Fogo no Amazonas e Desmatamento em Queda: o que os números mostram?

Entenda por que a redução histórica do desmatamento conviveu com o avanço das queimadas e o que a política tem a ver com isso.
Passamos por mais um ciclo eleitoral acirrado e, infelizmente, bem violento. Cientistas sociais entendem que eleições são, de fato, um momento de disputa que, em tempos normais, é pacificado com a publicação do resultado e o fim do período eleitoral.
Mas não estamos em tempos normais, então observamos que não apenas a disputa se estende até depois do resultado final, mas também que grupos muito divididos não conseguem dialogar para chegar a um equilíbrio.
Observamos também que as redes sociais, como arenas políticas que são, mostram como alguns temas são tratados de maneira diferente a depender do “lado” em que você está. Uma discussão sobre políticas de sustentabilidade vira uma guerra, por exemplo, mesmo que todos os envolvidos estejam em busca do mesmo resultado final: uma vivência entre homens e natureza equilibrada e sustentável.

Pensando nisso, resolvi olhar para o que mais foi debatido entre nossos leitores e ofertar algumas estratégias para que possamos caminhar para uma convivência sustentável em um contexto dividido.
Neste ciclo eleitoral, nossos leitores demonstraram preocupação com um tema em específico: os incêndios no Amazonas, que se espalhavam e traziam medo especialmente durante a primeira metade do mês de outubro. Fui atrás de entender o que aconteceu e trago aqui o que se sabe até agora.
O que dizem os dados sobre as queimadas
Em reportagem do G1, a jornalista Poliana Casemiro conta que, segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), 79,1% dos 1.639 focos registrados no Amazonas entre 1º e 15 de outubro estavam em imóveis rurais privados com CAR (Cadastro Ambiental Rural).

O uso do fogo no manejo do solo exige autorização estadual, que não existe, e o estado o proíbe desde 9 de setembro. Por isso, Ibama e Polícia Civil tratam as chamas como ação humana e criminosa.
Por que o fogo persiste mesmo com menos desmatamento
Segundo a mesma reportagem, a maior parte dos focos está em terras já desmatadas:
- 52,8% nos últimos três anos;
- 30,6% há mais tempo;
- 15,9% em vegetação nativa.
Isso ajuda a explicar por que a queda recorde do desmatamento – celebrada pelo campo que apoia a atual administração – convive com a crise das queimadas, que aparenta ser uma preocupação do grupo de oposição. Para o Inpe, o fogo mantém a área limpa para pasto, sendo “o processo contínuo de quem desmata”.
A seca agravada pelo El Niño faz o fogo escapar para a vegetação nativa e áreas protegidas; portanto, concluímos que qualquer queimada, mesmo que em área privada e normalmente utilizada por proprietários de terra, tem o potencial de ser perigosa e pode contribuir para o avanço do desmatamento.
O fogo e o calendário eleitoral
Os focos normalmente recuam no fim de setembro, mas dispararam a partir de 4 de outubro de 2026, dia do 1º turno: foram 5.598 focos entre 4 e 14 de outubro, 37 vezes o registrado no mesmo período de 2025, segundo o Ipam.

O Ibama considera a hipótese de que infratores aproveitaram o momento político e a expectativa de impunidade, mas a causa segue em investigação. O temor é que o motivo seja para criar caos em um momento sensível de eleições acirradas.
O que fizeram a União e o Estado
Encontramos os seguintes dados:
- o Ibama aplicou R$ 2 milhões em multas e embargou mais de 250 hectares;
- a PF (Polícia Federal) e a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) investigam;
- a Polícia Civil abriu mais de 120 procedimentos criminais.

Em conclusão, temos que, para cobrar autoridades de maneira efetiva, entender as competências de cada ente da federação (esferas federal, estadual e municipal) e de cada agência estatal. A fiscalização do fogo em propriedades privadas, por exemplo, é competência estadual. As agências federais também estão fazendo a sua parte.
Desmatamento: o que esperar dos próximos quatro anos
Neste momento pós-resultados, quero falar de política pública em um tema que está conectado com o das queimadas: o desmatamento ilegal. O Brasil prometeu em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) que iria diminuir o desmatamento ilegal, com o objetivo inicial de desmatamento ilegal zero até 2030. O desafio é grande, mas tem dado resultado.

Segundo o MapBiomas Alerta, em levantamento divulgado pelo Imazon, o que a atual gestão fez nos últimos anos:
- a queda de 20,6% em relação a 2024 colocou o desmatamento abaixo dos sete dígitos pela primeira vez na série histórica do MapBiomas Alerta desde 2019;
- todos os biomas tiveram redução da área desmatada;
- Pantanal teve a maior redução proporcional, 48,4% em relação a 2024;
- Cerrado segue como o bioma com maior área desmatada, com 540.614 hectares em 2025;
- nos últimos sete anos, o Brasil perdeu mais de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa.
Fatos, contexto e equilíbrio
Dizem que diante de fatos não há argumentos. Mas, quando os fatos são distorcidos ou tirados de contexto, surgem diferentes “interpretações”. Olhando só os números, o desmatamento caiu bastante, mas o que foi desmatado continua sendo queimado, então a sensação para muitos é que as grandes queimadas ocorridas em 2019 estão acontecendo de novo.
Para que isso não ocorra mais, é preciso mais do que vontade do Governo Federal. É preciso que governos estaduais, governos municipais, donos de terra, lideranças locais e a sociedade como um todo se comprometam ainda mais com a proteção das florestas, dos animais e das populações tradicionais que vivem nessas regiões. Também é preciso propor soluções lucrativas para quem precisa da terra para seu próprio sustento.

Para equilibrar interesses conflitantes, precisamos de uma democracia forte e participativa. Não dá para todo mundo ganhar ao mesmo tempo, mas é possível encontrar soluções no meio do caminho que sejam sustentáveis a longo prazo.
Que tal repensar não apenas como cobramos e acompanhamos essas soluções, mas também qual a nossa responsabilidade nisso tudo?

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OLIVEIRA, Tassiana Moura de. Fogo no Amazonas e Desmatamento em Queda: o que os números mostram? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/10/fogo-no-amazonas-e-desmatamento-em-queda-o-que-os-numeros-mostram.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- CASEMIRO, Poliana. 8 em cada 10 focos de fogo no Amazonas estão em imóveis rurais privados; queimadas disparam após o 1º turno. G1, Rio de Janeiro, 21 out. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/10/21/8-em-cada-10-focos-de-fogo-no-amazonas-estao-em-imoveis-rurais-privados-queimadas-disparam-apos-o-1o-turno.ghtml.
- IMAZON. Desmatamento no Brasil fica abaixo de um milhão de hectares em 2025. Belém: Imazon, 2026. Dados: MapBiomas Alerta. Disponível em: https://imazon.org.br/noticias/desmatamento-no-brasil-fica-abaixo-de-um-milhao-de-hectares-em-2025.
- IPAM AMAZÔNIA. Focos de calor na região de Manaus aumentaram 37 vezes em outubro. Brasília, DF: IPAM, 21 out. 2026. Disponível em: https://ipam.org.br/focos-de-calor-na-regiao-de-manaus-aumentaram-37-vezes-em-outubro/.
- MARTINS, Marcela. Gigante pela própria natureza: Brasil precisa frear desmatamento para cumprir compromisso climático. Climate Tracker LATAM, 2026. Disponível em: https://climatetrackerlatam.org/historias/gigante-pela-propria-natureza-brasil-precisa-frear-desmatamento-para-cumprir-compromisso-climatico/.
- OLIVEIRA, Elida. Amazônia em chamas: o que se sabe sobre a evolução das queimadas no Brasil. G1, Rio de Janeiro, 23 ago. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/08/23/amazonia-em-chamas-o-que-se-sabe-sobre-a-evolucao-das-queimadas-no-brasil.ghtml.
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