O que vem depois da morte? Entre o Luto, as Crenças e a Sustentabilidade

Se a morte é o fim, esse conteúdo não faz tanto sentido, mas acredito em renascimento, então precisava escrevê-lo.
Segunda-feira foi Dia de Finados e poderia relacionar a data diretamente ao meio ambiente. Falaria, por exemplo, sobre como a vela de parafina (resíduo do petróleo) é prejudicial e emite gases poluentes, como benzeno e tolueno. Há artigos (interessantíssimos, por sinal) sobre esse tema. Mas o conteúdo técnico não vai ser o foco aqui.
Poderia também discorrer pelos direitos humanos, entrando no quesito de diversidade cultural e religiosidade que a data remete, reconhecendo cerimônias como:
- Missas, flores e velas para a salvação eterna das almas no purgatório, no Catolicismo;
- Nas velas brancas para as almas e os Orixás da passagem (laroyê, Omulu), na Umbanda;
- Orações de amor e pensamentos positivos para os espíritos desencarnados, no Espiritismo;
- No ritual do Axexê e culto aos Eguns, no Candomblé;
- Nas intenções de iluminação e renascimento do Budismo.
- Nas lembranças nos aniversários de mortes de cada pessoa, colocando nos túmulos pedras que simbolizam respeito e permanência, no Judaísmo.
Como talvez dê para perceber, gosto muito da abordagem de cada uma e tenho o sonho de vivenciar o Día de los Muertos no México, desde que assisti “Viva, a Vida é uma Festa” (diga-se de passagem, meu filme favorito)!

Esse texto também não é estritamente sobre isso, mas vou contextualizar como essa data me atravessa, juntamente com a sustentabilidade.
Tive um ano na minha vida em que a cada mês uma pessoa falecia, sem exageros. O encontro familiar mensal era em velórios. Em janeiro, tio Vitor por uma infecção generalizada após um acidente de moto; em fevereiro, tia Lenita, por complicações de uma doença crônica; em março, tio José, infartando em um jogo de futebol; e por aí foi ao longo de todo o ano.
Como minha família é um pouco disfuncional, a partir do quarto mês começamos a fazer bolão para ver quem seria o(a) próximo(a), lembro até de um dia em que jogaram a coroa de flores para trás para ver quem pegava.
Um pouco mórbido (e desrespeitoso para alguns, peço perdão), mas as brincadeiras ajudavam a trazer leveza para momentos tão dolorosos e surreais da perda de entes queridos.
Justamente por esse contexto, em todo 2 de novembro, e muitos outros dias do ano, cresci realizando e participando de cerimônias em respeito à vida, à morte e à saudade das pessoas amadas que já não estão aqui.

Também aprendi a rezar pelo descanso e luz das almas que não têm quem reze por elas. Até quando viajo para outros lugares, se tenho um tempinho gosto de visitar cemitérios locais (especialmente cemitérios-parques, que são belíssimos), sempre com respeito e carinho.
Vida, morte e renascimento
Uma reflexão que sempre me vêm nesses ambientes é a dicotomia entre a morte e a vida. Observar plantas que nascem no meio do concreto e sobre os túmulos, gestantes em velórios, lembrando que diariamente pessoas nascem, morrem e a humanidade continua.
Em cada religião e cultura, como comentei, se tem uma visão sobre o que acontece após a morte. Este texto é justamente sobre isso: vida, morte e renascimento (não necessariamente a nossa enquanto seres humanos, isso deixo para cada crença pessoal) do planeta.
Hoje, já existem, inclusive, cemitérios sustentáveis, que minimizam o risco biológico e impacto ambiental:
- Cemitérios Ecológicos com os sepultamentos feitos na terra (alguns inclusive, com árvores plantadas sobre o local) ou em gavetas biosseguras que tratam os gases e impedem que o chorume gerado escape ou contamine o meio ambiente;
- Urnas biodegradáveis feitas de fibra de coco, celulose, papel reciclado ou sal impactado. Algumas com sementes misturadas às cinzas, transformando os restos mortais em nutrientes para plantas;
- Cremação Ecológica dissolvendo o corpo em uma solução de água e hidróxido de potássio sob pressão e calor, evitando a emissão de gases poluentes e consumindo até 90% menos de energia que a cremação tradicional.

Em sua essência, Sustentabilidade é aquilo que se sustenta e a natureza é sábia nesse quesito. A cada estação se renova o ciclo das árvores, algumas plantas, como minha pobre avenca, parecem ter morrido, mas se você podar, voltam à vida. Rejeitos orgânicos adubam e fortalecem o solo para novas vidas.
Precisamos justamente dessa sabedoria para a renovação. As mudanças climáticas e o esgotamento dos recursos naturais chegam cada vez mais ao limite do planeta. Por isso, é urgente que mais pessoas desenvolvam consciência em prol de novos hábitos e formas de habitar e “consumir” a Terra.
Novas formas de viver em harmonia com o planeta
Transformar nossa relação com o planeta, não passa só por grandes indústrias fazendo diferente, nem exclusivamente por pequenos passos, como o movimento Segunda sem Carne.
Para renovar e regenerar o planeta, precisamos passar por uma ressignificação completa em nossas ações diárias, assim como ressignificamos a vida após a morte quando nos deparamos com ela de forma próxima.
Todas as datas marcantes ao longo do ano, como o próprio Dia de Finados, podem funcionar como um excelente lembrete para desenharmos novas formas de viver, com mais consciência e intencionalidade.

Do simples ao complexo: substituir a vela de parafina pela vela vegetal, fomentar a economia circular, mobilizar projetos de lei para a demarcação das terras indígenas, cobrar punições para crimes ambientais e etc.
Ao escrever este texto, me percebi refletindo que não há absolutamente nada que não passe pelo conceito de sustentabilidade, nem mesmo a morte e muito menos a vida. A vida das pessoas (físicas e jurídicas), da fauna, da flora e de toda a existência.
Que a luz encontre todas as almas e ilumine também nosso caminho por um mundo mais sustentável!

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Saiba como colocá-lo nas referências:
CARVALHO, Bruna. O que vem depois da morte? Entre o Luto, as Crenças e a Sustentabilidade. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/11/o-que-vem-depois-da-morte-entre-o-luto-as-crencas-e-a-sustentabilidade.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma sociologia das interpenetrações de civilizações. São Paulo: Edusp, 1989. Disponível em: https://www.Edusp.com.br.
- BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resolução nº 335, de 3 de abril de 2003. Dispõe sobre o licenciamento ambiental de cemitérios. Brasília, DF: CONAMA, 2003. Disponível em: http://www.mma.gov.br/port/conama/res/res03/res33503.html.
- CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA (CIC). A vida eterna. Vilar Um: Libreria Editrice Vaticana, 1992. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c3p1_988-1065_po.html.
- KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Disponível em: https://www.febnet.org.br.
- LIS, Anna; WOLNY-KOŁADKA, Katarzyna; ŁAGOWSKI, Grzegorz. Some Candles Emit Hazardous Materials for Human Health and are Indoor Air Pollutants. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 18, n. 19, 10275, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.3390/ijerph181910275.
- MOVIMENTO SEGUNDA SEM CARNE. Sobre o movimento. São Paulo: Sociedade Vegetariana Brasileira, 2026. Disponível em: https://www.segandosemcarne.com.br.
- WANG, Yu et al. Impact of scented candle use on indoor air quality and airborne microbiome. Building and Environment, v. 238, 110360, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.buildenv.2023.110360.
Declaração de Transparência sobre Uso de Inteligência Artificial
Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial Gemini para listar inicialmente as melhores práticas de cemitérios ecológicos e confirmar as formas de celebração e homenagem das diferentes religiões para o Dia de Finados. A revisão e validação técnica foram feitas pela autora.