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Nosso Conforto e Nossas Escolhas: Estamos prontos para viver em sociedade?

Época de férias nos lembra viagens, hotéis, praias, aviões, ônibus, excursões e diversão. No ritmo atual de trabalho, em que muitos passam 11 meses desesperados tentando cumprir todas as tarefas e metas pessoais e profissionais, o que mais queremos nas férias é sombra e água fresca, tranquilidade e conforto.

Imagem: Creative Commons

Estive em Porto Alegre, minha querida cidade natal. Desta vez fui acompanhar meu marido, que estava a trabalho e ficamos em um hotel fornecido pela empresa. Um bom hotel, muito confortável. A capital do Rio Grande do Sul sempre teve verões bastante quentes e foi apelidada de Forno Alegre. Pois bem, em janeiro, tivemos três dias escaldantes, dignos do apelido carinhoso da cidade. A temperatura chegava próxima dos 40 graus ao meio dia e dos 30 graus à noite.

Antes de ir a Porto Alegre, já estávamos experimentando um clima saariano em Santos, com todos comentando que o ar-condicionado teria se tornado um item de necessidade e saúde. Jantamos dia desses na casa de um amigo que sequer possuía ventilador. Confesso que senti muito calor, bebi litros e litros de água gelada e mesmo assim tive um episódio de pressão baixa devido ao calor excessivo.

Mas em Porto Alegre, como ficaria apenas por três dias, optei por passear de ônibus.  Pelo preço, pela causa ambiental e para poder ficar apreciando paisagens diferentes. Afinal, eu tinha tempo e estava passeando.

No primeiro dia, fui até a recepção do hotel, por volta de 9h30 para pedir informações sobre qual ônibus deveria pegar para chegar até a perimetral, aonde sabia que poderia pegar um ônibus para o meu local de destino. A recepcionista fez cara de espanto e disse: “Sério? A senhora quer sair neste calor e enfrentar dois ônibus? Nem todos têm ar-condicionado, hein? Fora que a senhora vai ficar esperando no ponto pelo menos uns 15 minutos. Se chamar pelo aplicativo, é capaz de conseguir um preço parecido com o do ônibus, que já está custando R$ 4,00.”. Eu ri. Disse que já havia ponderado isso, mas que decidi ir de ônibus. Ela acabou me indicando o ônibus que eu precisava pegar e uma lotação (que tem ar-condicionado, mas é mais cara).

Imagem: Wikimedia

No dia seguinte a cena foi parecida, com outra recepcionista. Ela disse: “Olha, a senhora até vai chegar lá, mas vai demorar quase uma hora. Se for de táxi ou por aplicativo, em 20 minutos chega e ainda tem ar-condicionado.”. Sorri e foi pegar o ônibus.

Enquanto esperava o ônibus, que no primeiro dia levou mais de 15 minutos, fiquei pensando o porquê era tão inaceitável e estranho eu ter optado pelo transporte coletivo. Parece que encaramos o ônibus como o nosso calvário diário para o trabalho e não conseguimos conceber um momento de prazer e diversão em um ônibus – muito menos em um dia de calor.

Não lembrava, mas os ônibus de Porto Alegre têm há muitos anos (mais de 10) um concurso anual de poemas, cujos textos ganhadores  são impressos em adesivos e colados nos vidros dos coletivos. Adorava ler aqueles textos e quase sempre me perdia em pensamentos criativos após ler um deles. Literalmente viajava com os poemas. Faltou o ar-condicionado em 3 dos 7 ônibus que peguei em Porto Alegre, mas todos tinham poemas na janela. Um mais lindo que o outro.

Imagem: Projeto Poemas no Ônibus e no Trem

Também revi e conheci muitos locais a bordo dos ônibus nesses três dias. Conheci pessoas e conversei. Pude ver uma equipe filmando uma cena de um skatista num ponto de ônibus da perimetral. No final das contas foram momentos muito bons, com e sem ar-condicionado. O que me inquietou foi pensar que uma opção que privilegiava o nosso conforto (menos emissões de carbono na atmosfera) fosse vista quase como uma escolha pouco inteligente. Por que o meu conforto não pode ser um pouco menor para que todos possamos ter mais conforto?

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