Enquanto disputam nossa atenção, quem está decidindo nossas escolhas?

Como a economia da atenção afeta nossos hábitos de consumo e o que o mindfulness tem a ver com a sustentabilidade.

Você entra numa loja para comprar uma coisa e sai com três. Ou abre o celular para responder a uma mensagem e, alguns minutos depois, está olhando uma promoção de tênis que não estava procurando, mas que, naquele momento, parece fazer bastante sentido. Acontece.

Não é preciso estar diante de uma vitrine para ser estimulado a consumir. O desejo pode chegar enquanto esperamos o ônibus, assistimos a um vídeo, lemos uma notícia ou simplesmente passamos o dedo pela tela. A atenção virou território de disputa, e isso tem tudo a ver com sustentabilidade.

Não porque a atenção seja responsável pela crise ambiental. Não é. Mas porque, antes de qualquer escolha de consumo, existe uma pessoa percebendo, desejando, avaliando e decidindo. E, quanto mais estímulos disputam essa atenção, mais importante se torna perguntar: quanto espaço temos para perceber o que estamos fazendo?

Antes da escolha, existe a atenção

Quando falamos em consumo consciente, geralmente pensamos no momento da decisão. Qual produto comprar? Qual marca escolher? Preciso mesmo disso? Existe uma alternativa mais durável? Posso reutilizar o que já tenho? São perguntas importantes. Mas existe uma etapa anterior que costuma passar despercebida: entender o que está por trás da escolha.

A vontade de comprar pode surgir depois de uma propaganda, de uma promoção com prazo curto ou daquela sensação de que estamos diante de uma oportunidade que não podemos perder. Pode ser uma necessidade real ou apenas a promessa de uma sensação boa. Cansaço, tédio e ansiedade também podem entrar nessa equação e fazer do consumo uma resposta imediata para algo que não tem, necessariamente, relação com aquilo que estamos prestes a comprar.

Não se trata de desconfiar de toda vontade de consumo, nem de transformar cada ida ao mercado numa investigação sobre nossos desejos. Trata-se de criar um pequeno espaço antes da decisão, suficiente para reconhecer o que está influenciando aquela escolha.

Porque nossas escolhas são atravessadas por hábitos, valores, preços, conveniência, contexto, publicidade e pelas mensagens que chegam até nós o tempo inteiro. É justamente nesse espaço entre o estímulo e a escolha que a economia da atenção entra nessa conversa.

Quando a atenção vira negócio

A expressão economia da atenção descreve um cenário em que a atenção humana, por ser limitada e disputada, ganha valor econômico. No ambiente digital, isso fica especialmente evidente. Uma notificação chama, um vídeo termina e outro começa, uma plataforma recomenda, uma propaganda aparece, uma promoção cria urgência, um conteúdo é personalizado a partir daquilo que já vimos, pesquisamos ou compramos.

Nada disso significa que deixamos de ter capacidade de escolha, mas que as condições em que escolhemos importam. E a publicidade sabe disso há muito tempo. Afinal, ela não vende apenas objetos, mas também praticidade, beleza, pertencimento, liberdade e reconhecimento.

Um produto pode, inclusive, passar a representar uma versão desejada de nós mesmos. No ambiente digital, essa conversa ficou ainda mais próxima da nossa rotina. O estímulo não precisa esperar que entremos numa loja. Ele chega até nós.

Entre saber, querer e fazer

Uma pesquisa da Kantar, citada recentemente pela Autossustentável, mostrou uma situação interessante: 87% dos brasileiros afirmam querer fazer escolhas mais sustentáveis, mas apenas 35% dizem estar mudando ativamente seus comportamentos. A pesquisa, parte do Sustainability Sector Index 2025, ouviu 1.000 consumidores no Brasil.

Existe uma distância entre saber, querer e fazer. E ela não se explica por uma única razão. Preço, acesso, infraestrutura, hábitos, informação, contexto social e políticas públicas influenciam as escolhas que fazemos. No fim, é no cotidiano que cada uma dessas condições encontra uma pessoa diante de uma decisão concreta: comprar ou não comprar, manter ou trocar, descartar ou reaproveitar. É nesse ponto que a atenção pode ser uma peça dessa conversa.

Pesquisas acadêmicas têm investigado a relação entre mindfulness, consumo e sustentabilidade. Em 2017, foi publicada no Journal of Cleaner Production, a revisão sistemática “Mindfulness and sustainable consumption: A systematic literature review of research approaches and findings”. Ao analisar sete estudos empíricos selecionados entre 1.137 publicações inicialmente identificadas, os autores encontraram evidências preliminares de que características associadas à atenção plena podem contribuir para interromper rotinas de consumo, favorecer valores menos materialistas e estimular comportamentos pró-sociais. Ao mesmo tempo, destacaram limitações metodológicas importantes na produção científica disponível e a necessidade de novas pesquisas.

Em 2019, Tavleen Kaur Dhandra publicou, na revista Ecological Economics, o estudo “Achieving triple dividend through mindfulness: More sustainable consumption, less unsustainable consumption and more life satisfaction”. A pesquisa, realizada com 420 participantes, encontrou associação positiva entre mindfulness e intenção de compra de produtos verdes, consumo socialmente consciente e comportamento de compra frugal. O estudo também identificou uma relação negativa entre mindfulness e materialismo. Os próprios resultados, porém, não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.

Mais recentemente, em 2024, foi publicado no Journal of Cleaner Production “Mindfulness, spiritual well-being, and sustainable consumer behavior”. O estudo ouviu 467 consumidores franceses, sendo 208 que haviam realizado treinamento formal de mindfulness e 259 que nunca haviam participado desse tipo de treinamento. Os pesquisadores encontraram relação entre mindfulness, bem-estar espiritual e comportamentos de consumo sustentável, mas observaram que essas relações foram principalmente evidentes entre os participantes que haviam realizado treinamento formal.

Os resultados são interessantes, mas não permitem afirmar que mindfulness, por si só, torne uma pessoa mais sustentável. A própria literatura aponta que essa relação é complexa e ainda precisa ser melhor investigada. E ainda bem. A sustentabilidade não cabe numa prática individual. Ela depende de políticas públicas, empresas responsáveis, regulação, infraestrutura, tecnologia, educação e mudanças nos sistemas de produção e consumo.

Mas existe uma pergunta que podemos acrescentar a essa conversa: o que acontece com as nossas escolhas quando conseguimos prestar atenção ao que está acontecendo dentro e fora de nós antes de agir?

O espaço entre o estímulo e a escolha

Imagine uma cena comum. Você está olhando o celular quando aparece uma oferta. Não estava pensando em comprar nada, mas olha. O preço parece bom, a contagem regressiva aparece na tela: “Últimas unidades.” De repente, surge a sensação de que é preciso decidir agora. Você pode comprar ou simplesmente fechar a tela.

A questão, porém, vai além da resposta: existe um pequeno espaço entre o estímulo e a decisão. É ali que podemos nos perguntar: eu realmente quero isso ou estou apenas reagindo ao estímulo? Essa pausa não elimina a influência da publicidade nem garante uma escolha sustentável, mas pode nos ajudar a reconhecer o que está acontecendo antes de agir.

É justamente essa possibilidade de interromper, ainda que por alguns instantes, uma resposta automática que torna a atenção uma dimensão relevante quando falamos de consumo. Essa é uma das contribuições possíveis da atenção plena para essa discussão: não oferecer uma fórmula para comprar melhor, mas ajudar a reconhecer o automático.

A pesquisa sobre mindfulness e sustentabilidade ainda está em desenvolvimento e não permite transformar essa relação em uma regra. Mas há um ponto interessante em comum entre diferentes estudos: a atenção plena pode estar associada à capacidade de interromper respostas automáticas, observar desejos e considerar consequências antes de agir. Isso pode parecer uma pequena mudança. E pequenas mudanças importam quando falamos de hábitos.

Sustentabilidade também é prestar atenção

A gente se acostumou a pensar em sustentabilidade principalmente como uma lista de coisas que precisa fazer: separar, reutilizar, reduzir, reciclar, economizar, comprar melhor, descartar corretamente. Tudo isso importa. Mas existe uma pergunta anterior: estamos prestando atenção ao modo como vivemos?

Ao desperdício que já nem percebemos, à quantidade de coisas que acumulamos, ao que compramos porque estava barato, ao que descartamos porque deixou de ser novidade, ao alimento que sobra no prato, à roupa que fica esquecida no armário, à necessidade de trocar um objeto que ainda funciona?

A atenção não resolve nenhum desses problemas sozinha. Mas pode tornar algumas coisas mais visíveis. E aquilo que conseguimos enxergar pode ser questionado, revisto e, em alguns casos, transformado.

Existe uma diferença entre viver conectado e viver disponível para qualquer estímulo. Assim como existe uma diferença entre consumir porque precisamos e consumir porque fomos conduzidos até o desejo. Nem sempre saberemos onde está essa fronteira, e não precisamos transformar a vida numa sucessão de escolhas perfeitamente conscientes. Somos humanos, temos hábitos, agimos no automático e somos influenciados.

O ponto é recuperar, de vez em quando, a possibilidade de parar. Não para fugir do mundo, mas para prestar atenção ao mundo em que estamos: ao que está sendo colocado diante dos nossos olhos, ao que desperta nossos desejos, ao que fazemos com aquilo que compramos e às consequências que conseguimos alcançar.

Em uma economia que transforma a atenção em recurso, prestar atenção pode ser uma maneira de recuperar autonomia. E, quando falamos de sustentabilidade, essa autonomia importa. Porque uma vida mais sustentável não se decide apenas na hora de escolher um produto. Ela passa também pela capacidade de reconhecer o que está influenciando nossas escolhas.

Antes de escolher o que levar para casa, existe outra escolha possível: prestar atenção ao que nos levou até aquela decisão. É nesse espaço, entre o estímulo e a resposta, que podemos recuperar um pouco de autonomia sobre a maneira como consumimos, vivemos e nos relacionamos com o mundo.

Cuidar da nossa atenção não vai resolver, sozinho, os grandes desafios da sustentabilidade. Mas pode nos ajudar a sair do automático e a participar de forma mais consciente das escolhas que fazemos todos os dias. Porque viver de forma mais sustentável também passa por estar presente o suficiente para escolher.

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Saiba como colocá-lo nas referências:

PACHECO, Ana Cleide. Enquanto disputam nossa atenção, quem está decidindo nossas escolhas? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/enquanto-disputam-nossa-atencao-quem-esta-decidindo-nossas-escolhas.html>.

Referências e Sugestões de Leitura:

  • DHANDRA, Tavleen Kaur. Achieving triple dividend through mindfulness: More sustainable consumption, less unsustainable consumption and more life satisfaction. Ecological Economics, v. 161, p. 55-66, 2019. DOI: 10.1016/j.ecolecon.2019.03.012.
  • DANIEL, Carole; CHOWDHURY, Rafi M. M. I.; GENTINA, Elodie. Mindfulness, spiritual well-being, and sustainable consumer behavior. Journal of Cleaner Production, v. 434, 140132, 2024. DOI: 10.1016/j.jclepro.2023.140132.
  • FISCHER, Daniel et al. Mindfulness and sustainable consumption: A systematic literature review of research approaches and findings. Journal of Cleaner Production, v. 162, p. 544-558, 2017. DOI: 10.1016/j.jclepro.2017.06.007.
  • KANTAR. Sustainability Sector Index 2025. Kantar, 2025.

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