E se a nossa luta pelo planeta fosse, na verdade, uma luta por nós mesmos?

Padrões de consumo e os limites do planeta
Cientes dos impactos da crise ecológica que se abate sobre a Terra, notadamente sob a forma de mudanças climáticas, vemos o transtorno ocorrendo nas vidas de milhares de pessoas, e ceifando tantas mais. Estamos em meio a um forte processo de degradação das condições de vida no planeta, de todas as formas de vida, da espetacular biodiversidade que conhecemos hoje. Ou que mal conhecemos.
Mas é necessário encarar o estrago e avançar, pensar formas de caminhar em direção a uma transição do atual modelo de desenvolvimento, avaliar em que escala nossa atuação pessoal poderá ressoar de maneira mais efetiva.

Urge compreender que a crise ecológica é uma questão sem fronteiras, sistêmica, estratégica e interdependente em relação às demais crises da atualidade (financeira, social, política). Uma crise que trouxe em seu rastro o individualismo, dissipando famílias, comunidades, a sociedade em geral. Para atuar contra o sistema, união é imprescindível, e troca de saberes, essencial!
Temos um longo caminho pela frente. Por isso, é importante não nos determos em rever padrões de consumo individual quando sabemos que são necessárias mudanças estruturais, sistêmicas, do modelo civilizatório. Pensar globalmente, agir localmente é um ótimo lema.
Como exemplo de ação transformadora, tomemos o exemplo de Chico Mendes, líder seringueiro atuante na luta contra seringalistas no Acre (grandes proprietários de terras). Como um dos líderes na luta pela sobrevivência do modo de vida de um grupo de seringueiros, Chico Mendes compreende o contexto maior em que se insere esta luta, associando a ela a questão ecológica, a social envolvendo outros grupos da floresta e a dimensão política. No caso dele, a partir de uma visão socialista, que adaptou a seu contexto.

Uma frase, que é parte de seu discurso, demonstra bem a evolução de sua caminhada, partindo da luta ambiental, e se extrapolando para vários contextos:
“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade.” Chico Mendes
Chico Mendes agrega à sua luta a questão da posse da terra, da necessidade de reforma agrária, da desigualdade de forças nos enfrentamentos, dos privilégios dos latifundiários. Reúne lideranças de povos que vivem das matas, dos rios, culturas intrinsecamente voltadas à boa convivência com a natureza, e ao lado de Aylton Krenak, entre tantos outros, forma a Aliança dos Povos da Floresta.
Surgem desta aliança conceitos que vem para revolucionar paradigmas, como a posse comunitária de terras e a valorização socioeconômica da floresta em pé.
Padrões de consumo
De forma semelhante, a sociedade civil, ao redor do mundo, tem amplificado seu conhecimento sobre a crise ambiental, compreendendo melhor sua dimensão político-econômica. Enquanto por outro lado, governos e beneficiários deste mesmo sistema criam “mecanismos de mercado”, com o objetivo de maquiar e manter o modelo de desenvolvimento que nos trouxe até esta situação catastrófica.

Repensar formas de consumo é necessário e urgente. Este processo, no entanto, deve ser parte de um movimento maior da sociedade, em que o exercício da cidadania e a formação política, nos possibilite intervir em decisões que realmente alterem o ciclo vicioso de produção-consumo-descarte de resíduos, que torna a crise ecológica sistêmica.
Limites planetários
O atual sistema está baseado em padrões de produção e consumo em um modelo de expansão ilimitada, e assentado na exploração da natureza de um planeta com limites bem definidos.
Bens naturais tratados como recursos econômicos. Recursos ditos renováveis, utilizados em velocidade maior que sua capacidade de renovação natural. Recursos não renováveis, disponíveis em quantidades limitadas e explorados como se não houvesse amanhã.

Por quanto anos ainda haverá minerais essenciais para as baterias de celulares? Qual a capacidade de regeneração (ou produção) de um solo exposto a produtos químicos por anos seguidos? Como reduzir a contaminação por mercúrio, nas águas dos nossos rios? É possível eliminar a contaminação por metais pesados de nossos corpos? Dos corpos dos demais seres vivos?
Os limites da natureza não são apenas quantitativos, mas qualitativos também, e possuem capacidades específicas, como de taxa de renovação ou regeneração.
Transformações necessárias
Propostas de mudança do modelo de desenvolvimento estão ocorrendo ao redor do mundo e podem ser notadas.
Seja na luta de resistência de comunidades tradicionais, nas denúncias graves divulgadas por organizações de proteção ambiental, no pensamento e ação ecológica de ecossocialistas, nos movimentos de reforma agrária e agroecologia, nos protestos em defesa de bens comuns como água e ar puro, entre tantos outros.
No Brasil, de imediato, urge atuar junto ao legislativo para acompanhar a elaboração de leis de interesse socioambiental, evitar o desmonte do arcabouço legal bem constituído na proteção ambiental. Urge ainda manter a capacidade de atuação de órgãos executivos, fiscalizadores, que operacionalizem o cumprimento das leis.

É crucial escolher quem represente politicamente uma visão de mundo renovada, que incorpore respeito a toda a grandiosidade da natureza brasileira. E que represente a diversidade cultural, em seus múltiplos aspectos de cuidados e proteção aos ambientes naturais de nosso país, a riqueza de conhecimentos, visões de mundo, modos de vida, que caracterizam a história do Brasil.
Atuei durante anos como servidora pública no poder executivo, na área ambiental, e entendo a importância das políticas públicas, construídas democraticamente, que atendam aos interesses socioeconômicos e ambientais da maioria da população do país. Há muitas minorias precisando se manifestar plenamente.
É com este olhar que gostaria de contribuir aportando provocações sobre caminhos que nos tragam esperança e possibilidade de atuação nas mudanças necessárias para enfrentamento da crise. Mudança sistêmica na nossa relação com o ambiente, revisão de nosso paradigma do que seja civilização.

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Saiba como colocá-lo nas referências:
RIBEIRO, Andréa. E se a nossa luta pelo planeta fosse, na verdade, uma luta por nós mesmos? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/e-se-a-nossa-luta-pelo-planeta-fosse-na-verdade-uma-luta-por-nos-mesmos.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- COMITÊ CHICO MENDES. Memória e legado. Disponível em: https://www.comitechicomendes.org/memoria-e-legado.
- CONSELHO NACIONAL DOS SERINGUEIROS. Aliança dos Povos da Floresta. Disponível em: https://cnsbrasil.org/alianca-dos-povos-da-floresta/.
- LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? 2. ed. São Paulo: Cortez, 2014. (Coleção questões da nossa época, v. 54).