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Tecido de PET reciclado é realmente sustentável?

Estima-se que 60% das roupas produzidas globalmente sejam feitas de plástico e, segundo o Greenpeace, esse número tende a dobrar em 2030. Estima-se também que a ideia de transformar garrafas plásticas em tecido tenha surgido em meados dos anos 1980. Mas apenas atualmente, com as discussões sobre alternativas sustentáveis na moda, que seu uso tem se popularizado cada vez mais como uma opção eco para as roupas feitas com fibras sintéticas.

Marcas como a Osklen, Everlane, Renner, Nike e PatBo – que fez, inclusive, um desfile para o SPFW n.46 com looks de PET reciclado – tem adotado cada vez mais o material em coleções para promover a sustentabilidade na moda.

Campanha da marca Everlane.

A dificuldade em explicar o problema da utilização de PET para fabricação de tecido começa quando as vantagens do uso desse material são levantadas, principalmente quando a reciclagem do PET é proveniente de garrafas recolhidas do meio ambiente. Uma pesquisa divulgada pelo Fórum Econômico Mundial de Davos estima que haverá mais plástico do que peixes nos oceanos em 2050. Já sabemos também que apenas 3% do lixo brasileiro é reciclado, segundo os dados do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O recolhimento do PET ainda é rentável para catadores e cooperativas, fornecendo o sustento para pessoas que sobrevivem do ciclo da reciclagem. Como a ideia do tecido de PET reciclado não pode ser tentadora diante desse cenário?

Imagem: Creative Commons

Compreende-se que a reciclagem é algo positivo em termos de sustentabilidade, já que, ao invés de produzirmos algo com matéria prima nova, que necessita de recursos – finitos, precisamos lembrar – para ser produzida, estaremos reutilizando o que já existe. Na teoria, devolver para o mercado um produto cujo material teve sua vida útil prolongada numa visão macro é bem positiva.

Contudo, se analisarmos as entrelinhas, veremos que transformar PET em tecido possui mais desvantagens do que poderíamos imaginar. O primeiro dos seus problemas é o microplástico (assunto abordado no artigo “O que a etiqueta não mostra! Os impactos socioambientais da moda tradicional” – clique aqui para ler).

Visão ampliada de microplásticos na ponta de um dedo. / Imagem: Igui Ecologia

É preciso entender que, durante a lavagem de uma roupa de poliéster, o tecido libera micropartículas de plástico na água, segundo estudo sobre microplásticos têxteis desenvolvido pela pesquisadora Flavia Salvador Cesa. Essa quantidade de microplástico pode aumentar dependendo da lavagem. Por serem pequenas, essas micropartículas não são filtradas pelo sistema de esgoto, que não possui estrutura para reter esse tipo de material. Pesquisas e estudos já estimam que essas partículas estão em diversos lugares, dos oceanos até a água que bebemos. No mar, algumas dessas micropartículas são ingeridas por animais marinhos, o que pode afetar diversas espécies, inclusive a humana.

O segundo dos problemas é que, transformando uma garrafa PET em tecido, interrompemos o ciclo de vida do material.  É previsível que essas roupas feitas com poliéster de PET reciclado acabem em aterros sanitários, pois sua taxa de reciclabilidade é baixíssima. Na prática, estamos reciclando um material que já é comprovadamente problemático e transformando em algo tão (ou mais) problemático.

Descarte incorreto de roupas a base de tecidos plásticos representa um grande problema atualmente. / Imagem: Fashion Foward

Tratando-se de sustentabilidade na moda, sabemos que a probabilidade de extinguir o uso do plástico (poliéster, poliamida) na produção de roupa é nula. Mas é preciso levantar diálogos honestos sobre a utilização e os impactos desses materiais no meio ambiente. Sobre usar o plástico em itens que precisem realmente da utilização desse material (roupas esportivas, por exemplo). Sobre esses itens serem bens duráveis e que a economia circular possa realmente ser aplicada. É necessário também abrir incentivo a novas tecnologias e falar sobre a produção de tecidos menos mistos, com fibras possíveis de rastrear no fim do seu ciclo de vida.

Roupas esportivas utilizam poliéster e outros materiais plásticos em sua composição para garantir a melhor mobilidade aos atletas. / Imagem: Creative Commons.

O PET reciclado pode funcionar como oportunidade para que marcas possam falar de sustentabilidade na moda, mas não pode estagnar aí. É preciso avançar o debate também para a cultura do descarte, investimento em novas tecnologias e pensar em economia circular de maneira honesta e prática, incentivando e aplicando alternativas melhores para um mercado que precisa de mudanças urgentes.

 

 

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