Urbanidade

Cadê os valores sólidos que os antigos tinham?

Refletindo sobre a nossa época e as repercussões das questões ambientais entre as pessoas, percebi que alguns valores que os antigos preservam muito estão ausentes e fazendo falta.

Em uma conversa com amigos, me vi respondendo que era necessário contribuir com a previdência mesmo após aposentado em razão do princípio da solidariedade. Todos riram. Como se fosse uma piada.

Em outro momento, quando me questionaram sobre Tamoios e a razão de isolar áreas tão lindas das quais poderíamos usufruir, falei novamente em solidariedade (entre gerações, afinal nossos bisnetos tem o mesmo direito de usufruir que nós). E todos me olhando com uma divertida interrogação no rosto.

Valores se tornaram hilários, risíveis e pueris? A pergunta que não foi falada, mas que ficou pairando no ar: porquê raios você está tão preocupada com os outros? Você realmente acredita que devamos investir nossos recursos para ajudar a todos?

E se eu realmente acredito em solidariedade, isso não deveria ser considerado bom? Ou pelo menos ok? Estou desautorizada?

Já propus refletirmos sobre valores,  mas nunca havia experimentado essa distância, esse quase deboche em relação à solidariedade. É abismal a distância entre as frases de efeito publicadas nas redes sociais e a opinião real das pessoas. Sempre tivemos hipocrisia, mas será ela hoje maior do que o desejo que nos une?

É fácil projetar os reflexos dessa atuação líquida e sem compromisso. Bauman e outros tantos já debateram o individualismo e egoísmo dos dias atuais. Mas onde foi que perdemos esses valores que os antigos tanto prezavam e propagavam?

Imagem: Creative Commons

De algum modo, ainda somos tocados por histórias e filmes que remetem a está época em que os seres humanos agiam levando em consideração o efeito de suas ações sobre os demais – hoje e para o futuro. Buscamos essa consideração, esse reconhecimento de que alguém de alguma forma e em algum momento preocupou-se com o nosso bem-estar. Mas por qual razão estamos negando o movimento de doar consideração e solidariedade?

A solidariedade é mais que um valor moral. É um princípio constitucional que permeia vários assuntos, desde economia, previdência social e ambiente. Por estar expressamente registrada em nosso documento fundamental, significa que para a nossa sociedade, contemporânea de 1988, este era um assunto primordial e que mereceu ficar gravado.

Provavelmente aquela sociedade já havia concluído que a solidariedade é um meio de tornar a vida mais sustentável e inclusive confortável para todos nós. Quer um exemplo micro? Quando você é estudante e não possui condições financeiras de fazer muito sozinho, morar em uma república ou rachar despesas com outros estudantes é uma ótima opção. Dividindo com outros, provavelmente você consiga colocar um ponto de internet em casa, contratar uma faxineira uma vez no mês e muitos outros itens que nunca conseguiria sozinho. E também, quem nunca ouviu falar nos crowdfundings? Basicamente um investimento coletivo. Solidariedade com benefícios. 😊

Em uma visão macro,  fundos coletivos de previdência social, por exemplo, são mais do que solidariedade, são talvez a sua maior ajuda em um momento de necessidade. Não que o valor vá ser alto, mas que ainda que seja um salário mínimo, talvez não haja mais nenhuma outra ajuda possível.

Em tempos de liquidez, a ausência de solidariedade é latente. Talvez seja o momento de parar e refletir a razão pela qual nossos antecessores valorizavam tanto a solidariedade e o que foi que colocamos no lugar dela.

Imagem: Creative Commons

O que foi que colocamos no lugar da solidariedade?

Será que os valores que temos hoje poderão nos fornecer o suporte, o ganha-ganha e a segurança que a solidariedade nos proporcionava?

Estamos realmente preparados para a vida só?

 

 

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