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A não tão secreta linguagem das árvores

A linguagem das árvores

A habilidade de se comunicar é uma verdadeira maestria. Quantos relacionamentos não prosperaram por serem capazes de ultrapassar a linguagem tradicional da fala e se comunicar além das palavras?

Hoje sabemos que todas as espécies de animais têm alguma forma de comunicação ou linguagem. Cientistas já descobriram que golfinhos “conversam” entre si, usando uma grande variedade de sons e ultrassons modulados de modo a expressar informações, situações, emoções e, com muita probabilidade, pensamentos. As abelhas se comunicam através da dança para dizer às companheiras onde achou alimento. Os pássaros usam seu canto, lobos se expressam através de movimentos corporais, cães-da-pradaria desenvolveram uma linguagem tão complexa e sofisticada que podem até dizer uns aos outros se os seres humanos estão armados quando se aproximam.

Imagem: Maria Eduarda Souza
Imagem: Maria Eduarda Souza

Os mais recentes estudos demonstram que até as árvores se comunicam. É através de uma rede maciça de raízes de cogumelos,semelhantes ao cabelo humano, que elas enviam informações preciosas a outras árvores e espécies. Estas raízes transmitem mensagens secretas entre as árvores, desencadeando-as em um compartilhamento de nutrientes e água com as espécies necessitadas.

Assim como os seres humanos, as árvores são criaturas extremamente sociais, totalmente dependentes uma das outras para sua sobrevivência. E assim como nós humanos a comunicação é um fator essencial nesta relação de sobrevivência entre espécies. Cientistas descobriram que raízes de pinheiros poderiam transferir carbono para outras raízes de pinheiro em um laboratório. Depois de atestar este fato, a professora de ecologia Suzanne Simard decidiu descobrir como as árvores foram capazes de praticar esta relação de colaboração.

O que a professora Simard descobriu foi uma vasta rede emaranhada de raízes de cogumelos que formam uma teia complexa de informação que permite a comunicação de mensagens importantes entre as árvores de mesma espécie e espécies relacionadas, de modo que a floresta se comporta como “um único organismo“.

Imagem: Maria Eduarda Souza
Imagem: Maria Eduarda Souza

A ideia de que as árvores poderiam compartilhar informações subterrâneas era controversa. Para provar cientificamente o que intuía, Simard realizou um experimento que resultou em uma revelação inovadora: as árvores são seres cooperantes, ao contrário do que achávamos no passado onde assumimos que as espécies estavam competindo umas com as outras por carbono, luz solar, água e nutrientes foi substituído pelo entendimento de cooperação entre as espécies.

As árvores se comunicam enviando sinais químicos e hormonais através do micélio, para determinar quais árvores precisam de mais carbono, nitrogênio, fósforo e carbono, e quais árvores têm de poupar, enviando os elementos de um lado para o outro até a floresta se tornar toda equilibrada.Simard diz que a teia de comunicação é tão densa pode haver centenas de quilômetros de micélio sob uma única pegada humana.

Imagem: Maria Eduarda Souza
Imagem: Maria Eduarda Souza

A rede de micélio conecta as árvores-mães com árvores bebês, permitindo que elas alimentem as mais jovens. Uma única árvore mãe pode fornecer alimento para centenas de árvores menores através da camada de dossel e sub-bosque, região que fica abaixo do principal dossel (camada emergente) de uma floresta. As árvores-mães até reconhecem seus parentes, enviando-lhes mais micélio e carbono reduzindo seu próprio tamanho de raiz para dar espaço a seus bebês.

Esta nova compreensão científica de comunicação entre as árvores fornece importantes implicações para nós. Por exemplo, quando as árvores-mães são feridas ou estão morrendo, por conta do desmatamento ou algum fator não natural, elas enviam sua “sabedoria” para a próxima geração. No entanto, com o desmatamento de áreas inteiras, as árvores não podem fazer isso e toda a “sabedoria” que vem sendo transmitida por árvores mais velhas para mais jovens há milênios é exterminado de uma só vez.

Para alguns, estas informações podem ser notícia recente, no entanto diversas culturas e povos tradicionais já intuíam esta forma sofisticada de comunicação entre a floresta. Povos indígenas e comunidades que vivem mais próximas da terra afirmam que todos os seres estão conectados e que os seres da floresta, como as árvores, conversam entre si.

Imagem: Maria Eduarda Souza
Imagem: Maria Eduarda Souza

Através de suas complexas cosmologias povos indígenas foram capazes de construir uma sabedoria que pode ser considerada como uma ciência nativa. Comunidades tradicionais não usam o método científico ocidental que conhecemos, no entanto, sua experiência também gera uma ciência, pois foi através de várias gerações de atentos observadores que esses povos construíram seu precioso conhecimento. E é através de sua rica mitologia que os povos originários transmitem esta sabedoria às gerações mais jovens.

Atualmente a sociedade parece ter adormecido para as histórias que contêm verdadeira sabedoria e conhecimento. As histórias que hoje prestamos atenção são as contadas pela mídia, governo e etc. No entanto, se retornarmos à nossa sabedoria indígena, a nossa intuição, aliadas a pesquisas e descobertas científicas, podemos sentir e entender que uma floresta é um espaço sofisticado. Talvez até além de nossa compreensão, contendo mistérios que devem ser respeitados.

Imagem: Maria Eduarda Souza
Imagem: Maria Eduarda Souza

Ao observar os complexos sistemas de interconexão da natureza veremos que não é através da competição que a evolução acontece, mas sim da cooperação. Quando entendermos este fato, iremos prosperar como uma comunidade inteira, humanos e não humanos. E quem sabe até não iremos descobrir que todos os seres da Terra estejam conectados, não pelo micélio, mas por forças que a ciência tradicional não é capaz de provar. O que acontecerá se ousarmos aprender com as árvores?

 

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