E se a escola tivesse horta? Quando o imaginário pedagógico encontra a urgência climática

Moro no bloco 2 do prédio, aqui ele fica nos fundos do terreno. A perspectiva de vizinhança parece mais ampliada sob o meu ponto de vista. Além da vizinhança dos muros laterais, desfruto todo o universo que habita o muro dos fundos.

Colada a esse muro, vizinho uma vila de casas e colado ao fundo das casas do outro lado da vila, alcanço um Instituto de Educação que oferece ensino básico e fundamental.

O mês de agosto retoma com o burburinho da vida humana no Instituto. Durante as férias, que acontecem na última quinzena de julho, por ali somente ouve-se os pássaros e o balançar das folhas espalhadas pelo vento. Os primeiros dias de agosto me presenteiam com os múltiplos sons do riso, do alvoroço, dos apontamentos e chamadas de atenção, da disputa pela bola, da comemoração, do falatório simultâneo, da cozinha e sua efervescência.

O Instituto oferece, além das edificações em prédios coloniais lindos, uma boa área livre que abriga campo de futebol, quadra multiesportiva, jardins, árvores, flores, mas por lá, a horta não tem.

Daqui de casa, dois muros atrás, fico imaginando qual som uma horta  traria? Assim me deixo levar por sons do manejo da terra, da preparação dos canteiros…  Amplio a minha curiosidade no sentido sobre os possíveis sons originários de movimentos que sustentam uma horta escolar, desde a preparação do solo até a colheita, passeando pela semeadura.

Importante jamais esquecer que antes de tudo vem o sonho. E como já disse Raul Seixas “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Me deixo ser carregada pelos sons do encontro entre alunos, pais e responsáveis, professores, diretores, cozinheiras, o pessoal do serviço geral, além dos amigos e vizinhos da escola, construindo o sonho comum de uma horta escolar.

A imaginação é livre e por trás dos muros, já posso ouvir mutirões que envolvem toda a comunidade escolar para apoiar o ciclo vivo da horta, enquanto se apoiam nos grandes desafios.

Seguindo no imaginário e acompanhando o dia a dia, somaram-se aos sons antigos, novos arranjos sonoros e produtivos. Próximo à horta, agora ouço aulas de matemática, biologia, ciências, história, geografia e culturas originárias e ancestrais. Ouço também informações sobre mudança, justiça, adaptação e mitigação climática e a horta como assunto para tudo que é tema e matéria de aula.

O melhor, ainda por vir, ocorre com a inclusão dos cheiros imaginários . O momento é da culinária. De longe ouço os passos e um pouco de arfar curioso das cozinheiras por saber qual surpresa a horta oferece aos pratos do cardápio.

Junto com os cheiros, ouço também o preparo para uma mesa montada ao lado da horta a serviço da comensalidade. Quando começa, a prosa muda e eu sigo tomada por cheiros inebriantes.

Todo alimento que não é comido pelos humanos, volta como alimento para adubar a terra da horta a partir da magia da compostagem com novos ciclos, sons e desperdício zero.

De tanto imaginar sons e cheiros para dar forma escrevi, mas a horta por lá insiste em não existir.

As hortas comunitárias são ativos socioambientais das cidades. Quando ocorrem em um contexto escolar, a camada pedagógica amplia e aprofunda envolvendo a comunidade escolar e o entorno. Apoia a transformação de hábitos alimentares, aproxima a família da escola, constrói conhecimento e consciência ambiental, além de contribuir para a mitigação de calor no território.

O campo do imaginário é fundamento para o sonho, mas a materialização nos convida a articular, engajar, mobilizar e agir. Vamos sonhar e construir hortas escolares pedagógicas e comunitárias em cada creche e escola que encontrarmos em nosso caminho?

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LIMA, Claudia. E se a escola tivesse horta? Quando o imaginário pedagógico encontra a urgência climática. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/08/e-se-a-escola-tivesse-horta-quando-o-imaginario-pedagogico-encontra-a-urgencia-climatica.html>.

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