O que se perde quando a Política Climática não escuta o Sagrado?

Antes de existir a palavra “sustentabilidade”, já existia o terreiro.

Muito antes dos relatórios do IPCC, das metas de carbono e das conferências climáticas, comunidades de matriz africana no Brasil já praticavam uma relação com a natureza que a ciência ocidental ainda tenta nomear. No candomblé, a terra não é recurso. É sujeito. E essa distinção, aparentemente simples, carrega uma revolução epistemológica que o debate ambiental ainda não soube absorver.

Os Orixás são forças da natureza. Oxum é a água doce, os rios e a fertilidade. Iemanjá é o mar. Ossaim é a folha, o conhecimento das plantas, a cura que vem da mata. Xangô é a tempestade, o trovão, a justiça que cai do céu. Não são símbolos decorativos — são a natureza ela mesma, personificada, reverenciada, escutada. Quando um terreiro cuida de uma planta, está cuidando de um orixá. Quando protege uma nascente, está protegendo uma divindade.

Há um princípio no candomblé que sintetiza tudo isso com uma precisão que nenhum manual ambiental conseguiu superar: Kò sí ewé, kò sí Òrìà,  sem folhas não há orixá. Sem a natureza viva, não há espiritualidade. Não há comunidade. Não há axé! Essa energia vital que circula entre os seres, que conecta o humano ao sagrado, o sagrado ao território, o território à vida.

O terreiro como ecossistema

Essa cosmologia não fica só no plano espiritual. Ela se materializa no espaço físico.

Os terreiros são, em sua maioria, ilhas de vegetação em territórios urbanos periféricos, lugares onde a mata não cedeu completamente ao concreto, onde árvores centenárias foram preservadas porque abrigar um Orixá é razão suficiente para não derrubá-las. Plantas medicinais, ervas rituais, árvores frutíferas, espaços de água: o terreiro guarda uma biodiversidade urbana que políticas públicas de arborização nunca conseguiram replicar artificialmente.

Estudos sobre cobertura vegetal em áreas periféricas do Rio de Janeiro mostram que a Zona Norte concentra índices significativamente menores de arborização do que as regiões sul e centro da cidade. Em meio a esse déficit, os terreiros funcionam como reservas ecológicas informais — não por decreto, não por financiamento, mas por devoção.

Isso é ação climática. Praticada há séculos. Sem receber esse nome.

O que as políticas climáticas ainda não enxergam

Em 2023, o Brasil lançou o Plano de Transformação Ecológica. Em 2024, o Rio de Janeiro passou a implementar a revisão de seu Plano Diretor, instituída pela Lei Complementar nº 270, ao mesmo tempo em que estruturou novas ações de preparação e resposta aos riscos climáticos por meio do Plano Verão 2024/2025. Documentos extensos, metas ambiciosas, linguagem técnica impecável. Em vários aspectos, representam um avanço real na forma como o país e o município pensam sua relação com a crise climática.

Os terreiros não aparecem em nenhum deles. Não como agentes. Não como parceiros. Não como territórios a proteger ou saberes a incorporar. A política climática brasileira reconhece florestas, reconhece comunidades indígenas — ainda que de forma insuficiente —, mas segue invisibilizando as comunidades de matriz africana como sujeitos do debate ambiental.

Cidade Ocidental (GO), 20/07/2024 – Festival Latinidades promove, no Quilombo Mesquita, diálogos sobre as estratégias e tecnologias ancestrais dos povos e comunidades tradicionais para enfrentar desafios ambientais e sociais. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Isso não é esquecimento. É o mesmo apagamento histórico que perseguiu essas comunidades desde a colonização, agora reproduzido nas planilhas de carbono e nos planos de adaptação climática.

Quem define o que conta como “conhecimento ecológico”? Quem decide quais práticas merecem ser financiadas, protegidas, replicadas? Essas perguntas não são técnicas. São políticas. E enquanto não forem respondidas com honestidade, a transição ecológica brasileira seguirá sendo incompleta. Bonita nos relatórios e excludente na prática.

O que muda quando o terreiro entra no mapa

Reconhecer os terreiros como territórios climáticos não é romantismo. É precisão.

É entender que existem, espalhados pelas periferias brasileiras, espaços que já praticam reflorestamento urbano, gestão de plantas medicinais, preservação de nascentes e transmissão intergeracional de conhecimento ecológico. Tudo isso sem uma linha de financiamento climático, sem um técnico do governo, sem um certificado de sustentabilidade.

O que falta não é a prática. É o reconhecimento. É a política pública que chegue onde o axé já está.

Rio de Janeiro (RJ), 20/01/2026 – Lavagem da escadaria Baden Powell com água de cheiro homenageia Oxossi, em Copacabana, zona sul da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A crise climática exige que ampliemos o que entendemos por solução. E algumas das respostas mais antigas e mais consistentes estão nos terreiros — esperando, há séculos, que o debate finalmente chegue até elas.

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TEIXEIRA, Matheus. O que se perde quando a Política Climática não escuta o Sagrado? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/o-que-se-perde-quando-a-politica-climatica-nao-escuta-o-sagrado.html>.

Referências e Sugestões de Leitura:

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