente um pacotinho de couve. Não havia alface, repolho, rúcula, agrião, acelga, cheiro verde, espinafre ou qualquer outra folha verde disponível para compra.

A partir daí se tornou hábito, principalmente próximo a feriados e no período do verão, fazer as compras da semana antecipadamente. Isso porque na véspera e nos dias de feriado é preciso uma jornada para encontrar alimento fresco.

Essa semana, uma amiga, fez uma espécie de piada em um grupo do WhatsApp. Dizia ela que as pessoas reclamavam do preço da cenoura, do tomate e das verduras porque compravam em empórios e supermercados tidos como símbolos de status. Que se a pessoa frequentasse a feira conheceria os preços verdadeiros dos alimentos. E um dos comentários foi de que depende da feira, já que, em Santos temos feira orgânica e feira convencional.

Na feira orgânica, que acontece em dias específicos, em menor quantidade de vezes que a feira tradicional, temos produtores vindos de regiões que ficam a mais de 1 hora e 30 minutos de Santos. São os próprios produtores que vem até a ilha para trazer alimentos de suas propriedades e comerciantes que trabalham com produtos orgânicos, além disso, temos a presença de moradores que produzem pães. Todo sábado, acontece uma feira orgânica a 200 metros da minha casa.

Feira orgânica no Jardim Botânico de Santos. Imagem: Janaína Steffen (Arquivo Pessoal)

Na feira tradicional, temos moradores da região que semanalmente buscam na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo) alimentos provindos não só do estado de São Paulo como também de outros estados para revenda em feiras que acontecem em diversos pontos da cidade a cada dia da semana. Onde moro, em um raio de 500 metros, posso ir à feira na quarta, no sábado e no domingo.

De fato, não tenho mais receio de ficar sem acesso a alimentos. E me pergunto que critérios eu deveria usar para tornar meus hábitos alimentares mais sustentáveis. Primeiro, me vem à mente que alternar entre as feiras, orgânica e tradicional, traria, pelo menos, dois benefícios: alternar fornecedores e fazer uma média de preço. Se a cada semana eu compro de um local diferente estou ajudando um pouquinho cada uma dessas pessoas que se dispõem a trazer alimento a poucos metros da minha casa. Já em relação ao preço, caso eu compre a cada semana em um tipo de feira, a média de gastos seria o resultado de comprar uma semana um pouco mais caro e outra semana um pouco mais barato, tendo em vista que, a despeito de qualidade, o trajeto do alimento vem de locais mais distantes ou mais próximos.

Olhando por outro lado, fico pensando que, em termos de sabor e qualidade, minha opção seria pela feira orgânica. Isto porque, vindo diretamente da propriedade em que é cultivada, a planta chega a Santos mais fresca e no seu maior potencial de sabor.

Também já pensei que cada uma dessas pessoas que trazem alimento a porta da minha casa, se esforça no sentido de cooperar com a difícil tarefa de garantir alimentação para o povo de uma ilha.

Outro aspecto que lembro sempre é de que, se as grandes redes de supermercado conseguem um preço mais barato é graças as compras em atacado e ao aproveitamento de fretes para diversos municípios.

Por fim, ainda temos que levar em conta a conveniência de estarmos próximos a algum local que oferta alimentos enquanto realizamos atividades diárias e compromissos. Algumas vezes acabamos comprando algo que é necessário nas proximidades de algum lugar que precisamos ir.

Hortifruti localizado na cidade de Santos. Imagem: Janaína Steffen (Arquivo Pessoal)

De todos os raciocínios que já fiz a respeito desta questão, meu coração prefere orgânicos, mas no dia a dia corrido também acabo optando por algumas conveniências. Não sei não sei se deveria optar por apenas um modo, se isso seria eticamente mais positivo. Mas quando penso em sustentabilidade, acredito que vou continuar incentivando todos aqueles que gentilmente trazem alimentos para a ilha onde moro.

É muito provável que em outros contextos e outras realidades a opção que melhor atenda aos seus princípios de sustentabilidade possa ser outra. É complexo identificar de forma padronizada, como podemos nos tornar mais sustentáveis em relação ao nosso alimento.

O que convidamos você a fazer é refletir sobre como funciona o mercado de alimentos em sua cidade e como você pode ajustar o seu dia a dia para alimentar-se de forma saudável e sustentável.

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STEFFEN, Janaína. De onde vem a sua comida? Reflexões sobre a sustentabilidade no dia a dia. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/08/de-onde-vem-a-sua-comida-reflexoes-sobre-a-sustentabilidade-no-dia-a-dia.html>.

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