Consumo

Acumular ou compartilhar?

Acumular se tornou um termo recorrente em debates sobre sustentabilidade e para todos aqueles que buscam encontrar uma vida mais equilibrada. As pessoas começam pensando no guarda roupa, mas em cada cômodo de uma residência temos grandes chances de estar acumulando algo.

A própria forma como o comércio tem atuado, alternando preços imperdíveis com um grande período de preços altos, faz com que tenhamos a motivação para aproveitar a maré de preços baixos e comprar o suficiente para muitas semanas. Se estivermos pensando em alimentos, o congelamento é uma das formas não apenas de conservar, mas de poder aproveitar as promoções. Se estivermos falando de livros, de conhecimento, chegará um momento em que precisaremos de um apartamento só para nossos livros e papéis.

A mídia inclusive já mostrou casos patológicos, em que pessoas são literalmente destralhadas. É o ápice de um processo de busca de felicidade e de preenchimento que nunca encontra a sua completude. Sempre precisamos de mais algo para nos sentirmos pertencendo, preenchidos e satisfeitos.

O compartilhar também está em alta. Os antigos compartilhavam, trocavam e sobreviviam graças ao convívio colaborativo. Era algo normal reconhecer que nem todos tem tudo, que não se pode produzir tudo o tempo todo. Somos limitados, não podemos ter tudo e está tudo bem com isso. Assim, a diversidade era o equilíbrio perfeito. Cada família produzia algo e todos podiam compartilhar com todos.

Imagem: Creative Commons

Hoje, esse termo remete à mídia social. O que se compartilha é aquilo que te representa. Aquilo com o que você concorda. O que considerou que possui valor ou simplesmente achou engraçado. Na vida privada, o compartilhar é usado com muita parcimônia. Compartilhamos poucos momentos com os amigos. Alimento é compartilhado na maior parte das vezes na rua. Roupas compartilhadas? Estranho, coisa de brechó, não sei não. Transporte compartilhado? Só se não der para ir de carro. No trabalho, compartilhar é perigoso. Podem roubar a sua ideia, o seu cliente.

Status atual: acumular mais e compartilhar menos. E o que isso gera?

Da perspectiva jurídica, estamos em um momento crucial para pensar a respeito destes dois conceitos: a reforma da previdência. A nossa poupança para o futuro pode ser individual e de acordo com nossas possibilidades de acúmulo (capitalização) ou coletiva e representativa da solidariedade entre classes sociais e gerações (atual regime).

Imagem: Creative Commons

Como podemos ver, acumular somente para si ou compartilhar não é um assunto restrito apenas ao guarda-roupas. Trata-se de uma postura de vida que informa alguns princípios e valores aos quais os cidadãos e a sociedade precisam aderir e conviver.

Se estivermos pensando em uma perspectiva micro, a maioria já concorda que são necessárias organizações e seleções periódicas para doação. A doação simboliza o compartilhar. Quando se trata de alimento, compartilhamos com restrições. No trabalho, com mais restrições ainda. No dinheiro… tá maluca? Tem cota de R$ 10,00?

Até que ponto iremos fingindo que estamos a sós nesse mundo, que damos conta de tudo e que não precisamos dos outros?

Quanto estamos dispostos a reconhecer nossas fragilidades e compartilhar?

 

 

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