Por que é tão desafiador mudar de vida?

Entenda por que viver com mais propósito exige tanta energia
Vivemos em constante e intensas mudanças, certo? Seja por um impulso interno em busca de uma vida com mais sentido, propósito e mais saúde; seja socialmente promovendo movimentos para alcançarmos resultados mais prósperos e justos. Ou até mesmo porque as estruturas externas, tecnológicas e a crise climática estão mudando tão rapidamente nosso contexto que nos demandam uma adaptação tão rápida e extrema quanto sua velocidade de transformação.
Levei muitos anos para fazer uma transição de carreira e de vida. Na verdade, considero que ainda estou em transição. Mesmo já tendo “mudado” meu cenário corporativo há seis anos, sigo de certa forma orbitando seus contornos, entre idas e vindas, por vezes, mantendo alguns hábitos e pensamentos e em tantas outras decisões, rompendo padrões.
Foi buscando me entender e atender melhor aos meus clientes que comecei a estudar e investigar profundamente as premissas, os motores e implicações da mudança (de vida) & em nossas vidas.
Comecemos pelas premissas, que por serem tão obvias não percebemos como somos afetados e dirigidos por elas. Apesar de nossa capacidade linguística fantástica que nos distingue enquanto humanos, somos animais, queira você ou não. Somos seres vivos, e com isso, biologicamente dependentes de nutrição, água, sol, ar e movimento para que o corpo se mantenha são, física, emocional e mentalmente.

Para alcançar tal sanidade, precisamos manter minimamente uma alimentação rica em nutrientes, água e ar limpos, descanso verdadeiro para recuperação muscular e cerebral, movimento e atividade que mantenham a musculatura apta a realizar suas funções motoras e cognitivas. Quanto mais distante de um cuidado mínimo com nosso corpo, menor a nossa capacidade de tomar decisões de qualidade.
Além disso, somos mamíferos e com isso, como grande motor social, dependemos do grupo e do pertencimento para sobrevivermos. Isso significa que parte de nosso bem-estar está diretamente relacionado aos vínculos, aprovação e afeto que recebemos do grupo ao qual pertencemos, especialmente na infância. Ou seja, se o ostracismo e a indiferença são capazes de nos tirar a vida, como ser importante para aqueles que me importam se sou diferente e com isso, excluído do grupo?!
Não menos importante do que já foi dito, vivemos dentro de estruturas e sistemas que operam com certos critérios de troca. Caso não tenhamos alto valor percebido pelo coletivo, não seremos remunerados por nossas entregas. Ou seja, se formos diferentes a ponto de não sermos percebidos como úteis ou funcionais, há o risco de não conseguirmos recursos necessários à nossa subsistência. Daí surgem diversas implicações concretas para conseguirmos avançar na transição de vida sustentável e longeva.
Afinal, o que isso tudo tem a ver com sustentabilidade?
A sociedade atual nos leva a tomarmos decisões e termos comportamentos alinhados à uma cultura onde o importante é a produtividade e a escala. Onde, exaustão é sinônimo de comprometimento, e os símbolos de sucesso e caráter se confundem com a posse. E sequer questionamos esses pressupostos.

Aqueles que questionam e saem dessa lógica produtivista e consumista correm o risco de se tornar invisíveis, ou passarem por certa dificuldade estrutural de sustentar suas decisões por restrições materiais. Cá para nós, por mais fortalecida que esteja nossa autoestima, quem suportaria passar uma vida sem pertencer, sem ser visto e lutando todo mês com dificuldade para pagar as contas? É humanamente muito doloroso e desafiador.
E para buscarmos esse novo coletivo que valorize aquilo que valorizamos, precisamos “deixar para trás” não só relações antigas, amigos, e familiares. Sustentar o afastamento do que é familiar e daquilo que para a gente sempre foi o lugar seguro é extremamente difícil. Da mesma forma que sustentar comportamentos diferentes em meio a uma cultura antiga demanda uma energia interna brutal.
E aqui, o que menos me interessa é provocar polarização e radicalização de quem está certo ou errado, “nós e eles”, pois pouco vamos evoluir e nos transformar enquanto sociedade. Me interessam as pequenas decisões feitas em casa, em família, que são ampliadas no trabalho e em outros círculos. Em que podemos construir caminhos viáveis e inclusivos e capazes de perpetuá-los em longo prazo.

Para o novo ficar, é preciso fazer muito sentido para se manter constante em nossas vidas, apesar das resistências internas e externas. E o caminho para isso é estar aberto para aprender e desaprender, mudar nossas próprias referências, testar, se experimentar, e fundamentalmente, trazer à consciência as consequências de nossas pequenas decisões aparentemente inofensivas.
Não tenho a pretensão de ter aqui a resposta de ouro que resolva todas as nossas questões. Muito menos quero trazer uma perspectiva de que nada adianta fazer ou que não vamos conseguir mudar nunca, então seria melhor deixar esse assunto para lá.
Faço uma sugestão e um pedido: Sejam generosos com vocês e com os outros. Mudanças bruscas, rompimentos estruturais e posições radicais não são sustentáveis em longo prazo. Vamos desistir, vai ser doloroso emocionalmente, mentalmente e estruturalmente. O importante não é fazer tudo para ontem e no minuto seguinte voltar atrás. Precisamos de consistência e compromisso. Acima de tudo, de compromisso consigo mesmo.

Estamos todos, em maior ou menor medida, inseguros em relação ao futuro, sem respostas exatas. Preocupados com a nossa sobrevivência real, com as contas do final do mês e ainda assim, buscando mudar hábitos e comportamentos para que, coletivamente, sobrevivamos enquanto espécie. Quem somos hoje, individual e coletivamente, ainda não sustenta a transição de vida que estamos sendo convidados pelo planeta a fazer. Precisamos dar o primeiro passo, que só diz respeito a cada um de nós, sobre nossas vidas e nossas decisões.
Essa coluna será sempre uma ilha de reflexão sobre as estruturas e culturas que facilitam ou dificultam seus hábitos, decisões e desejos de se manter firme ao longo do tempo. Se pergunte a cada dia, o que pode ser feito hoje, e só hoje, para caminhar na direção daquilo que você quer ser, quer viver e quer ver em sua vida, sua família e na sociedade. Um passo por dia, um dia por vez. Vamos juntos nessa!?

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Saiba como colocá-lo nas referências:
CARVALHO, Mari. Por que é tão desafiador mudar de vida? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/por-que-e-tao-desafiador-mudar-de-vida.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- ELIOT, Lise. What’s going on in there?: how the brain and mind develop in the first five years of life. New York: Bantam Books, 2000.
- HILLMAN, James G.; FOWLIE, Devin I.; MACDONALD, Tara K. Social Verification Theory: A New Way to Conceptualize Validation, Dissonance, and Belonging. Personality and Social Psychology Review, v. 27, n. 3, p. 309-331, 2023. Disponível em: https://journals.sagepub.com/home/pspr.
- MYERS, David G.; TWENGE, Jean M. Social psychology. 12. ed. New York: McGraw-Hill Education, 2016. (Nota: ajustado para o formato padrão completo de livro acadêmico internacional).
- SPENCER, Sarah J. et al. Food for thought: how nutrition impacts cognition and emotion. npj Science of Food, v. 1, n. 1, p. 7, 2017. Disponível em: https://www.nature.com/npjscifood/.