O Dilema do Ecoturismo Esportivo: entre Desenvolvimento e Conservação
Nos últimos anos, cada vez mais pessoas têm trocado o passeio turístico tradicional por trilhas, cachoeiras, montanhas e cavernas. Esse movimento ganhou força após a pandemia de Covid-19 e revela um novo jeito de gerar renda e desenvolvimento em lugares que, até então, recebiam poucos turistas.
O Brasil, um país enorme e cheio de belezas naturais, está no meio dessa mudança. Cidades pequenas e vilas que antes dependiam de outras atividades passaram a enxergar no ecoturismo e nos esportes ao ar livre uma nova chance de gerar emprego, renda e qualidade de vida.

O ecoturismo cresce, mas a que custo? Lugares naturais, muitas vezes frágeis, recebem cada vez mais visitantes e nem todo mundo sabe o tamanho do impacto que sua presença pode causar. Este artigo propõe uma reflexão:
Como aproveitar o potencial econômico do ecoturismo sem colocar em risco justamente aquilo que atrai os turistas, a própria natureza?
Ecoturismo é a prática de conhecer um lugar em meio à natureza, longe do turismo mais convencional. Já os esportes outdoor (trekking, corrida de montanha, ciclismo) colocam mais peso no desempenho físico e no desafio pessoal. Na prática, as duas experiências costumam andar juntas: é raro alguém pedalar por uma trilha ou correr numa montanha sem, ao mesmo tempo, vivenciar e admirar a paisagem ao redor.

Desenvolvimento econômico regional pode ser entendido como o processo de crescimento econômico de uma região (município ou vila) que caminha junto com a melhoria da qualidade de vida da população local.
É justamente esse processo que o ecoturismo tem impulsionado. Durante a pandemia, seu crescimento quase triplicou em relação ao turismo convencional, tendência que se mantém no Brasil até hoje (Jornal da USP). O mesmo aconteceu com os esportes outdoor, isolados em casa, os brasileiros passaram a valorizar o ar livre e a se aproximar da natureza.
O Brasil tem motivos de sobra pra liderar esse movimento, graças à sua biodiversidade. Esse crescimento também se transformou em política de Estado, com o Plano Nacional de Turismo 2024-2027 reforçando práticas sustentáveis e envolvimento das comunidades locais.
O impacto já é sentido por quem vive do turismo: o turismo de natureza e o ecoturismo representam 60% do faturamento das pequenas empresas do setor no Brasil, e 65,9% das empresas turísticas do país já oferecem destinos de ecoturismo (ABETA). Isso envolve não só polos consolidados, como Bonito (MS), mas também regiões pouco conhecidas caso do Parque Estadual de Terra Ronca (GO) e das Serras Gerais (TO).
Nada ilustra melhor esse potencial do que exemplos reais, alguns deles vividos por mim. Em São Domingos (GO), o Parque Estadual de Terra Ronca abriga um dos maiores complexos de cavernas da América Latina e representa fonte de renda direta para a comunidade: quanto mais ela se beneficia da preservação, mais tem interesse em protegê-la, o chamado ciclo virtuoso da conservação.

Já nas Serras Gerais (TO) — Cânion Encantado e Cachoeira do Urubu Rei, em Almas, e Lagoa da Serra, em Rio da Conceição — o modelo é o turismo de base comunitária: moradores locais recebem os visitantes diretamente, garantindo que a renda gerada fique, de fato, na região.
Participei pessoalmente do Circuito do Vinho, em Morro do Chapéu, e do Desafio 28 Praias, em Ubatuba (SP) e, em ambos, senti, na prática, o que os números deste artigo tentam traduzir em palavras: o esporte em trilha não é só desafio pessoal, é também motor de visibilidade e renda para o município que o recebe.
Esse potencial aparece também em outras corridas em trilha pelo Brasil, como no Deserto do Jalapão (TO), no Lençóis Maranhenses Trail e no Circuito de Santana do Riacho, na Serra do Cipó (MG), todos exemplos de como o esporte funciona como vitrine, levando hospedagem, alimentação e renda a municípios fora do radar do turismo convencional.
Mas, se por um lado o ecoturismo movimenta a economia, por outro expõe ambientes frágeis ao comportamento inadequado de visitantes. É comum encontrar lixo deixado ao longo de trilhas, algo que, por menor que pareça, tem efeito cumulativo e, sem o acompanhamento de guias, visitantes acabam acessando áreas interditadas por não terem noção do motivo da restrição.

Isso mostra a chamada capacidade de carga turística: cada ambiente natural tem um limite de visitantes que consegue receber sem sofrer danos permanentes. Em unidades de conservação, o acompanhamento de guia habilitado é obrigatório, mas nem todo destino conta com essa estrutura. E é aí que mora o risco maior, quanto mais um lugar cresce em popularidade sem que a fiscalização acompanhe, maior a chance de o próprio ecoturismo destruir aquilo que o tornou atrativo.
Como transformar consciência em ação? Existe diferença entre conscientizar (informar) e sensibilizar (fazer sentir, na pele, o porquê aquilo importa). É na vivência direta com a natureza que o verdadeiro aprendizado ambiental nasce, muito mais do que em cartilhas ou discursos informativos (Silva, Inácio & Betrán, 2008).
Isso não significa que a vivência substitua a estrutura, é a regulamentação, aliada à presença de guias, que garante que essa vivência aconteça sem custo para o ambiente (Bandeira & Amaral). Transformar esse dever em comportamento real é um processo que passa menos pela lei e mais pela experiência: é vivendo o ambiente que o visitante internaliza o porquê ele precisa ser protegido. Poder público e poder privado têm seu papel na fiscalização, mas é quando o turista está ali, vivenciando, que o aprendizado de fato acontece.

O ecoturismo e os esportes praticados em meio à natureza têm potencial real de transformar economias regionais, como mostram Terra Ronca (GO) e as Serras Gerais (TO). Mas, como perguntamos no início, o ecoturismo cresce, mas a que custo? Não existe fórmula pronta para eliminar os impactos que a presença humana causa em ambientes naturais. Existe a possibilidade de reduzi-los: com responsabilidade do poder público, compromisso ético do setor privado e, sobretudo, transformação pessoal que só a vivência proporciona.
Mais do que uma receita, este artigo é um convite à reflexão sobre como podemos promover o desenvolvimento econômico de uma região e, ao mesmo tempo, aprimorar nosso comportamento perante os lugares que escolhemos para nos refugiar, não só uma vez, mas sempre que voltarmos.

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Saiba como colocá-lo nas referências:
PIOVESAN, Maria Vitória. O Dilema do Ecoturismo Esportivo: entre Desenvolvimento e Conservação. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/08/o-dilema-do-ecoturismo-esportivo-entre-desenvolvimento-e-conservacao.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- ABETA. O crescimento do ecoturismo no Brasil: preservação ambiental e liderança feminina. 2025. Disponível em: https://abeta.tur.br/o-crescimento-do-ecoturismo-no-brasil-preservacao-ambiental-e-lideranca-feminina/.
- BANDEIRA, Marília Martins; AMARAL, Silvia Cristina Franco. Lazer de aventura e políticas públicas: desafios no Brasil e na Nova Zelândia. [s.d.]. Disponível em: https://cev.org.br/biblioteca/lazer-de-aventura-e-politicas-publicas-desafios-no-brasil-e-na-nova-zelandia/.
- CORRIDAS DE MONTANHA. Deserto do Jalapão. [s.d.]. Disponível em: https://corridasdemontanha.com.br/.
- CRONOCHIP. 2º Circuito de Corrida Santana do Riacho — Serra do Cipó. 2026. Disponível em: https://inscricaodecorrida.com.br/evento/2o-circuito-de-corrida-santana-do-riacho.
- INSTITUTO SEMEIA. Parque Estadual de Terra Ronca. [s.d.]. Disponível em: https://semeia.org.br/conexao-semeia/parques-do-mes/parque-estadual-de-terra-ronca/.
- JORNAL DA CHAPADA. Morro do Chapéu se prepara para a corrida do Circuito do Vinho com mais de 700 inscritos. 2025. Disponível em: https://jornaldachapada.com.br/2025/02/25/chapada-morro-do-chapeu-se-prepara-para-a-corrida-do-circuito-do-vinho-com-mais-de-700-inscritos/.
- JORNAL DA USP. Ecoturismo cresce no Brasil e se consolida como alternativa sustentável de viagem. [s.d.]. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/ecoturismo-cresce-no-brasil-e-se-consolida-como-alternativa-sustentavel-de-viagem/.
- OLYMPIKUS. Bota Pra Correr — Chapada dos Guimarães 2026. 2026. Disponível em: https://www.olympikus.com.br/botapracorrer.
- PREFEITURA MUNICIPAL DE UBATUBA. Trilhas de Ubatuba conectam 28 praias em quatro percursos. 2025. Disponível em: https://www.ubatuba.sp.gov.br/destaques/28praias3out/.
- SILVA, Ana Márcia; INÁCIO, Humberto Luís de Deus; BETRÁN, Javier Oliveira. The growing of ecotourism and the practice of adventure physical activities in the nature (APAN): elements to understand the actual situation on Spain and Brazil. Apunts. Educación Física y Deportes, Barcelona, n. 94, 2008. Disponível em: https://revista-apunts.com/en/the-growing-of-ecotourism-and-the-practice-of-adventure-physical-activies-in-the-nature-apanelements-to-understand-the-actual-situation-on-spain-and-brazil.
- TICKET SPORTS. Lençóis Maranhenses Trail 2026. 2026. Disponível em: https://www.ticketsports.com.br/e/LEN%C3%87%C3%93IS+MARANHENSES+TRAIL+2026-86000.
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Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial Claude AI para revisão de texto.