Meninos não nascem apaixonados por carros. Nem meninas!

Há um hábito que se instala cedo em muitas casas: o carrinho como presente para os meninos, o livro com uma fila de automóveis coloridos na capa, o desenho animado onde o herói conduz um carro veloz. Não é por acaso.
Pode parecer implicância, mas faça um exercício: imagine-se com 4 anos de idade. Em casa, você brinca com dezenas de carrinhos que fazem vrum-vrum, aceleram, batem. Ao sair, você entra no carro, vê a cidade pela janela e chega no cinema para ver um filme de carros que fazem vrum-vrum, aceleram, batem. Antes do filme começar, as propagandas mostram carros que fazem vrum-vrum, aceleram, mas não batem (estes não).

Os anos vão passando e você acha natural e desejável o carro ser forma dominante de se locomover. Não vê a hora de ter sua caixa metálica, fazer vrum-vrum e acelerar. Para você, a rua é um lugar perigoso, para ser atravessada no menor tempo possível, não um lugar para estar. Você parece um apaixonado por carros desde pequeno.
Sinto informar, mas isto não é paixão. É reflexo de uma cidade, e de uma cultura visual, construída em torno do automóvel. Durante décadas e décadas, os centros urbanos são desenhados para o fluxo de carros, não de pessoas. Sem exagero. Está nos manuais e nos planos diretores: os carros particulares são privilegiados na organização da vida urbana.

A maior parte do espaço público é dedicado a faixas para eles acelerarem ou descansarem, às vezes por horas, às vezes por dias. Viadutos, túneis, cruzamentos complexos e vias rápidas urbanas. Semáforos calibrados para otimizar o tráfego motorizado. Bilhões gastos em manutenção do asfalto para carros cada vez maiores e mais pesados. Todos pagam por isso, mesmo quem não tem carro.
Esse privilégio tem outros custos se você tem 4 anos de idade: há menos espaço para brincar, menos contato com a natureza, mais sedentarismo, mais poluição e mortes no trânsito. Os poucos parquinhos ao ar livre foram cercados para os carros fazerem vrum-vrum e acelerarem livremente do lado de fora.
Mas nós precisamos fazer vrum-vrum e acelerar, certo? Como seria uma cidade sem carros? Ou pelo menos uma cidade em que os carros não tenham tantos privilégios? O imaginário é tão difícil de ser desconstruído quanto o concreto e o asfalto que dominam as ruas. Mas não é impossível.

Podemos começar com ações que nem precisam de britadeiras e marretas. Ocupar uma vaga de estacionamento com bancos, floreiras e jogos. Abrir um trecho de rua para as pessoas, por algumas horas, um dia inteiro ou um fim de semana. É apenas tendo outras experiências que conseguimos imaginar coisas diferentes.
Em casa, observe as histórias que eles consomem e contam. Quantas pessoas vão de carro, a pé, de bicicleta ou de transporte público? O desequilíbrio costuma ser revelador. Se quiser promover a diversidade no imaginário:
- Procure histórias onde a rua é palco, não obstáculo. Livros em que a viagem é parte da narrativa, não apenas o destino.
- Evite monopolizar o imaginário. Isto já vai acontecer fora de casa. Incentive brincadeiras que estimulem o cuidado com meninos e a aventura com meninas.
- Dê espaço a personagens sem carro por escolha, não por falta de alternativa. A mensagem muda muito quando o transporte ativo aparece como limitação ou como preferência ou aventura.
- Não exclua os carros, encontre um equilíbrio. Não se trata de banir automóveis das histórias infantis, mas de garantir que não são a única imagem de mobilidade disponível.
Não é moralismo ou politicamente correto. Representação em livros infantis molda expectativas. Histórias onde as personagens caminham, pedalam ou viajam de transporte público mostram a rua como espaço social, ressaltam detalhes do bairro e estimulam a autonomia. Apresentar essa diversidade é o que chamo de literacia urbana.

Há ainda um efeito mais “perigoso”: livros que mostram crianças ativas nas ruas normalizam essas escolhas também para os adultos. Um pai ou uma mãe que lê sobre uma personagem que vai de bicicleta para a escola tem, aos poucos, um argumento visual e emocional a mais para experimentar o mesmo com a sua criança.
Talvez este adulto comece a exigir dos seus governantes eleitos uma cidade que não seja orientada para fazer vrum-vrum, acelerar, bater. Quem sabe, daqui algumas décadas, vamos perceber que não era paixão pelos carros. Era cilada mesmo.

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FÜSSY, Peter. Meninos não nascem apaixonados por carros. Nem meninas! Autossustentável. Disponível em: .<https://autossustentavel.com/2026/10/meninos-nao-nascem-apaixonados-por-carros-nem-meninas.html>.