Pobreza Energética: Quando Ter Luz em Casa Não Significa Viver com Dignidade

A realidade oculta de milhões de famílias que precisam escolher entre pagar a conta de luz, comprar remédios ou colocar comida na mesa.
O ventilador está na sala. A geladeira funciona. A energia não foi cortada. Mesmo assim, em milhares de lares brasileiros, esses equipamentos são usados o mínimo possível. Não por consciência ambiental, mas porque a conta de luz pesa demais no orçamento familiar.
Em um país onde as ondas de calor se tornam cada vez mais frequentes, milhões de pessoas convivem com uma realidade pouco discutida: a pobreza energética. O termo ainda é desconhecido para grande parte da população, mas seus efeitos são sentidos diariamente por quem precisa escolher entre pagar a conta de luz, comprar alimentos ou adquirir medicamentos.
Segundo o Ministério da Fazenda (2026), em estudo desenvolvido em parceria com a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), a pobreza energética está relacionada à dificuldade de acesso aos serviços energéticos necessários para uma vida digna. Já a Agência Internacional de Energia (IEA) (2020) destaca que o acesso à energia envolve não apenas eletricidade, mas também condições adequadas para cozinhar, conservar alimentos, estudar, trabalhar e acessar serviços essenciais.
Em outras palavras, não basta que a energia chegue à residência. É preciso que as famílias consigam utilizá-la sem comprometer sua saúde, sua alimentação e sua qualidade de vida.
Uma desigualdade que quase ninguém vê
Quando falamos em pobreza, normalmente pensamos em renda, moradia ou alimentação. Raramente pensamos na energia.
No entanto, ela está presente em quase tudo. É a energia que mantém os alimentos conservados, permite que crianças estudem à noite, garante a refrigeração de medicamentos, possibilita o acesso à informação e ajuda as famílias a enfrentarem temperaturas extremas. Sem acesso adequado à energia, atividades simples tornam-se desafios diários.

Por isso, especialistas, pesquisadores e organizações sociais vêm ampliando o debate sobre justiça energética, defendendo que a energia seja tratada como um direito fundamental e acessível a toda a população. Pesquisa do Instituto Pólis (2024) revelou que 84% dos brasileiros consideram que a energia elétrica deveria ser um direito garantido pelo Estado.
O Nordeste sente os efeitos dessa desigualdade todos os dias
Quem vive no Nordeste reconhece facilmente essa realidade. Em cidades como Recife, Fortaleza, Salvador e Maceió, o calor intenso faz do ventilador muito mais do que um item de conforto. Em muitos momentos, ele se torna um instrumento de proteção da saúde.
Nas comunidades urbanas periféricas e em áreas do Semiárido, não é raro encontrar famílias que limitam o uso de ventiladores, geladeiras ou outros aparelhos essenciais para evitar o aumento da conta de luz.

Vivendo no Nordeste, observo frequentemente situações que ilustram essa realidade. A energia está disponível, mas nem sempre é economicamente acessível. Foi justamente esse fenômeno que pesquisadores passaram a chamar de Pobreza Energética Oculta.
Em estudo sobre o tema, Milena Santos de Souza Pinto e colaboradores concluíram que muitas famílias nordestinas restringem deliberadamente o consumo de eletricidade porque a renda não acompanha o aumento dos custos tarifários. Segundo os autores, essa redução do consumo acaba funcionando como uma estratégia de sobrevivência diante da vulnerabilidade econômica (PINTO et al., 2025).
A família possui ventilador, mas evita ligá-lo nas horas mais quentes do dia. Possui geladeira, mas reduz seu uso ao mínimo possível. Tem acesso à eletricidade, mas não consegue usufruir plenamente dos benefícios que ela deveria proporcionar.
Entre a geladeira e o prato de comida
Talvez o aspecto mais cruel da pobreza energética apareça quando a conta de luz passa a disputar espaço com necessidades básicas. Segundo pesquisa do Instituto Pólis (2024), realizada pelo IPEC, 36% das famílias brasileiras gastam metade ou mais da renda mensal com energia para cocção de alimentos e energia elétrica.

O levantamento também mostrou que, nas regiões Norte e Nordeste, a energia elétrica está entre os itens que mais pressionam o orçamento doméstico. Ainda segundo o Instituto Pólis (2024), cerca de 30% dos entrevistados afirmaram reduzir ou deixar de comprar alimentos para conseguir pagar a conta de luz. Esse dado revela uma realidade, no mínimo, desconfortável.
Quando uma família precisa escolher entre conservar alimentos na geladeira ou colocar comida na mesa, estamos diante de muito mais do que um problema econômico. Estamos diante de uma questão de dignidade humana.
Mudanças climáticas tornam o problema ainda mais grave
A crise climática adiciona uma nova camada de preocupação. As temperaturas estão aumentando e as ondas de calor se tornam mais frequentes em diversas regiões do país. Mas nem todos possuem as mesmas condições para se proteger.

O Observatório de Clima e Saúde, da Fiocruz (2024), aponta que a mortalidade relacionada ao calor no Brasil é maior entre pessoas com menor escolaridade e grupos socialmente vulneráveis. Essa constatação expõe uma injustiça frequentemente invisível.
Enquanto algumas famílias conseguem investir em climatização, melhoria das residências e equipamentos mais eficientes, outras enfrentam temperaturas extremas com recursos limitados. Por isso, discutir pobreza energética também é discutir justiça climática. Os impactos das mudanças climáticas não atingem todas as pessoas da mesma forma.
Soluções que já fazem diferença
Apesar dos desafios, experiências inspiradoras demonstram que é possível transformar essa realidade.
Em reportagem publicada no portal O Eco, Ellen Nemitz (2024) mostrou como a chegada da energia solar ao Quilombo Pixaim, em Piaçabuçu (AL), permitiu que moradores passassem a utilizar geladeiras para conservar alimentos e armazenar água gelada. Famílias que antes dependiam de formas precárias de iluminação conquistaram melhores condições de vida e maior segurança alimentar.

Outro exemplo vem de Fortaleza. Ao analisarem o Projeto Palma Solar, desenvolvido no Conjunto Palmeiras, VIANA, SEGUNDO e MASCENA (2026) demonstraram como a geração comunitária de energia solar pode reduzir gastos familiares e fortalecer a economia local. O modelo integra transição energética, inclusão social e desenvolvimento territorial.
Essas iniciativas reforçam que a solução não depende apenas de produzir mais energia. Ela passa por garantir que essa energia seja acessível para quem mais precisa. Entre as medidas apontadas por especialistas estão:
- ampliação da Tarifa Social de Energia Elétrica;
- programas de eficiência energética para famílias de baixa renda;
- incentivo à energia solar comunitária;
- melhoria das condições habitacionais;
- ações de arborização urbana e adaptação climática.
O desafio de uma transição energética justa
Quando ouvimos falar em transição energética, geralmente pensamos em parques eólicos, painéis solares e novas tecnologias. Tudo isso é importante. Mas existe uma pergunta que precisa vir antes: Quem está conseguindo se beneficiar dessa transformação?
Uma sociedade verdadeiramente sustentável não é apenas aquela que produz energia limpa. É aquela que garante que todas as pessoas possam utilizar essa energia de forma segura, acessível e digna.

A pobreza energética continua invisível para muitos brasileiros, mas está presente diariamente na vida de milhões de famílias. Reconhecer sua existência é o primeiro passo para combatê-la. Afinal, acesso não significa inclusão. Ter uma tomada na parede não garante dignidade.
Enquanto milhões de brasileiros precisarem escolher entre aliviar o calor, conservar alimentos ou equilibrar o orçamento doméstico, a transição energética continuará incompleta. Porque energia não é apenas infraestrutura. Energia é saúde. Energia é oportunidade. Energia é dignidade.

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Saiba como colocá-lo nas referências:
MOURA, Ana Cláudia. Pobreza Energética: Quando Ter Luz em Casa Não Significa Viver com Dignidade. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/pobreza-energetica-quando-ter-luz-em-casa-nao-significa-viver-com-dignidade.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIA (IEA). Defining energy access: 2020 methodology. Paris: IEA, 2020. Disponível em: https://www.iea.org/articles/defining-energy-access-2020-methodology.
- BRASIL. Ministério da Fazenda. Pobreza Energética. Brasília: Ministério da Fazenda, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/orgaos/spe/desenvolvimento-economico-sustentavel/pobreza-energetica.
- INSTITUTO PÓLIS. Justiça Energética: Pesquisa de Opinião Pública. São Paulo: Instituto Pólis, 2024. Disponível em: https://polis.org.br/estudos/justica-energetica-pesquisa-de-opiniao-publica/.
- NEMITZ, Ellen. O sol é para todos: e assim a luz chega a comunidades isoladas. O Eco, 24 jan. 2024. Disponível em: https://oeco.org.br/reportagens/o-sol-e-para-todos-e-assim-a-luz-chega-em-comunidades-isoladas/.
- OBSERVATÓRIO DE CLIMA E SAÚDE (FIOCRUZ). Projeto de adequação dos protocolos e ações de enfrentamento de ondas de calor ajustadas ao perfil climático e de morbimortalidade brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2024. Disponível em: https://climaesaude.icict.fiocruz.br/projeto-de-adequacao-dos-protocolos-de-ondas-de-calor.
- PINTO, Milena Santos de Souza; MARTINS, Mayara Neves; MARCIANO, Wesley de Jesus; REIS, Ronaldo Willian. Tarifas de energia e a ampliação da desigualdade regional: uma análise da pobreza energética oculta no Nordeste do Brasil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, v. 10, n. 12, p. 41-61, 2025. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-da-computacao/tarifas-de-energia.
- VIANA, Marúzia Almeida; SEGUNDO, João Joaquim de Melo Neto; MASCENA, Keysa Manuela C. Usinas comunitárias de energia solar. GV-Executivo, v. 25, n. 3, 2026. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/gvexecutivo/article/view/97593.
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