Quem conduz a carruagem do Sol? A crise climática e a ilusão do controle humano

Inicio meu primeiro artigo com uma pergunta, um recurso típico de quem ainda está em busca de respostas. Ao procurar narrativas que expliquem a relação entre humanidade e natureza, lembrei do mito de Faetonte e de como suas metáforas revelam ensinamentos aplicáveis à nossa realidade.

Movido pela ambição, pela vaidade e pelo orgulho, Faetonte pede a seu pai, Hélio, o deus Sol, que lhe permita conduzir a carruagem solar por um único dia, para provar e se vangloriar da sua origem divina.

Contudo, ele logo perde o controle dos cavalos, e a carruagem desgovernada desencadeia um caos climático, gerando fortes ondas de calor e frio extremos. Ao se aproximar demais da Terra, provoca incêndios que queimam florestas inteiras, secam os rios e mares e transformam terras férteis em desertos; e, ao se afastar, causa congelamentos em diversas regiões. Para interromper a catástrofe, Zeus intervém e lança um raio fatal contra Faetonte.

Mais alguém aí está com a sensação de que essa carruagem está descontrolada de novo? Definitivamente, sim. No Brasil, o ano de 2025 foi classificado como um dos anos mais extremos das últimas décadas pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Outra pesquisa, realizada pela Quaest no fim do ano passado, indicou que 94% dos brasileiros afirmam já ter sentido algum efeito das mudanças climáticas.

Foto: Fabio Lima.

E não é apenas uma percepção: a vida de milhares de pessoas foi diretamente afetada. O que começou com uma sensação de desconforto se transformou em necessidade de ação.Segundo um estudo do Instituto Talanoa, 24% dos brasileiros já precisaram deixar suas casas, ainda que temporariamente, devido a desastres climáticos severos, como incêndios ou enchentes.

E a demora ou a falta de reação a esses fenômenos já apresenta consequências avassaladoras. Um estudo inédito, realizado pela Fiocruz e pela UFBA, analisou a relação entre ondas de calor, internações e mortalidade no SUS entre 2000 e 2019. Os pesquisadores estimaram que cerca de 120 mil mortes no período estiveram associadas ao calor extremo, assim como o aumento de internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante períodos de temperaturas extremas. É fundamental ressaltar que o risco é ainda maior entre pessoas vulneráveis, com menos recursos para se proteger, em condições precárias de moradia, com baixa renda ou menor escolaridade, além de idosos, mulheres e crianças. Por isso, esses grupos devem ser priorizados em ações de proteção e prevenção, bem como em políticas públicas de longo prazo. 

Tem sido angustiante acompanhar o tom apocalíptico das notícias sobre a crise climática global. A Europa Ocidental registrou o mês de junho mais quente da história, com mais de 5 mil mortes associadas às altas temperaturas. Na Coreia do Sul, uma onda de calor histórica deixou dezenas de mortos e elevou os termômetros a 42,5 °C, a maior temperatura já registrada no país.

Pela primeira vez, as autoridades sul-coreanas emitiram um alerta de nível máximo devido a uma intensa onda de calor. Imagine receber um aviso para interromper atividades ao ar livre, seja de trabalho ou esporte, porque as condições são tão extremas que até pessoas saudáveis correm risco significativo de graves problemas de saúde ou até de morte.  Imediatamente me veio à cabeça a combinação de dois traumas: o alerta assustador da defesa civil no celular e o lockdown da pandemia.Alertas, espaços climatizados e arborizados, distribuição de água, mudanças e restrições no horário de trabalho e monitoramento de grupos vulneráveis por equipes de saúde são medidas emergenciais que podem salvar vidas. Contudo, é preciso também focar no enfrentamento das causas do problema. A necessidade urgente de adaptar cidades, hospitais e serviços às mudanças climáticas passou a fazer parte da nova realidade.

É aqui que trago a última má notícia: Zeus não voltará. Não haverá intervenção divina para controlar o caos climático em que estamos. A história e suas lições insistem em se repetir: as consequências de tentar dominar e submeter a natureza às nossas vontades são catastróficas, Faetoners.

As rédeas dessa carruagem desgovernada agora são nossas. E há rédeas para todos. Cada indivíduo pode e deve fazer sua parte, como mudar hábitos de consumo e mobilidade, descartar corretamente os resíduos, apoiar organizações ambientais e influenciar positivamente suas comunidades. Além disso, também é fundamental votar em candidatos que priorizam políticas ambientais e, principalmente, cobrar esses representantes.

A responsabilidade, contudo, deve ser proporcional ao impacto causado. A sociedade deve acompanhar e exigir retorno dos principais agentes que agravam a crise ambiental, justamente aqueles que possuem maior poder de decisão e transformação: governos, grandes empresas e indústrias, instituições públicas e privadas, o agronegócio, setores de mineração e extração de recursos, empresas de energia e combustíveis fósseis, além de organismos internacionais e autoridades reguladoras.

Ao longo da história da humanidade, podemos observar que os ciclos de ascensão, queda e reconstrução se repetem. Ao cruzar os limites da exploração, a carruagem certamente sairá do prumo novamente, exigindo que as novas gerações retomem as rédeas. Hoje, temos plena capacidade de conduzi-la por um caminho de conscientização e sustentabilidade, deixando para as gerações futuras exemplos positivos de responsabilidade e transformação.

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CAVALCANTI, Diana. Quem conduz a carruagem do Sol? A crise climática e a ilusão do controle humano. Autossustentável. Disponível em: <https://autossustentavel.com/2026/09/quem-conduz-a-carruagem-do-sol-a-crise-climatica-e-a-ilusao-do-controle-humano.html>. 

Referências e Sugestões de Leitura:

Declaração de Transparência sobre Uso de Inteligência Artificial
Este artigo teve revisão textual/ortográfica com o auxílio da inteligência artificial clarice.ai e do ChatGPT para criação de imagem.

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