Biodiversidade ou consumo? O que está em jogo no futuro dos nossos Parques Urbanos?

Várias cidades brasileiras discutem, hoje, a gestão de parques urbanos. Essas discussões, quase sempre, se resumem a aspectos normativos e financeiros de contratos de concessão, celebrados sob as justificativas usuais: restrições orçamentárias do poder público e a mitológica competência gerencial da iniciativa privada.  

Transformados em ativos financeiros, propõe-se que parques urbanos sejam experimentos mercantilistas com negociação de naming right de espaços coletivos, exposição de painéis publicitários, realização de eventos de diferentes naturezas e variadas opções de consumo. E os visitantes assumem o papel de consumidor-espectador.

Quando o capital impõe as regras de uso em parques urbanos, é de se esperar que as funções ecossistêmicas possam sofrer em decorrência da ampliação da oferta de produtos e serviços comercializáveis. Algumas das ameaças à oferta dos serviços ambientais nessas áreas incluem: redução da cobertura vegetal e perda de habitats, impermeabilização do solo, poluição sonora, uso público intensivo além da capacidade suporte e artificialização dos ambientes.

É inegável que o convívio social em espaços públicos dá vida às cidades, fortalece comunidades e é um elemento de segurança para as pessoas. Experiências socioculturais em coletividade podem ser desenvolvidas em diferentes locais como centros culturais e museus, ruas e alamedas, largos e canteiros centrais, e até mesmo em parques urbanos, desde que respeitado o zoneamento de uso da área verde, em função das suas características, objetivos e definições de manejo.

Por outro lado, como uma espécie de espaço livre urbano, é preciso que áreas verdes tenham condições de exercer efetivamente suas funções ambientais e permitir verdadeira conexão com o ambiente natural para assim contribuir para a qualidade de vida e o bem-estar físico e mental das pessoas.

Artigo recente de Morato e colaboradores (2026), publicado em um jornal de psicologia ambiental, destaca que a relação entre natureza e saúde mental se dá em função do envolvimento das pessoas com o ambiente natural, o que depende de características socioambientais das áreas verdes muito mais do que à sua extensão.

Atividade de Observação de Aves (Birdwatching). Foto: Isabelle Meunier (Arquivo Pessoal).

Um parque urbano guarda inúmeras e variadas possibilidades de educação ambiental e vivências conectadas com a Natureza. A observação de aves, por exemplo, apresenta tesouros da biodiversidade a adultos e crianças e contribui para a ciência por meio do registro participativo de ocorrência de espécies. Isso possibilita conhecer uma riqueza insuspeita de avifauna, mesmo em ambientes alterados, e observar a sua relação com a flora e com os ritmos da natureza.

Atividade de Observação de Aves (Birdwatching). Foto: Isabelle Meunier (Arquivo Pessoal).

É difícil imaginar a compatibilização entre a atividade de observação de aves e o uso intensivo dos ambientes para eventos que envolvam multidões.  E aqui é importante observar que frequência de usuários não é um indicador de fácil interpretação para avaliar a aceitação de um parque pela população.   Parquinhos infantis com fila de crianças impacientes pode ser em cenário tolerável em play centers de shopping centers, mas não é o que se espera como experiência em um parque urbano.

A frequência muito elevada a um parque de vizinhança pode indicar uma concentração de atrações nem sempre condizentes com objetivos do espaço, além de provavelmente apontar para a distribuição injusta de áreas verdes na cidade.

Imagem aérea do Areião Parque em Goiânia (GO).

Objetivamente, antes de pensar em oferecer as áreas verdes públicas ao livre comércio, municípios precisam organizar seu Sistema Municipal de Áreas Verdes. Este deve conter diagnósticos, objetivos, metas de ampliação, restrições particularizadas em função dos atributos ambientais de cada unidade, definição de medidas de manutenção e atividades de promoção do uso público em interação com a Natureza. Além de também não esquecer a forma de gestão e de financiamento desse sistema e as estratégias de participação e controle social.

Áreas verdes oferecem serviços de regulação, como amenização climática, absorção de carbono (CO2) e poluentes, controle de doenças e pragas, entre muitos outros. Essas áreas também podem permitir reflexões de fundo ético, envolvendo respeito a outras formas de vida e resistência à lógica do realismo capitalista, que nega o que há de humano na nossa humanidade e o que há de natural no nosso ambiente.  

Parques urbanos, muito mais do que oportunidades de negócio para poucos, podem ser o espaço onde se preserva o silêncio para ouvir os muitos sons do mundo não-humano. Nessas áreas é possível se conduzir a atenção para perceber outras formas de vida e onde é possível viver, ao menos por algumas horas, sem atender as demandas do capitalismo e sem abrir mão da essência humana.

Gostou do nosso conteúdo e quer utilizar parte deste artigo? Não esqueça de nos citar!
Saiba como colocá-lo nas referências:

MEUNIER, Isabelle. Biodiversidade ou consumo? O que está em jogo no futuro dos nossos Parques Urbanos? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/biodiversidade-ou-consumo-o-que-esta-em-jogo-no-futuro-dos-nossos-parques-urbanos.html>.

Referência e Sugestão de Leitura:

MORATO, K. V. et al. Contrasting urban and rural pathways linking green areas to mental health. Journal of Environmental Psychology, v. 112, jun. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jenvp.2026.103088. Acesso em: 29 jul. 2026.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *