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Desafios da Sustentabilidade na China

Recentemente me mudei para China. Nunca imaginei (ou desejei) morar aqui, mas a vida tem dessas coisas… te leva a lugares inesperados onde experiências incríveis acontecem. Até hoje minha vida foi assim. Pois bem, me mudei para Shanghai, a maior cidade da China e um dos maiores centros urbanos do mundo com mais de 24 milhões de habitantes.

A primeira reação de muitas pessoas quando falamos na China é: “Nossa, o que você vai fazer com sustentabilidade lá?” ou “O pior lugar para ser sustentável é na China”. A verdade não é bem assim, há muito o que fazer aqui. Além de uma infinidade de recursos disponíveis, o país esta aberto para soluções sustentáveis. A China é o terceiro maior país do mundo, atrás somente da Rússia e do Canadá, e como em qualquer grande país as realidades são distintas dependendo da região.

Shanghai, a maior cidade da China. / Imagem: Creative Commos

Definindo Sustentabilidade

Até quase o final do século XX, a noção de sustentabilidade para a maioria dos chineses significava simplesmente ter o suficiente para comer. Para muitos, a vida é melhor agora do que no passado. Dos anos 1980 até hoje, estima-se que 400 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza absoluta e agora tem uma classe média próspera. Mas o crescimento irrestrito trouxe também problemas. Estes incluem uma ampla gama de questões ambientais. Olhando para os dilemas de sustentabilidade na China hoje, é importante que as pessoas de fora compreendam o seguinte:

  • As questões de sustentabilidade da China não estão historicamente ligadas ao consumo privado como nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental; elas estão ligadas aos processos industriais que apoiam o modelo de desenvolvimento econômico da China.
  • A China não vê as emissões como um problema que deve ser tratado imediatamente. Com milhões de pessoas ainda na pobreza, o crescimento econômico ainda é a prioridade.
  • A maior pressão que a China enfrenta para resolver problemas de sustentabilidade vem de dentro, como por exemplo a insatisfação dos cidadãos com a poluição do ar. Pressões externas ou preocupações com o planeta como um todo são secundárias.
Praça Tiananmen em Beijin, China, encoberta por poluição atmosférica pesada. / Imagem: China/Newscom.

Ecologia e Economia

As questões que a China enfrenta estão amplamente ligadas ao desenvolvimento econômico. Eu estava conversando com um novo colega de trabalho e ele me disse o seguinte: “Ensinar Ecologia Profunda aqui na China é um grande desafio, este conceito sobre o mundo natural ter valor intrínseco é uma ideia muito difícil para eles.”. O que o meu colega quis dizer é que sustentabilidade só é interessante para os chineses porque reflete na saúde da população, a integridade do mundo natural por si só não é prioridade, a natureza é vista como recurso. Hoje em dia as lideranças entendem que tudo esta interconectado, no entanto nem sempre foi assim.

Em 2007, o segundo maior lago de água doce da China experimentou uma proliferação de algas que arruinou um destino turístico popular e resultou em escassez de água para três milhões de pessoas. Este foi um momento de reflexão, particularmente para aqueles mais próximos do lago e os governantes chineses que começaram a ligar os pontos entre economia e ecologia. A China é a segunda maior economia do mundo e atualmente, sob o comando do presidente Xi Jinping, o país vem dobrando os esforços para limpar seu ar, água e terra.

Plano de Ação 2020

Em 2018, o Estado divulgou um plano de ação de três anos para combater a poluição do ar. Nomeado “2020 Action Plan” o país estabeleceu metas no combate às mudanças climáticas, exigindo “grandes reduções nas emissões totais dos principais poluentes em coordenação com a redução das emissões de gases de efeito estufa”. Como parte do plano a China emprega uma série de ferramentas.

Carros Elétricos

Hoje, as principais cidades chinesas estão construindo centenas de postos de abastecimentos para carros elétricos. No momento, não adianta incentivar a venda destes automóveis se o uso diário não é possível. Com novos postos de abastecimentos por todas as principais cidades na China, junto ao incentivo da indústria automobilística chinesa, a transição para carros elétricos irá acontecer de forma rápida e efetiva. Em Shanghai todas as motocicletas (e a maioria dos ônibus) já são elétricos, isto torna as ruas incrivelmente mais silenciosas e diminui consideravelmente a emissão de gases poluentes.

Motocicletas elétricas esperando o sinal de trânsito em Chengdu, Sichuan. / Imagem: killerturnip

Energia Solar

A China também é o país com maior capacidade instalada de energia solar do mundo, com gigantescos 130 gigawatts. Se tudo isso gerasse eletricidade de uma só vez, poderia alimentar todo o Reino Unido várias vezes. O país abriga muitas fazendas solares de tamanho considerável – incluindo a imensa usina hidrelétrica de Longyangxia, de 850 megawatts, no Planalto Tibetano, com seus quatro milhões de painéis. E a maior usina solar do mundo no momento está no Deserto de Tengger, na China – sua capacidade excede 1.500 megawatts.

Longyangxia Dam Solar Park na China. / Imagem: Solar Insure

Descarte Consciente

Durante décadas, a China foi o maior importador de lixo do mundo, sendo o depósito para mais da metade do lixo mundial, importando quase 9 milhões de toneladas de sucata por ano. A partir de 2018 a China proibiu a importação de 24 tipos de sucata, essa decisão impactou positivamente a China que reduziu automaticamente a sua quantidade de descarte e poluentes. A proibição também impactou os países exportadores, Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia e Japão (entre outros), que ainda estão lutando por uma alternativa à China. Estes países agora tem de criar uma solução a longo prazo para seu descarte, muitos estão repensando sua política de consumo.

Sacolas Plásticas 

Ano passado as autoridades chinesas anunciaram que, a partir de junho, todas as lojas da China seriam proibidas de oferecer aos clientes sacolas plásticas grátis. O governo está incentivando os clientes a usar sacolas de pano e cestas. O país estava usando 3 bilhões de sacolas plásticas por dia – o dobro que os americanos usam. Agora, o uso de sacolas caiu 66%. A proibição de sacolas plásticas foi uma maneira de reduzir o uso de petróleo da China. Para atender a demanda do país por sacolas plásticas, a China teria que refinar 5 milhões de toneladas, ou 37 milhões de barris de petróleo a cada ano. A China já economizou 1,6 bilhão de toneladas de petróleo com esta nova medida.

Segundo dados de 2017, a China tem uma população de 1.386 bilhões de pessoas, sendo o país com a maior população do mundo. Aqui, como em outros lugares, o desafio da sustentabilidade exige uma reestruturação sistemática profunda. Isso vai levar tempo, os próximos anos serão cruciais, no entanto o país já esta se movendo nesta direção.

 

Você quer saber mais sobre a China? Deixa um comentário aqui. Nós próximos artigos vou refletir e explorar um pouco mais desta temática: Sustentabilidade na China.

 

assinatura_Maria_Eduarda

 

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6 comentários

  1. Duda querida, gostei de ler seus comentários sobre sustentabilidade na China. Bem escrito e elucidativo. Continue nos informando sobre esse país longíquo onde hoje v mora.Como eu muitos apreciam! Bjs e parabens!!tia Hilma

    1. Tia Hilma, fico super feliz em ver que você leu e gostou do meu texto. Significa muito para mim! Obrigada! Com certeza vou continuar escrevendo sobre esta temática e envio a você os novos artigos para poder acompanhar e descobrir o país junto comigo 😉

      Um beijo grande,
      Duda

  2. Eduarda,
    Interessantíssimo seu artigo sobre esse país imenso . . . muitos de nós ocidentais não temos noção da dimensão da China e dos países asiáticos… fiquei surpreso com Shanghai e como uma cidade com 25 milhões de habitantes funciona de forma limpa, organizada e civilizada… dá pra sentir no ar a energia, a pegada ecológica e a preocupação dos lideres e cidadãos com o convívio do homem X natureza.
    Continue escrevendo, nos esclarecendo e informando sobre este imenso pais e mercado !
    Adorei o artigo
    Eduardo Souza

    1. Obrigada! Fico feliz que gostou e que trouxe novas informações sobre a China. Vou continuar pesquisando e escrevendo sobre o país.

      Um beijo grande,

  3. Tao bom a ouvir a seus noticias e mais a ouvir uma perspectiva do China positiva ao relaçao de coisas sustenáveis.

    Vocé é uma Inspiracão!

    1. Hi Stephanie, I am so happy to see you around here and very glad you enjoyed the article. Since I am now living in Shanghai I will be dedicating my research and writing to China related subjects, hope to be writing about more positive things too! Lets keep in touch!

      I always remember with great fondness of our time in the UK.

      Schumie hug for you!
      Maria

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