Reparar é um ato de resistência! Por que suas roupas merecem uma segunda chance?
Recentemente, encontrei um vídeo sobre Sashiko. O termo, que significa literalmente “pequenos pontos”, refere-se a uma técnica de costura manual originária do Japão rural (Picket, 2006). Utilizada para unir camadas de tecido, reforçar roupas e ampliar sua durabilidade e isolamento térmico, a prática emprega pontos simples de alinhavo que, quando repetidos, formam padrões complexos e interligados. Inspirados na natureza, esses desenhos evocam elementos como casca de pinheiro, névoa e casco de tartaruga, conferindo às peças beleza estética e identidade cultural.

O vídeo mostrava o processo delicado e contínuo de restauração de uma jaqueta jeans, realizado com extremo cuidado e resultado belíssimo (Vu, 2024). Ao assistir, lembrei-me de uma calça que havia desmontado recentemente. Era daquelas adquiridas já com rasgo no joelho, detalhe que, com o tempo, aumenta até transformar a peça em algo quase amorfo: shorts na parte da frente, revelando toda a perna, e ainda calça na parte de trás.

Durante a compra, tentei evitar esse modelo, pois já havia tido problemas semelhantes anteriormente. No entanto, era a única que tinha cor, caimento e modelagem perfeitos. Gostava dela justamente como calça, mas, quando o tecido cedeu, recorri ao caminho óbvio: transformá-la em shorts. O resultado, porém, não funcionou e acabou sendo doado; as pernas da calça permaneceram guardadas, à espera de um novo destino.
Esse exemplo ilustra bem a lógica da indústria da moda. Muitas vezes, no momento da compra, não encontramos exatamente o que procuramos, já que o mercado está orientado pelo que está “na moda”. Adquirimos a peça e, após algumas lavagens ou poucos meses de uso, ela já não serve, já não agrada ou simplesmente saiu de tendência. O destino costuma ser semelhante: doação, revenda em brechós, longos períodos esquecida no guarda-roupa ou, no pior dos casos, o lixo. Diante do vídeo, senti um aperto no coração: o Sashiko teria sido a solução ideal para minha antiga calça que se perdeu nesse processo.
O Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores produtores têxteis do mundo, com uma produção anual de aproximadamente 2,04 milhões de toneladas em 2019 (Siqueira et al., 2022).
Embora ainda sejam escassos os dados oficiais sobre o volume exato de descarte de resíduos têxteis pós-consumo, é possível ter uma noção da dimensão do problema considerando a quantidade de roupas descartadas por indivíduo a cada ano. Diariamente, toneladas de tecidos são jogadas no lixo comum em escala global. Mas, diferentemente do resíduo orgânico, esses materiais não se decompõem na natureza, eles permanecem nos aterros, ocupando espaço, liberando toxinas de corantes e microplásticos no solo, e sobrevivendo por mais tempo do que nós mesmos.

Trata-se de um fenômeno diretamente relacionado à lógica do sistema da moda, que promove a obsolescência das roupas, seja por meio da perda de valor simbólico ou estético, seja pela perda de sua funcionalidade. Esse mecanismo é fundamental para manter o consumo em constante movimento. Diante desse cenário, a prática do reparo revela-se como um exemplo de resistência.
O ato de reparar carrega significados de cuidado, atenção e afeto. A própria etimologia da palavra remonta às ideias de “preparar de novo”, “restaurar” ou “colocar em ordem novamente” (Twitchin, 2021). No Brasil, a prática do reparo existe, mas costuma restringir-se a ajustes específicos: barras de calça, ajustes de roupas de festa ou de peças recém-compradas.

No entanto, essa prática poderia e deveria estender-se às roupas que amamos, mas que já não servem e poderiam ser aumentadas ou reduzidas; às peças desgastadas pelo tempo, impregnadas de memórias e marcas de uso que, apesar de contarem histórias, necessitam de reparo para continuar em circulação; e também às roupas herdadas de pessoas queridas, objetos carregados de significados que contribuíram para moldar a vida daqueles que vieram antes de nós. Afinal, não merecem esses objetos continuarem em nossas vidas?
Muitas pessoas consideram ainda um desperdício pagar o que julgam ser caro a uma costureira por determinados reparos. Aqui é importante lembrar que pagar barato por uma peça de roupa não significa que ela seja de fato barata. Sempre que uma roupa nova não reflete seu valor real e chega a preços reduzidos às prateleiras, alguém paga esse custo: o planeta e os trabalhadores ao longo da cadeia produtiva assumem um preço altíssimo para que o consumidor final não precise fazê-lo (Fashion for Future, 2025).

O mesmo raciocínio se aplica ao reparo. Trata-se de uma habilidade complexa, desenvolvida ao longo de anos de prática, que deve ser valorizada. Além disso, o reparo substitui a necessidade de adquirir uma peça nova, e esse deveria ser o objetivo central ao se tentar resistir ao sistema da moda. Quando se compara o preço, o valor social e o valor afetivo, reparar uma roupa apresenta vantagens inegáveis.
As mudanças necessárias não dizem respeito a consumir menos prazerosamente, mas a consumir de forma diferente (Castro, 2021). Trata-se de ressignificar e recriar as roupas já utilizadas, moldando nossas intenções de uso. As limitações podem ser vistas não como restrições, mas como estímulos à criatividade, desafiando-nos a transformar imperfeições e falhas em oportunidades de aprimoramento. Assim como aprendemos com erros, uma peça de roupa danificada, quando devidamente reparada, pode tornar-se um item de destaque e até mesmo favorito (Castro, 2021).
Tratar os objetos como meras coisas é privilégio de quem pode substituí-los a qualquer momento (Stallybrass, 202). Contudo, caminha-se para um futuro em que essa possibilidade deixará de existir, pois os recursos naturais estão se esgotando em ritmo acelerado. Reparar roupas, nesse sentido, é um gesto voltado para o futuro. Representa sustentabilidade em sua forma mais genuína, resistindo ao ciclo incessante de descarte e substituição promovido pela moda.

É também ancestralidade, pois evoca a memória de avós, mães e tias que sustentaram famílias por meio do feitio e do reparo, preservando técnicas manuais que enraizaram nossa sociedade e não podem ser esquecidas. É memória, ao honrar e cuidar das peças que nos acompanharam em diferentes momentos da vida, permitindo experiências, alegrias e tristezas.
É ainda criatividade, ao possibilitar novas formas de transformar uma roupa, imprimindo nela singularidade, intenção e expressão. Uma peça reparada é, ao mesmo tempo, resistência, história, afeto e sustentabilidade. E isso fala de valores essenciais para repensar a moda e o consumo em nosso tempo.
Resta, então, a pergunta: o que as suas roupas andam falando sobre você?

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CARLOS, Aline Lima. Reparar é um ato de resistência! Por que suas roupas merecem uma segunda chance? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/08/reparar-e-um-ato-de-resistencia-por-que-suas-roupas-merecem-uma-segunda-chance.html>.
Referências e Sugestões de Leitura:
- DE CASTRO, Orsola. Loved clothes last: how the joy of rewearing and repairing your clothes can be a revolutionary act. London: Penguin Life, 2021.
- FASHION FOR FUTURE [@fashion.for.future]. No dia 24 de abril de 2013, em Bangladesh,… [Instagram]. 27 abril 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DI8iT2shcvH/?igsh=OW96dWt4aXF1bjhh. Acesso em: 31 ago. 2025.
- PICKETT, B. Sashiko: the stitched geometry of rural Japan. , p. 211-214, 2006.
- SIQUEIRA, M.; CONTIN, B.; FERNANDES, P.; RUSCHEL-SOARES, R.; SIQUEIRA, P.; BARUQUE-RAMOS, J. Brazilian agro-industrial wastes as potential textile and other raw materials: a sustainable approach. Materials Circular Economy, v. 4, 2022.
- STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memória, dor. Tradução de Saulo Krieger. São Paulo: Boitempo, 2020. Edição Kindle.
- TWITCHIN, M. On repair. Performance Research, v. 26, p. 54-61, 2021.
- VU, Max [@gucciciclone]. How I repair my clothes with sashiko… [TikTok]. 10 agosto 2024. Disponível em: https://vm.tiktok.com/ZMAjcF92e/. Acesso em: 31 ago. 2025.
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