Mentes Submersas – Até onde vai o rastro químico da nossa sociedade?

Recentemente li a matéria “Biólogos encontram antidepressivo no cérebro de tubarões do litoral do Rio de Janeiro“. Os cientistas do Projeto EcoShark da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) que monitora a saúde de tubarões na costa fluminense desde 2018, identificaram uma substância conhecida como sertralina no tecido cerebral dos animais.

Isso me chamou a atenção!

Pesquisadores do Projeto EcoShark identificando tubarões no litoral Sul Fluminense. Imagem: Projeto EcoShark/Divulgação.

A sertralina é um componente presente em dezenas de antidepressivos e foi encontrada em tubarões-martelo, uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Segundo os pesquisadores, quando uma pessoa consome o medicamento, uma parte dele é absorvida pelo organismo e outra é eliminada através da urina. E as estações de tratamento de esgoto convencionais não conseguem remover compostos farmacêuticos que vão parar… aonde? Adivinha? No mar.

Mas não é somente no Rio de Janeiro que identificaram este tipo de problema. Outro estudo, publicado pela Revista Environmental Pollution, revelou que no mar das Bahamas foram encontrados cocaína, cafeína, analgésicos, antibióticos e opioides no sangue dos tubarões. Agora pare um instante e pense comigo: se já virou um problema internacional, significa que a coisa é muito séria.

Nesta mesma matéria são abordados outros problemas muito sérios: a crise da saúde mental, a crise do saneamento e a crise de conservação de espécies ameaçadas. Mas não foi dada, ao meu ver, a devida importância à saúde mental do ser humano, que está em decadência desde o término da pandemia que abalou as estruturas mundiais.

É aí que o texto pede uma pausa.

A sertralina pode até aliviar o sofrimento humano, mas a questão é: por que precisamos tanto dela? O fato dessa substância, entre outras drogas opioides, estar chegando em grandes quantidades aos mares e sendo absorvida pela vida marinha só escancara uma verdade incômoda: as mentes humanas estão mais submersas que o próprio mar. Você já pensou sobre isso?

Vivemos em um mundo que nos adoece e, ao mesmo tempo, nos oferece pílulas para suportar a dor. A ansiedade virou epidemia. A solidão, mercado. O descanso e as conversas verdadeiras, artigos de luxo. E, enquanto tentamos nos curar individualmente, e muitas vezes em silêncio, os resíduos da nossa dor coletiva vão parar nos oceanos, na biodiversidade marinha, em espécies que nada têm a ver com nossa angústia.

A crise é ecológica, sim. Mas é, acima de tudo, uma crise de cuidado: com a terra, com o mar, com os outros, com a gente mesmo. Precisamos desacelerar, pausar e absorver com calma esta informação e trabalhar para que as mentes humanas sejam curadas. Uma mente saudável estuda, trabalha, organiza, compreende, cria, protege, prospera. Uma mente adoecida enfraquece certezas, derruba propósitos e, dificilmente, busca soluções.

Talvez os tubarões estejam nos mostrando algo que teimamos em ignorar: não adianta tratar os sintomas se a origem do mal, um modelo de vida insustentável, continua intacto. Não há medicação que dê conta de um mundo que não nos sustenta. A sustentabilidade depende de um bem-estar coletivo. Ciência e sensibilidade precisam de se unir para que a depressão não afete a saúde de todos os envolvidos neste ecossistema cuja finalidade é a vida.

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Saiba como colocá-lo nas referências:

NIBRA, Monique. Mentes Submersas – Até onde vai o rastro químico da nossa sociedade? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/08/mentes-submersas-ate-onde-vai-o-rastro-quimico-da-nossa-sociedade.html>.

Referências e Sugestões de Leitura:

  • WOSNICK, N. et al. Drugs in paradise: caffeine, cocaine, and painkillers detected in sharks from the Bahamas. Environmental Pollution, 2026, 127818. Disponível em: https://europepmc.org/article/med/41724233.

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