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Pandemia e o Agravamento das Desigualdades

Momentos delicados como o de uma pandemia deveriam ser explorados para a construção de uma sociedade melhor. O tal novo normal que tantos falam deveria ser um mundo diferente daquele que conhecíamos, com mais igualdade, um meio ambiente equilibrado e respeito pelas diferenças.

No entanto, estamos acompanhando exatamente o contrário acontecer. O momento está sendo usado para aprofundar diferenças e acabar com direitos duramente conquistados. Parece uma análise pessimista, mas é real e este texto traz alguns exemplos de como governos estão utilizando esse momento para “passar boiadas”.

1. Finalmente um muro

A pandemia tem sido utilizada para justificar medidas restritivas de direitos em muitos países. Nos últimos meses, os Estados Unidos da América suspenderam a emissão de vistos de diversas categorias e, inclusive, ameaçaram expulsar estudantes estrangeiros que estejam no país, mas que não venham a ter aula presencial no próximo semestre. Durante todo o seu governo, Trump advogou pela construção de um muro que separasse o México dos Estados Unidos para evitar o acesso ilegal de imigrantes via fronteira mexicana. Com a necessidade de evitar a contaminação e a imposição de limitação de viagens, Trump também aproveitou o momento para ordenar a limitação de imigração e a suspensão de concessão de vistos de estudo, pesquisa e trabalho, por exemplo.

Fonte: Charge de João Bosco

2. Como não falar daquela reunião?

No Brasil, temos que lembrar aquela reunião divulgada no final de maio. Apesar de não ter chocado muita gente, ficou muito claro naquele momento que o objetivo do governo seria aproveitar enquanto a imprensa estava preocupada com os casos de Covid-19 para passar medidas “impopulares” que fazem parte da agenda deles.

Para além da dificuldade de manter as atividades durante a pandemia, os órgãos de fiscalização como o Ibama ainda têm que enfrentar o próprio governo que não age de acordo com suas recomendações e assina medidas que favorecem madeireiros e garimpeiros. Por causa do avanço dos garimpos ilegais, populações indígenas como a Yanomami estão completamente vulneráveis à Covid-19 e estão morrendo (junto com a floresta).

Print de notícia vinculada na Agência Brasil. / Fonte: Portal EBC – Empresa Brasileira de Comunicação.

As relações trabalhistas também sofreram alterações graves. Durante discussões sobre o que deveria ser feito para evitar perdas econômicas ainda mais graves, o governo chegou a editar uma medida provisória (MP 927) que permitia o afastamento do trabalho, sem ajuda financeira, em caso de investimento em qualificação. O artigo que tratava sobre isso logo caiu diante da repercussão negativa, mas ele é um exemplo das diversas medidas que achataram ainda mais os direitos trabalhistas durante a pandemia.

3. O mais importante: direito à vida

Os EUA e o Brasil são os dois países com o maior número de casos da doença e, por causa da grande desigualdade social em ambos, a pandemia atingiu, de forma diferente, diferentes pessoas. A taxa de morte entre negros e latinos (people of color) nos EUA é mais alta do que entre os brancos. A mesma coisa acontece no Brasil, a população periférica é atingida de forma muito mais grave. No estado de São Paulo, de acordo com dados da secretaria de saúde municipal, as mortes estão concentradas nas regiões mais pobres. Não existe explicação biológica para esse fato, a resposta é social. As populações periféricas tanto dos EUA quanto do Brasil têm menor qualidade de vida, por isso estão vulneráveis. A esse grupo foi negado o direito mais importante: o direito à vida.

Print de notícia vinculada no jornal “O Globo”. / Fonte: Jornal O Globo

4. Mas o que tem sido feito para atrapalhar?

Falta de liberdade de imprensa: O ataque à liberdade de imprensa não é algo novo. Questionar o trabalho dos jornalistas é algo comum em diversos governos, mas o ataque sistemático e a limitação do seu trabalho é típico de governos mais autoritários. Durante a pandemia, alguns governos tiveram a ideia de não testar ou não divulgar mais os dados sobre contaminação e mortes já que um número alto é negativo para suas imagens. Trump chegou a dizer: “nós temos mais casos porque testamos mais, estou pensando em diminuir isso”. Por aqui, foi implementada uma barreira ao acesso à informação. Hoje, é graças a um convênio entre os meios de comunicação e as secretarias de saúde estaduais que sabemos como estão os números da Covid-19 no Brasil.

Print de notícia no portal G1. / Fonte: G1

Impedimento do ir e vir: Este é o último direito limitado que gostaria de falar, porque apesar de difícil, ele é menos importante uma vez que é a consequência natural e temporária de uma pandemia. Certamente, o impedimento temporário de circulação traz consequências econômicas para a sociedade também, além das consequências individuais. Todavia, é possível contornar isso. Os países que pararam cedo e controlaram a circulação do vírus eficazmente já estão vivendo numa quase-normalidade. Provavelmente, por causa da falta de políticas públicas sérias de controle do vírus no nosso país, tenhamos um prolongamento da necessidade de manter o isolamento. Nem tão cedo teremos a vida que tínhamos antes.

Calma, talvez olhar para tudo que vem se perdendo durante esse momento seja muito difícil, mas acredito que é necessário para que nada disso seja tratado como natural/normal. O que podemos fazer hoje para evitar uma tragédia igual ou pior amanhã? Qual a nossa parte nessa desordem? Todos nós podemos fazer um pouco. Desde consumir menos e melhor até votar em quem nos representa de fato. A solução está em nossas mãos e começa no próximo novembro. Fica aqui o convite para conversar sobre política e viver conscientemente. Vamos ou bora?!

 

 

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