Nas bordas do mundo conhecido – Uma expedição aos limites da ciência na remota Ilha da Trindade

O cheiro de maresia misturado com combustível queimado e o barulho incessante do motor era uma combinação um pouco diferente do que estava acostumada no barco à vela. Passei boa parte dos últimos três anos velejando pelas ilhas mais remotas do planeta, e foi só recentemente que me encontrei em busca daquelas que integram as águas brasileiras.

Para chegar na ilha da Trindade, um local isolado há 1.140 quilômetros da costa do Espírito Santo, e por isso carregado de histórias fantásticas, lendas de tesouros escondidos e uma natureza praticamente intocada, uma das únicas maneiras é embarcar no Navio de Patrulha Oceanográfica Amazonas. Caminhando pelo passadiço, me lembro que uma travessia tem também a função de adequar o corpo ao fato de que estamos a caminho de uma fronteira pouco explorada e, talvez, de lembrar por que escolhemos fazer ciência em lugares extremos para começo de conversa.

Foto: Katharina Grisotti e Alex Najas (Arquivo Pessoal).

No terceiro dia a ilha despontou do mar sem aviso, com montanhas enormes esculpidas ao longo de milênios. A mais recente é datada de apenas 50 mil anos, sendo a última atividade vulcânica do Brasil. Um local há pouco consolidado, com um mosaico de formações geológicas diferentes que oferece a cada lugar que você olhe uma cor, uma forma, uma vegetação diferente.

O desembarque foi embaixo de chuva, descendo por uma escada lateral feita de madeira e corda, despencando pelos 10 metros que separava o deck do navio até bote.

E lá estávamos nós, uma comitiva de 25 cientistas que estudam como a vida reage ao isolamento – e eu, com uma câmera na mão, pisando nas bordas do mundo conhecido. É essa a sensação que fica ao nos depararmos com um universo tão distinto — uma personificação das fronteiras não só físicas, mas do nosso próprio conhecimento.

Se fizermos o exercício mental de imaginar tudo o que sabemos sobre o mundo como uma ilha, o oceano ao redor é exatamente aquilo que ainda desconhecemos. E quanto maior a ilha, maior também é a sua borda para com o desconhecido. A analogia é de Marcelo Gleiser, em “A Ilha do Conhecimento”, e em Trindade ela deixa de ser metáfora: um local que, apesar de receber cientistas desde 1957, segue quase inteiramente por descobrir.

Foto: Katharina Grisotti e Alex Najas (Arquivo Pessoal).

No primeiro dia do nosso campo, um grupo de botânicos subiu o ponto mais alto da ilha – o Pico do Desejado, para estudar as samambaias gigantes. Esses seres representam a única vegetação nativa que sobreviveu às cabras introduzidas por ingleses durante uma breve ocupação britânica no século XIX, durante a expedição do astrônomo Edmund Halley. O objetivo da pesquisa era entender o faz essas plantas de até 6 metros e que parecem terem saído de um cenário de Jurassic Park, sobreviverem em um ambiente tão extremo.

Foto: Katharina Grisotti e Alex Najas (Arquivo Pessoal).

Outro grupo, de geólogos, foi investigar rochas que, apesar de serem encontradas nas praias de Trindade, análises químicas comprovaram que foram formadas nas nuvens de vulcões de outras ilhas oceânicas no Atlântico, a centenas de quilômetros. Como são muito leves, provavelmente chegaram até Trindade flutuando, sendo trazidas pelas correntes.

Foto: Katharina Grisotti e Alex Najas (Arquivo Pessoal).

Eu me juntei ao grupo de mergulho de oceanógrafos e biólogos, que estuda periodicamente a saúde da vida marinha em Trindade há mais de dez anos. Já achava que estava em outro planeta pisando na ilha, mas quando mergulhei esse planeta virou uma galáxia. Uma variedade impressionante de peixes, polvos e outros invertebrados, além de uma vegetação marinha pristina.

Apesar desse sentimento, o mar é um lembrete constante que qualquer lugar, não importa o quanto pareça isolado, faz parte de um sistema só: Trindade fica distante da costa, mas ela é o último ponto da cadeia de montes submarinos Vitória-Trindade, que se eleva cerca de 5.500 metros do fundo oceânico e que conecta todo esse caminho, desde o continente até aqui.

Foto: Katharina Grisotti e Alex Najas (Arquivo Pessoal).

É revigorante estar em um lugar onde absolutamente tudo encanta e desperta uma curiosidade visceral que, no meio do dia a dia corrido da cidade, da agenda lotada e do trajeto mais rápido predefinido por um aplicativo, é forçada a ficar dormente.

O ser humano está desde sempre em busca de respostas sobre o universo. Mas, nas últimas décadas, as respostas parecem ser mais valorizadas que o caminho até ela. Com o avanço da inteligência artificial, com a priorização da racionalidade, e com uma tecnologia que nos permite ter ou descobrir o que desejamos com um click, o não saber virou ameaça.

Achamos que sabemos tanto sobre o mundo, que esse campo vasto e intrínseco da experiência humana, que é a relação com o desconhecido, foi se afastando cada vez mais. Talvez seja por isso que a ciência, hoje, é valorizada somente quando entrega dados – e os dados que queremos.

Foto: Katharina Grisotti e Alex Najas (Arquivo Pessoal).

Mas o que move a ciência para frente não são os dados, são as perguntas que emergem depois que aceitamos ficar por um tempo na margem da nossa ilha de conhecimento, olhando para o que ainda não tem nome.

Por isso, fazer ciência em Trindade extrapola o simbólico. É um lugar onde ainda podemos ser surpreendidos. Onde podemos sentir ao mesmo tempo aliviados e extasiados por sabermos pouco. Porque enquanto formos seres humanos, não importa quantas vezes avançamos o pé nessa linha de fronteira, o mar do desconhecido sempre estará ali, cada vez maior, pronto para ser explorado.

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GRISOTTI, Katharina. Nas bordas do mundo conhecido – Uma expedição aos limites da ciência na remota Ilha da Trindade. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/nas-bordas-do-mundo-conhecido-uma-expedicao-aos-limites-da-ciencia-na-remota-ilha-da-trindade.html>.

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