Os frutos não são meus! O que uma Comunidade Ribeirinha do Pantanal nos ensina sobre Justiça Climática?

Em Porto Esperança, comunidade ribeirinha de Corumbá (MS), moradores dividem com os bichos o pouco que a seca deixou. Indicadores ambientais não costumam medir isso.
Cheguei a Porto Esperança achando que sabia alguma coisa. Não tudo, nunca tudo, mas alguma coisa sobre o que acontece em uma comunidade ribeirinha do Pantanal quando a chuva diminui, a temperatura sobe e o fogo atravessa o que antes era área úmida. Estudei isso. Tenho dados sobre isso. Fui até lá para ouvir sobre isso.
Em uma das entrevistas, conversávamos sobre os frutos do quintal quando comentei que o jenipapo poderia virar fonte de renda. Era uma observação automática, o tipo de coisa que pesquisadores de desenvolvimento dizem o tempo todo. O morador me interrompeu com calma.
“Não tem sentido pensar em vender quando os passarinhos estão com fome.”
Ele me explicou que os frutos daquele ano tinham saído menores e mais escassos, porque a seca havia comprometido a safra. E que exatamente por isso, ele tinha decidido não colher mais para consumo próprio. Deixar para os animais. “Não faz sentido ter dinheiro quando tem bicho morrendo de fome.”.
Fiquei quieta por um momento. Não porque a frase fosse difícil de entender — ela é simples. Mas porque ela desfazia, numa sentença, todo o raciocínio que eu tinha levado para aquela entrevista.
A seca de que ele falava tem números. O Pantanal é o bioma brasileiro que mais aqueceu nas últimas quatro décadas: quase 1,9 °C desde 1985. A área que alaga a cada ano encolheu cerca de 75% no mesmo período.

Em 2020, o fogo consumiu cerca de um quarto do Pantanal brasileiro e matou, estima-se, 17 milhões de animais vertebrados. Em 2024, ano mais seco já registrado no bioma, cerca de 2 milhões de hectares voltaram a queimar.
Não faz sentido
Em outra casa, uma cobra apareceu no quintal enquanto conversava com o morador. Ele pediu à neta que se afastasse e esperasse. Disse que sempre ficava chateado quando algum vizinho matava as cobras. “Elas estão fugindo do fogo. Não têm pra onde ir. Não faz sentido matar.”. Contou que já tinha discutido com vizinhos por isso. No quintal dele, cobra não se mata.
Não faz sentido. Ouvi a mesma expressão em casas diferentes, de pessoas diferentes, sobre coisas diferentes: vender um fruto, não matar uma cobra… Não era heroísmo. Era outro critério para decidir o que faz sentido.
Das 21 pessoas que entrevistei (a maioria, mulheres), quase todas descreveram a mesma prática: dividir o que têm com os animais que chegam às casas e aos quintais buscando o que a seca e o fogo lhes tiraram. Pássaros, morcegos, tamanduás. Animais que, como essas famílias, estão sendo empurrados para o limite por uma crise que não criaram.

Nem todos os moradores agem assim. Mas a prática é frequente demais para ser exceção. E essa frequência pode se tornar incômoda para quem pensa a sustentabilidade com a lógica do mercado.
Ninguém em Porto Esperança está adotando uma “estratégia de conservação”. Ninguém acumula crédito de carbono nem gera serviço ecossistêmico mensurável. O que essas pessoas fazem é uma escolha ética concreta, todos os dias, dentro da escassez real: reconhecem que outros seres também têm direito ao que resta. E que esse direito vem antes do lucro.

Isso não é ingenuidade. É uma sofisticação moral que muitas políticas ambientais ainda não sabem como nomear. A palavra existe: cuidado. Um cuidado que não para na cerca do quintal nem na fronteira entre espécies.
Do outro lado da cerca
Porto Esperança não tem frota de carros. Não tem data center. Tem quintais onde os frutos minguam por causa de uma seca produzida, em boa parte, longe dali, nas emissões globais e nos desmatamentos, que reduzem a água que chega à planície.
O morador do jenipapo, mesmo sem ter causado essa crise, divide o pouco que sobrou com quem também perdeu.
Nem tudo, porém, vem de longe. A poucos metros das casas, separado da comunidade por uma cerca, fica o terminal de onde a LHG Mining, do grupo J&F, embarca minério de ferro pelo rio Paraguai. Moradores denunciam pó vermelho e barulho, o Ministério Público Federal investiga possíveis danos ambientais e o projeto de expansão prevê embarcar até 15 milhões de toneladas por ano.
O próprio relatório de impacto ambiental reconhece Porto Esperança como a comunidade mais impactada pelo empreendimento. “Viramos um estorvo para esses negócios”, disse já em 2023 Maria Auxiliadora Gomes, presidente da Associação de Mulheres Ribeirinhas de Porto Esperança.
No mesmo território, convivem duas ideias do que faz sentido. Uma mede o rio em toneladas por ano. A outra deixa o jenipapo para os passarinhos.

O que os indicadores não medem
São nesses quintais que parte da resposta à crise já acontece. Justiça climática começa por reconhecer quem já divide o que resta com os demais seres vivos. E por reconhecer que são essas pessoas que vão sentir primeiro o que o resto do mundo ainda discute em conferências.
Saí de Porto Esperança sabendo menos do que quando entrei. E com uma pergunta que ainda me desconforta: como é que eu, que escolhi esta área justamente porque amo os animais e acredito na conservação, cheguei a um quintal de frutos escassos e pensei primeiro em renda?
O capitalismo não fica do lado de fora quando a gente cruza o portão de uma comunidade ribeirinha. Ele vai junto, instalado, moldando o que a gente consegue enxergar antes de enxergar qualquer outra coisa.
Do lado de dentro do portão, alguém pensou nos passarinhos antes de pensar no dinheiro. Para eles, isso faz todo o sentido. A gente é que ainda não aprendeu a colocar esse sentido em nenhum indicador.

Para se aprofundar mais sobre o que está acontecendo
- Leia a reportagem de ((o))eco sobre a pressão de portos e estradas em Porto Esperança e a da Pesquisa FAPESP sobre o aquecimento do Pantanal.
- Acompanhe o licenciamento da expansão do terminal: o Relatório de Impacto Ambiental, é público e está no site do Imasul.
- Conheça a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras e a história da Associação de Mulheres Ribeirinhas de Porto Esperança, contada pela ECOA.

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DIAS, Renata. Os frutos não são meus! O que uma Comunidade Ribeirinha do Pantanal nos ensina sobre Justiça Climática? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/os-frutos-nao-sao-meus-o-que-uma-comunidade-ribeirinha-do-pantanal-nos-ensina-sobre-justica-climatica.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- BOURSCHEIT, Aldem; ESQUER, Michael. Pressão por terras, portos e estrada sufocam comunidade no Pantanal. ((o))eco, 2023. Disponível em: https://oeco.org.br.
- CORREIO DO ESTADO. Mineradora planeja expansão de R$ 1,9 bi no Pantanal sob denúncias de moradores. Correio do Estado, 2026. Disponível em: https://correiodoestado.com.br.
- G1 MS. Pó vermelho e barulho: como a exploração de minério mudou a rotina de comunidade isolada no Pantanal. g1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com.
- MAPBIOMAS. MapBiomas Atmosfera: o clima no Brasil — temperatura e precipitação nos biomas (1985–2024). Factsheet, 2025. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org.
- MAPBIOMAS. RAF 2024: Relatório Anual do Fogo. MapBiomas Fogo, 2025. DOI: 10.58053/MapBiomas/JKWSW7.
- PIVETTA, Marcos. Pantanal é o bioma brasileiro que mais aqueceu e perdeu chuvas em 40 anos. Revista Pesquisa FAPESP, n. 360, 2026. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br.
- TOMAS, Walfrido Moraes et al. Distance sampling surveys reveal 17 million vertebrates directly killed by the 2020’s wildfires in the Pantanal, Brazil. Scientific Reports, v. 11, 23547, 2021. DOI: 10.1038/s41598-021-02844-5.
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