As mudanças climáticas já estão redesenhando o turismo?

De paisagens degradadas a voos cancelados: como o clima extremo se tornou parte da nossa equação de viagem.
Confesso que, ao planejar uma viagem, dificilmente pensaria: “Será que vai passar um tornado por lá? Haverá uma enchente, um terremoto ou um incêndio de grandes proporções?” Eventos climáticos nunca fizeram parte do rol de fatores que influenciavam minhas decisões de viagem.
Ainda assim, essa variável surgiu naturalmente em minhas reflexões, razão pela qual escolhi fazer dela o tema deste artigo. Não me refiro a chuvas ocasionais ou a alguns dias de mau tempo, mas a eventos extremos capazes de alterar paisagens, comprometer roteiros e até redefinir a própria conveniência de viajar para determinado destino.
Acredito piamente que eles sempre aconteceram e sempre vão acontecer, mas que as atividades antrópicas têm acelerado essa frequência. É algo que os dados tornam inexoravelmente evidente, como apontam o Relatório de Síntese do AR5 e o Resumo para Formuladores de Políticas do Grupo de Trabalho II do AR5, ambos do IPCC.

O clima está mudando e isso não é mais hipótese. Além de cada semana trazer um evento climático diferente em algum lugar do planeta, a população toma conhecimento quase em tempo real, graças à vasta rede de mídias e ao acesso livre às plataformas digitais. E em algum momento de nossas vidas particulares, teremos que nos adaptar para que as viagens, de férias ou a trabalho, continuem acontecendo.
Neste sentido, os deslocamentos turísticos estão sujeitos a interrupções por eventos climatológicos. E a relevância do turismo na economia de muitas cidades é significativa demais para ser ignorada: oscilações climáticas podem gerar consequências diretas no fluxo econômico de uma região inteira.
Isso vale tanto para destinos de natureza quanto para cidades urbanizadas e de paisagens naturais, uma vez que eventos extremos não escolhem lugares para atingir, apenas acontecem.

Um exemplo concreto está no Relatório Estado do Clima: Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025, publicado pelo CEMADEN em fevereiro de 2026. O documento registra que, em 10 de dezembro de 2025, um ciclone extratropical provocou no Aeroporto de Congonhas (São Paulo) uma rajada de vento de 96,3 km/h , a mais intensa em condições secas desde 1963. O mesmo sistema climático derrubou árvores, danificou a rede elétrica e gerou atrasos e cancelamentos de voos também nos aeroportos do Rio de Janeiro e de Brasília.
E a pergunta que fica é: o que isso tem a ver com turismo? A resposta é direta, aeroporto parado é viagem interrompida, planos de lazer ou negócios alterados de uma hora para outra e, claro, prejuízo no bolso de todos os envolvidos.
Pois bem, o impacto se manifesta em pelo menos três camadas, que se reforçam mutuamente.
Primeira camada: A paisagem que é o próprio atrativo que se degrada. Em 2024, incêndios na Chapada dos Guimarães (MT) derrubaram a procura turística em até 80%, segundo relatos de empresários locais, mirantes queimados e ar irrespirável afastam o visitante quase de imediato. No mesmo ano, o Pantanal teve a área queimada crescendo 529% acima da média histórica no primeiro semestre, e a superfície de água do bioma ( base do ecoturismo de observação de fauna) encolheu 61% desde 2021. No litoral, recifes de coral em pontos turísticos de Alagoas e Pernambuco (Maragogi, São José da Coroa Grande, Porto de Galinhas) já registram mortalidade entre 28% e 88%, segundo estudo publicado na revista Coral Reefs (Manir, 2025).

Vale destacar que boa parte desses eventos não ocorreu isoladamente: os incêndios no Pantanal e na Chapada dos Guimarães, por exemplo, aconteceram durante o El Niño de 2023/2024, um dos mais intensos já registrados.
O El Niño é um fenômeno climático natural, que existe há séculos e altera os padrões de chuva e temperatura no mundo todo, no Brasil, tende a provocar seca na Amazônia e no Norte/Nordeste e chuvas mais intensas no Sul. As mudanças climáticas, porém, já estão alterando esse padrão natural: um estudo publicado na revista Science constatou que os eventos de El Niño das últimas quatro décadas foram 36% mais intensos do que os registrados antes da Revolução Industrial, atribuindo essa mudança, com alta probabilidade, ao aquecimento global causado pelo homem.
Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a lógica é clara: o aquecimento global é a causa principal do aumento de eventos extremos, e o El Niño funciona como um amplificador desse efeito quando ocorre — mesmo sem o fenômeno, os extremos já vêm aumentando em frequência em toda a região tropical.
Segunda camada: A erosão costeira ameaça o próprio território do destino. Na Praia do Saco, em Estância (SE), um dos principais destinos turísticos do litoral sul de Sergipe, a erosão é documentada desde 2007 e já avançou ao ponto de o Rio Piauí ter avançado 130 metros sobre sua própria margem em apenas dez anos. Em setembro de 2026, o mar chegou a derrubar parte de uma casa na região. Projeções publicadas na Nature Climate Change indicam que entre 37% e 50% das praias do mundo podem desaparecer até 2100 com a elevação do nível do mar.

Terceira camada: O comportamento do viajante já está mudando. Segundo o Travel & Sustainability Report 2026, da Booking.com (com 32.500 respondentes em 35 países), 74% dos viajantes consideram o risco de clima extremo ao escolher destino e época da viagem; 31% já cancelaram ou mudaram planos de viagem nos últimos 12 meses por causa de clima extremo ou desastres naturais; e 42% pretendem viajar fora da alta temporada, enquanto 25% já buscam especificamente destinos com temperaturas mais amenas.
É um padrão que vem se mostrando em todos os continentes. No Himalaia, uma avalanche de gelo, seguida por um expressivo fluxo de detritos, foi responsável por uma enchente catastrófica na região do Nepal e do Tibete, em 26 de agosto de 2026. Esse evento matou ao menos 8 pessoas, deixando 384 desaparecidas, grande parte eram turistas e peregrinos que haviam se dirigido ao Monte Kailash, em busca de uma experiência espiritual.
Já nos Andes peruanos, a Associação de Guias de Montanha do país atribuiu diretamente ao recuo acelerado das geleiras, fenômeno ligado ao aquecimento global, a maior frequência de avalanches que quase atingiram grupos de montanhistas no nevado Alpamayo, em julho de 2026.
E, na Laguna Humantay, em Cusco, um desprendimento de pedras em setembro de 2026 não feriu ninguém e boa parte dos turistas presentes optou por filmar o evento em vez de se afastar, um sintoma de como a cultura do registro instantâneo convive, hoje, com riscos reais.
Entretanto, há opções de adaptação, ou seja, não renunciar ao destino turístico, mas sim, viajar “de outro jeito”.

Para o setor, a resposta de longo prazo também passa pelo turismo de baixo carbono e comunitário, que reduz a dependência de deslocamentos de alto impacto e distribui a renda localmente. Soma-se a isso a necessidade de um ordenamento mais criterioso da ocupação costeira, já que boa parte da erosão (como em Balneário Camboriú e na Praia do Saco) é agravada por obras de contenção malfeitas e ocupação desordenada, e não só pela elevação natural do mar.
É fundamental, ainda, incluir o turismo nas políticas climáticas nacionais: pesquisa publicada na Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo (Gil, Marques e Andrade, 2023) mostra que o Ministério do Turismo ficou de fora dos comitês que formulam a política climática brasileira entre 2003 e 2022, e que o setor nunca foi tratado como prioridade nos planos nacionais de adaptação. Uma lacuna institucional que o Brasil começou a enfrentar apenas a partir do Plano Nacional de Turismo 2024–2027.
Faltam, por fim, metas setoriais de descarbonização nos moldes da Declaração de Glasgow (2021), ainda pouco adotadas por empresas brasileiras do setor.

O turismo ocupa, hoje, uma posição paradoxal diante da crise climática, é simultaneamente vítima, porque depende de paisagens, estações e condições que estão mudando e, em menor escala, agente, por conta das emissões do deslocamento.
Os exemplos reunidos aqui, do Pantanal ao Himalaia, mostram que a frequência e a imprevisibilidade desses eventos já deixaram de ser exceção. Adaptar o planejamento de viagem é necessário, mas resolver o problema pela raiz exige que o poder público, o setor privado e o próprio viajante tratem a variável climática como parte permanente da equação e não como um imprevisto ocasional.

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PIOVESAN, Maria Vitória. As mudanças climáticas já estão redesenhando o turismo? Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/11/as-mudancas-climaticas-ja-estao-redesenhando-o-turismo.html>.
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