Justiça Climática no Amazonas: quando matam a floresta, ameaçam também a vida dos povos!

Estiagem extrema, fumaça e isolamento em 2026: quem está realmente arcando com os impactos da crise climática?
A estiagem, as queimadas e a fumaça voltaram a marcar o cotidiano do Amazonas em 2026. Em diferentes municípios, a redução dos níveis dos rios compromete o deslocamento, o abastecimento e a rotina de quem vive no interior.
Em Manaus, a fumaça que encobre o céu afeta a qualidade do ar e transforma um problema ambiental em uma preocupação diária de saúde pública. Diante desse cenário, uma pergunta precisa estar no centro do debate: quem está sendo protegido e quem continua exposto aos impactos da crise climática?
Os números ajudam a dimensionar a situação. Em outubro, 40 municípios amazonenses estavam em situação de emergência pela estiagem, com mais de 101 mil famílias afetadas. Dados do monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados pelo Ministério Público de Contas do Amazonas, também apontaram 7.583 focos de calor entre janeiro e 10 de outubro, contra 3.589 no mesmo período de 2025, um aumento de aproximadamente 111%.

Por trás desses números existem pessoas que enfrentam dificuldades para chegar aos serviços de saúde, transportar alimentos, manter atividades econômicas e garantir água para suas famílias. Quando os rios baixam, comunidades ribeirinhas podem ficar isoladas. Quando a fumaça se espalha, crianças, idosos, trabalhadores ao ar livre e pessoas com problemas respiratórios ficam mais expostos.
A crise não atinge todos da mesma maneira: as condições de moradia, renda, acesso à saúde e infraestrutura determinam também a capacidade de proteção.
É nesse contexto que a justiça climática precisa ser compreendida. Não se trata apenas de reconhecer que o clima está mudando, mas de perceber que seus efeitos aprofundam desigualdades já existentes. As populações com menos recursos enfrentam maiores dificuldades para se adaptar, prevenir danos e reconstruir suas condições de vida.

No Amazonas, essa realidade atravessa povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, agricultores familiares, moradores das periferias urbanas e diferentes grupos que dependem diretamente do território e de seus recursos naturais.
Mas a crise amazônica não termina nas fronteiras do estado. A floresta exerce um papel fundamental na regulação do clima e na circulação de umidade, influenciando os regimes de chuva em outras regiões do Brasil. Sua conservação está relacionada ao equilíbrio ambiental e às condições de vida de milhões de pessoas, inclusive de quem nunca esteve na Amazônia.
Por isso, os demais estados não podem tratar a destruição da floresta como uma questão distante ou restrita ao Norte. O que acontece aqui também importa para o futuro do país.

Quando matam a floresta, ameaçam também a vida dos povos que dependem dela. A destruição da vegetação, o avanço do desmatamento e o uso inadequado do fogo comprometem a biodiversidade, os recursos hídricos, a produção de alimentos e os modos de vida construídos ao longo de gerações.
Não existe defesa real do patrimônio ambiental brasileiro quando os povos que protegem e habitam esses territórios permanecem expostos à violência, à perda de direitos e à falta de assistência.
Também é importante compreender que a estiagem e os incêndios não podem ser explicados por um único fator. As condições climáticas, a redução das chuvas, as temperaturas elevadas e fenômenos como o El Niño podem favorecer a perda de umidade da vegetação e aumentar o risco de propagação do fogo.

Entretanto, o uso inadequado das queimadas, o desmatamento, a degradação ambiental e a falta de prevenção e fiscalização também precisam ser enfrentados. Reconhecer a influência do clima não pode servir para apagar responsabilidades humanas e institucionais.
A fumaça que chega a Manaus evidencia que os impactos não respeitam limites municipais. Incêndios registrados em outras regiões podem comprometer a qualidade do ar na capital, enquanto moradores do interior enfrentam diretamente o avanço do fogo e as dificuldades provocadas pela estiagem.
Em outubro, o Ministério Público de Contas do Amazonas levou ao Tribunal de Contas questionamentos sobre a suficiência e a efetividade das ações estaduais de prevenção e combate às queimadas. Esse debate é necessário porque não basta anunciar operações emergenciais quando a fumaça já está sobre as cidades ou quando famílias enfrentam dificuldades para acessar água e alimentos.

O Amazonas precisa de planejamento público contínuo, fortalecimento da prevenção e do manejo integrado do fogo, fiscalização ambiental e estrutura adequada de defesa civil. É fundamental garantir água potável, transporte, assistência alimentar e atendimento de saúde às populações atingidas.
Nas cidades, a população precisa receber informações claras sobre a qualidade do ar e orientações de proteção, especialmente nos períodos de maior concentração de fumaça. Essas medidas precisam contar com recursos, metas, transparência e acompanhamento dos resultados.
As decisões também não podem ser construídas sem a participação de quem vive os impactos. Povos indígenas, comunidades tradicionais, moradores das periferias, trabalhadores rurais, pesquisadores e organizações da sociedade civil precisam participar da elaboração, execução e fiscalização das políticas públicas. O conhecimento de quem vive nos territórios é indispensável para identificar riscos e construir respostas adequadas às diferentes realidades.

O Amazonas não pode ser lembrado apenas quando os rios atingem níveis extremos ou quando a fumaça toma conta das cidades. A proteção da floresta precisa caminhar junto com a proteção da vida de quem habita o estado.
Isso significa reconhecer que o direito ao meio ambiente equilibrado também está relacionado ao direito à saúde, à água, à alimentação, à moradia, ao trabalho e à dignidade.
A crise de 2026 reforça uma realidade que não pode ser tratada como inevitável. A vulnerabilidade das populações também é resultado de escolhas políticas, ausência de planejamento e desigualdade no acesso à proteção. Justiça climática significa transformar alertas em políticas permanentes, recursos em ações efetivas e compromissos em direitos garantidos.

Não basta perguntar quanto a floresta perdeu ou quantos focos de calor foram registrados. Precisamos perguntar quantas famílias receberam assistência, quais localidades continuam isoladas, quem está respirando fumaça sem proteção e quais medidas serão adotadas para que a próxima estiagem não encontre a população novamente desamparada.
Defender a Amazônia é também defender os povos que fazem parte dela. E compreender que, quando a floresta é ameaçada, a vida para além dela também está em risco.

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ALVES, Mayara. Justiça Climática no Amazonas: quando matam a floresta, ameaçam também a vida dos povos! Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/11/justica-climatica-no-amazonas-quando-matam-a-floresta-ameacam-tambem-a-vida-dos-povos.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- ASSOCIAÇÃO AMAZONENSE DE MUNICÍPIOS (AAM). Estiagem se agrava no Amazonas e 40 municípios estão em situação de emergência. Manaus: AAM, 2026. Disponível em: https://www.aam.org.br.
- DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO AMAZONAS (DPE-AM). Providências para mitigar os efeitos das queimadas e da estiagem no Amazonas. Manaus: DPE-AM, 2026. Disponível em: https://www.defensoria.am.def.br.
- INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACEAIS (INPE). Monitoramento de focos de calor e queimadas no Amazonas. São José dos Campos: INPE, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inpe.
- MINISTÉRIO PÚBLICO DE CONTAS DO AMAZONAS (MPC-AM). Monitoramento da estiagem e atuação do Estado no combate às queimadas e à fumaça. Manaus: MPC-AM, 2026. Disponível em: https://www.mpc.am.gov.br.