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Muvuca de Sementes: Reflorestamento baseado na troca de saberes

Na maioria das vezes quando pensamos em reflorestamento vem à mente aquela imagem de alguém fazendo um buraco no solo e colocando a mudinha lá. Agora, imagina recuperar uma floresta inteira assim? A Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, está aí resistindo firme e forte para nos provar que isso é possível desde o século XVIII. Mas, atualmente, existe outra alternativa muito interessante: a muvuca de sementes.

O nome pode soar estranho ou até engraçado. A “muvuca” nesse caso não é uma grande confusão de pessoas, mas uma solução que surgiu como resultado de muita pesquisa. A ideia não é inédita, já que os povos ancestrais da América Central plantavam sementes misturadas direto no chão bem antes da muvuca ficar famosa, mas é uma alternativa que vem ganhando muitos adeptos pelo Brasil, especialmente na região da Amazônia como tentativa de amenizar os recordes de desmatamento nos últimos anos.

Foto: Camila Grinsztejn.

A mistura de sementes agrícolas e florestais que compõe a muvuca segue a lógica da sucessão florestal, copiando aquilo que a própria natureza já pratica. Sementes nativas e de adubação verde são misturadas com areia, formando um insumo homogêneo perfeito para formar a estrutura da floresta. A muvuca consegue gerar o dobro ou até dez vezes mais árvores por hectare e com metade do custo do que um plantio com mudas.

Muvuca de sementes no Mato Grosso. / Foto: Camila Grinsztejn.

Para que a muvuca possa vingar, é preciso planejar com bastante critério a combinação de sementes que vai ser usada na restauração. O ideal é ter sempre espécies de ciclo curto, médio e longo. Isso significa que algumas plantas vão crescer super rápido logo de cara, criando sombra, umidade e um microclima perfeito, protegido do sol e do vento, para o desenvolvimento de espécies que demoram um pouco mais para germinar e crescer. Além disso, a proximidade entre as sementes germinadas na área recuperada favorece a interação entre os microorganismos presentes nas raízes. Essa comunicação radicular complementa a vida e a fertilidade do solo, para que tenhamos de volta árvores densas e maduras, compondo a floresta linda do nosso imaginário.

Uma das maiores inovações da muvuca é a troca de saberes gerada por uma cadeia produtiva envolvendo diferentes atores que, em um primeiro momento, podem parecer contraditórios: comunidades tradicionais (povos indígenas, agricultores familiares e assentados), produtores rurais e ambientalistas. O conhecimento dos indígenas e agricultores para produção, coleta e beneficiamento de sementes junta-se a com a capacidade do produtor rural de plantar em diferentes sistemas. Nesse modelo de restauração florestal são utilizadas técnicas de plantio dominadas pelos produtores da agricultura familiar e agroindustrial, como o plantio manual e o mecanizado com plantadeira ou calcareadeira. Ou seja, planta-se floresta mais ou menos da mesma forma como se planta soja ou milho, por exemplo.

Os coletores também são importantes quando pensamos na inovação e nas técnicas de produção dessas sementes florestais nativas. Beneficiar sementes consiste em deixá-las perfeitas para o armazenamento e, depois, para o plantio. E sem semente, não tem floresta. Às vezes a semente vem dentro de um fruto denso, de uma castanha, de flores ou outro tipo de mecanismo natural. Existem várias formas de dispersão natural das sementes, algumas são leves para voar com o vento, outras acompanham frutas deliciosas e contam com animais para carregar suas sementes, atraem polinizadores através de belas flores, enfim, cada espécie com sua estratégia. Isso faz com que exista toda uma complexidade em torno do ato de coletar e armazenar sementes florestais nativas.

Indígena coletando semente de buriti na aldeia Ripá do povo Xavante, Mato Grosso. / Foto: Camila Grinsztejn.

No entanto, os coletores aos quais me refiro aqui muitas vezes desenvolvem formas eficientes e baratas de beneficiar as sementes, com ferramentas simples ou adaptadas do cotidiano. Já vi um coletor do P.A. Banco da Terra, no Mato Grosso, tratando sementes usando uma antena de tv velha acoplada a uma furadeira! Além disso, como eles cultivam as sementes nos seus próprios terrenos, perto das suas casas, percebem como podem germinar melhor, entendem a influência das chuvas no comportamento das árvores, o ambiente em que nascem mais, se demoram mais, entre outras coisas. A prática, a observação e a ancestralidade trazem um conhecimento empírico que aumenta a eficiência da restauração.

Essas sementes trazem de volta não apenas a vida da floresta, mas também das pessoas que se dedicam a trabalhar com elas. As redes de coleta de semente têm saído da Amazônia e ganhado outros biomas. A principal referência de uma governança e modelo de trabalho bem desenvolvidos é a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX), a maior do Brasil, que há 12 anos empodera mais de 560 coletores, produziu mais de 200 toneladas de sementes e recuperou mais de 5 mil hectares na Bacia Xingu Araguaia.

Foto: Camila Grinsztejn

Uma das características mais importantes da ARSX é justamente a capacidade de manter o diálogo entre todas as partes. Eles reúnem todos os envolvidos com a restauração, começando pelo produtor rural, que tem a terra, as ferramentas, e, principalmente, que deseja estar dentro da lei, quer manter uma área de floresta viva na sua propriedade para inúmeros benefícios. A diversidade de sementes da muvuca permite uma enorme variedade de aplicações. Em sistemas produtivos, o plantio de muvuca pode ser usado tanto numa horta agroflorestal, como para diversificar um milharal com feijão e árvores. Também pode formar sombra (que gera madeira) nos pastos, melhorar a cobertura do solo fazendo entrelinhas em plantações como soja e feijão ou até em roça de mandioca, mantendo espécies que colaborem com a produtividade. Para a restauração de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legais (RLs), geralmente a combinação de sementes inclui adubação verde e espécies nativas.

Também entram para as conversas os coletores indígenas, que recebem treinamento para administrar as demandas de trabalho e coordenar equipes de coleta nas aldeias, além de coletores que são agricultores familiares e assentados. Simplificando um pouco o processo, basicamente essas pessoas são remuneradas financeiramente pelas sementes que coletam, vendem para a ASRX que encaminha para o plantio, conforme acordado com os produtores rurais e parceiros técnicos. Ou seja, atribui-se valor à floresta de pé, que além de gerar renda para a população local, age como fornecedor de matéria-prima estimulando o desenvolvimento sustentável na prática.

Foto Camila Grinsztejn

Que a gente possa ser semente também, para aprender com a natureza a germinar, coletar e beneficiar tudo aquilo que é importante. Valorizando a vida e os conhecimentos tradicionais, trabalhando em conjunto com aquele que parece ser o diferente, podemos conquistar resultados importantes para a manutenção de um planeta saudável. A recuperação das nossas áreas verdes depende de esforços coletivos, de uma muvuca de pessoas trabalhando em prol de um bem comum, valorizando uma cadeia ética e o desenvolvimento sustentável.

 

 

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Um comentário

  1. […] On: 2 de julho de 2020 In: Meio Ambiente autossustentavel.com […]

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