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Sobrecarga da Terra – Vamos repensar nosso consumo?

No dia 29 de julho ultrapassamos o limite de regeneração do planeta. E o que isso significa? Estamos consumindo mais recursos do que a natureza é capaz de repor. E é notório que somos um planeta de endividados, uma parte considerável da população do nosso país convive com dívidas de cartão de crédito e de financiamentos. E o que isso tem a dizer sobre nós?

Neste caso, do nosso endividamento com o planeta, fiquei pensando como era no tempo dos meus avós. Isso porque na época dos meus pais, nos anos 1970, as previsões de sobrecarga já começavam a ser calculadas. Então precisamos analisar um pouco mais para trás. Meus avós eram agricultores do interior do Rio Grande do Sul. Colonizaram terras férteis naquele estado e conseguiram com “força e talento” (como dizia o meu vô João Paim), coragem e suor sustentar suas famílias e dar um mínimo de estudo para seus filhos. Naquela época ainda não se falava em crediário – fosse com o comércio ou com a natureza. Havia sim o caderninho da venda e também algum tipo de troca de produtos. Eles viviam como conseguiam e com o que tinham disponível no momento.

Imagem: Creative Commons

E este é o ponto que me chamou a atenção. Sim, eles viviam com o que estava disponível! Mas o planeta todo estava disponível, Janaína! Sim, estava. Então?

Meus pais, a geração anos 1970, saíram de casa antes dos 18 anos para tentar a sorte na capital. Ambos fizeram concursos públicos e construíram uma vida boa. Também houve força e talento, suor e coragem. Imagine se o seu filho de 16 anos hoje teria coragem e condições de pegar o trem rumo a capital e se virar? Ou você que tem 16 anos, teria essa coragem de sair com pouquíssimo dinheiro e tentar a sorte? Pois eles foram. Meu pai conseguiu emprestado o valor da inscrição do concurso com uma tia que era freira. Minha mãe morou com uma tia e depois viveu em pensões.

Mas o ponto é: essa geração quis dar aos seus filhos tudo o que não teve. A ciência e a agricultura progrediram anos luz neste período. Tanto que a partir dos anos 1980 já era possível encontrar iguarias nos supermercados. Todos os fatores conspiraram para que cada vez mais produzíssemos o que quer que desejássemos a qualquer instante. As frutas e legumes da estação hoje são aqueles que temos em maior abundância no mercado, mas conseguimos trazer alimentos do Alasca e mandar alimentos para o Japão. Se eu quiser uma jabuticaba, é possível encontrá-la em qualquer época do ano, fresca ou congelada. Temos desperdício em vários locais, mas há muitos que ainda passam fome no planeta. Há abundância de tudo, mas não no local necessário. E talvez tenha sido nesta ânsia que nos perdemos…

Imagem: Mayara Vale

… nos perdemos porque gastamos muito tempo e recursos produzindo tudo o tempo todo. Para que possamos preencher nossos desejos e não nossas necessidades. Na venda da Esquina Lewiski ou em Teutônia em 1960, havia o suficiente para preencher as necessidades dos meus avós. Talvez para alguns desejos também. Havia o essencial e algumas iguarias. Nos supermercados hoje, temos inclusive a possibilidade de reclamar se não encontrarmos algo que desejávamos. Meus avós sabiam o valor e o sabor das frutas, verduras e legumes; e também sabiam que era necessário conservar os alimentos em compotas e conservas, aguardar o tempo da nova safra para que a terra descansasse. Algumas crianças hoje não identificam alimentos, querem o mesmo sabor todos os dias e não entendem os processos naturais. Tornou-se uma necessidade para o comércio dispor de variedade cada vez maior de produtos a fim de conquistar e fidelizar clientes.

Imagem: Creative Commons

Dá para perceber o movimento que fizemos? Você reconhece alimentos da estação? Será que a forma de perceber o comércio e oferta de produtos naturais acelerou esse processo? É muito bom que tenhamos variedade, mas isso está fazendo bem para todos? Se o planeta está em burnout (sobrecarga), com quem estamos endividados? Essa dívida será paga por quem e para quem?

 

 

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