A vida ao redor da nossa vida: até quando vamos assistir em silêncio ao sumiço dos vaga-lumes e dos ecossistemas?

Logo que comecei a usar o Instagram postei uma imagem-texto com a pergunta “Há quanto tempo você não vê vaga-lumes?”. Eu vivia em São Miguel dos Milagres em meio à natureza, escrevia minha dissertação de mestrado e costumava ver vagalumes ali.

Depois de alguns anos, nessa mesma rede, vi repetida minha pergunta em algum post. Senti conforto por não ser a única a ter essas ideias que fogem um tanto da correria cotidiana.

Afinal, outro dia li que, de fato, os iluminados (vaga-lumes) estão desaparecendo do nosso campo de visão. Estão em risco de extinção e isso é descrito em diversos locais do planeta. Maiores causadores? Os inseticidas, a poluição luminosa, alterações climáticas, ocupação humana e perda de habitat.

Como já disse o pensador, ativista ambiental e único membro indígena da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, “o ser humano se separou da terra e passou a desprezar a vida, assim, caímos num abismo cognitivo”. Esta fala me faz lembrar da música “Impermanência”, da banda de reggae Cultivo:

“Olha só essa riqueza, tente definir o seu valor/ Veja o que acontece com a natureza/ É tão fácil ver quanto custou/ Tudo sempre muda/ E nada nesse mundo continua igual/ Nada permanecerá/ A humanidade passa por muitas crises das quais não vê saída/ Todas elas geradas por uma única crise/ A de percepção da vida/ O homem se afastou da natureza quando se julgou superior/ Olha a distância que a gente criou/ Sola do pé, meia, sapato, asfalto e a terra esperando você ver/ Somos a própria natureza cheios de beleza” .

Foto: Mariana Moreira (Arquivo Pessoal).

Ao ver coisas incríveis da natureza, que muitas vezes se fazem imperceptíveis no caos diário, sempre me perguntei se aquela seria a última vez… Será que esta é a última vez que vejo um beija-flor beijando uma flor? Será que ainda verei uma pequena formiga levando uma folha nas costas pelo caminho? São tantos os pequenos grandes acontecimentos no mundo vivo, porém para mim carregam sempre o questionamento filosófico: até quando?

Sim, estamos mais propícios a ver tais [permitam-me a expressão] milagres quando estamos atentos. Observamos à nossa volta e cultivamos uma escuta e olhar diferenciados ao que parece comum. O trabalho de cada ser é tão especial quanto o de cada um de nós, homo sapiens.Tem trabalho mais bonito e detalhado que a teia de uma aranha? Tece arte para capturar aqueles mosquitinhos que nos incomodam. É a beleza da vida natural, funcional, cumprindo seu ciclo.

No entanto, não é somente tirar os fones, focar menos na tela do celular, mirar mais o céu e o chão que pisa e ouvir os sons ao redor, mas sim perceber e refletir. O que vejo? Ainda ouço cigarras? O que via que não vejo mais? Cadê as flores rosas de jambo e os soldadinhos? Que desastres estão se intensificando e ou se tornando recorrentes? Então, entender as mudanças que estão acontecendo ali, na nossa frente, o nosso ambiente sendo alterado, nossos companheiros de vida na Terra por vezes desaparecendo. Qual nosso lugar nisso? Desde onde é interferência humana?

Notícias recentes sobre incidentes com tubarões em Pernambuco citam como o maior dentre os fatores para tais ocorrências a construção do Porto de Suape, que alterou ecossistemas marinhos locais e correntes marítimas. Igualmente, a divulgada diminuição da população dos golfinhos rotadores em Fernando de Noronha aponta para uma combinação de fatores que inclui aumento de embarcações, ruídos e atividades turísticas, além de desequilíbrios ecológicos também de origem antrópica.

Complexo Industrial Portuário de Suape na Região Metropolitana de Recife (PE).

Há alterações que são mais sutis, mas as mais evidentes põem-nos a imaginar que não basta somente nosso olhar atento e abrilhantado para as dinâmicas naturais. Há que sentir-se parte, fazer-se parte, para cuidar, cobrar, tomar decisões acertadas e bem gerir, sob a perspectiva da Natureza, que não tem sua própria voz nas dinâmicas humanas, em suas leis, atividades e ações. Há que ter quem fale – e aja – por ela.

Nas suas divagações em “A Vida Secreta da Natureza”, o autor Carlos Cardoso Aveline, estudioso da Ecologia Profunda, lembra que a conservação eficaz da natureza só pode acontecer sem motivações egoístas e a partir da cooperação, que abre as portas para um convívio mais profundo e enriquecedor com ela. É preciso, assim, encurtar distâncias e mantermos relações mais harmoniosas entre nós humanos e o ambiente natural com todos os outros seres que o habitam, compartilhando direitos e responsabilidades.

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MOREIRA, Mariana. A vida ao redor da nossa vida: até quando vamos assistir em silêncio ao sumiço dos vaga-lumes e dos ecossistemas? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/a-vida-ao-redor-da-nossa-vida-ate-quando-vamos-assistir-em-silencio-ao-sumico-dos-vaga-lumes-e-dos-ecossistemas.html>.

Referências e Sugestões de Leitura:

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