Educação

O Novo Papel das Escolas: Educação e transformação local pós-COVID19

Desde março, mais de 180 mil escolas foram fechadas como medida de prevenção à propagação do coronavírus, deixando quase 48 milhões de estudantes sem aulas presenciais.

Fonte: Ascom/INEP (2019)

Os impactos sobre os estudantes do ponto de vista de aprendizagem, sobre os professores,  sobre a dinâmica das famílias e comunidades são pontos que demandam – e vão demandar – muita dedicação dos pesquisadores, não somente para entender o presente, mas já para projetar novos cenários e alternativas considerando novos períodos de crise.

A pandemia certamente deixará muitas marcas negativas do ponto de vista educacional, mas amplia de forma significativa o papel e a importância dos educadores, da tecnologia (bem utilizada, e não oportunista) e da escola enquanto instituição chave na vida dos jovens e das cidades, uma vez que muitos têm nela a única oportunidade, tanto de melhorar suas condições de vida, quanto de se alimentar todos os dias.

Imagem: Print de reportagem do “O Globo”.

Do ponto de vista estratégico, e considerando os múltiplos cenários educacionais pós-pandêmicos, a crise atual pode estimular processos de ressignificação do espaço, da atuação e do papel das escolas, as quais deixariam de ser somente locais de transmissão de conhecimento para tornarem-se espaços de criação, criatividade e produção de novos conhecimentos aplicados e contextualizados.

A pandemia trouxe à tona, além da questão da doença em si, pontos altamente relevantes relacionados a indicadores sociais e ambientais. Disponibilidade hídrica, coleta e destinação de resíduos sólidos, uso de energia, mobilidade, produção e distribuição de alimentos, entre outros, são temas diretamente relacionados à pandemia e que interagem de forma complexa para a maior ou menor propagação do vírus. Ponto crucial para o bom gerenciamento desses processos é a informação, muitas vezes, não produzida e/ou disponível.

Imagem: Creative Commons

Um cenário possível é imaginar que as mais de 180 mil escolas (considerando-se somente a rede pública de ensino) poderiam se tornar verdadeiros laboratórios de pesquisa na direção da compreensão mais profunda e ampliada das características socioambientais do seu território. Esse processo de investigação colocaria a escola como um dos centros vitais da comunidade e de sua cidade (uma vez que quase 90% delas estão em zona urbana), colaborando para a compreensão da realidade local e fomentando transformação dos pontos de vista pessoal, coletivo e em políticas públicas.

Do ponto de vista de ensino-aprendizagem, fazer pesquisa e gerar conhecimento (ou seja, aprender por meio da investigação) vai diretamente ao encontro de formas de aprendizagem mais ativas e que estimulam a participação e a colaboração na busca por soluções aos desafios comuns. Tal estratégia dialoga diretamente com o desenvolvimento das diferentes competências gerais preconizadas na atual Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e de competências socioemocionais. Tal cenário, inclusive,  já pode ser pensado por meio dos itinerários formativos sugeridos às instituições de Ensino Médio.

As informações e conhecimentos construídos local e coletivamente colaborariam diretamente com a busca por alternativas e mobilizações comunitárias em momentos de crise, como pudemos observar, recentemente, na comunidade de Paraisópolis.

O ponto aqui não é (re)criar uma nova instituição dentro de uma óptica utilitarista e pragmática, mas unir atributos educacionais desejáveis dentro processo de ensino-aprendizagem aos múltiplos caminhos de desenvolvimento local, melhoria da qualidade de vida, prevenção, mobilização e ação em momento de crise.

Imagem: Creative Commons.

É verdade que já existem muitos bons exemplos de instituições do ensino básico que já possuem o DNA da pesquisa e da criação em sua matriz curricular, em especial, entre as escolas técnicas. É preciso ampliar as pesquisas nessas instituições para compreender ainda mais como estas (e muitas outras) já estão colaborando com suas comunidades e suas cidades. A ampliação dessas práticas pode criar uma rede de informação nacional centrada na escola, nos educadores, nos estudantes e seus territórios, valorizando ainda mais sua atuação como agentes de prevenção, resposta e transformação permanente.

Artigo de:
Edson Grandisoli (Pós-doutorando pelo IEA-USP e Doutor em Ciências) & Pedro Roberto Jacobi (Professor Senior do IEE-USP).

 

 

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