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O Paradigma da Sustentabilidade e o Papel Crucial da Educação

A construção de sociedades sustentáveis depende de mudanças sensíveis e complexas em diferentes esferas, desde a pessoal (incluindo percepções, valores, atitudes, comportamentos e relações) até a planetária (considerando as interações entre componentes políticos, culturais, ambientais, sociais, econômicos, entre outros).

O movimento denominado “do local ao global” tem dado conta de apenas uma parte das transformações necessárias em um planeta cada vez mais globalizado. Não é mais aceitável (aliás, não é de agora) que o ônus da sustentabilidade recaia somente sobre indivíduos em demandas isoladas e apolíticas como, por exemplo, o descarte seletivo, banhos mais curtos e abrir menos a geladeira em dias quentes.

Imagem: Creative Commons

Além disso, e sem tirar a importância das mudanças e ações individuais, essas demandas têm ecoado positivamente para uma pequena parcela das sociedades, considerando que a maior parte delas, ainda, está lutando pelos componentes básicos de subsistência – fazendo menção à hierarquia das necessidades de Maslow (1943) -, e uma pequena parcela vive um status quo fundado no consumo e descarte ilimitados.

O paradigma da sustentabilidade depende, de forma cada vez mais urgente, do estabelecimento de caminhos que propiciem a formação de indivíduos que compreendam a realidade de maneira mais sistêmica, integrada, inter e transdisciplinar, facilitando que façamos escolhas cada vez mais fundadas em um bem maior, coletivo. É nesse ponto que acreditamos que a sustentabilidade encontra a educação, uma vez que todos os espaços formais, informais e não-formais são, em algum nível, educadores.

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Para cumprir seu papel formador – considerando como mote, por exemplo, o panorama traçado pelo World Economic Forum (2015) sobre as habilidades requeridas para o século XXI – a quase totalidade dos espaços educadores demandam ajustes e reorientações estruturais, tecnológicas e metodológicas para cumprir sua função de educar na direção da geração de maior autonomia competente na leitura, interpretação e compreensão do mundo.

Apesar de urgência desses ajustes, a educação formal (do infantil ao universitário) é ainda a que mais resiste às mudanças e, portanto, demora a se adequar às novas urgências ligadas aos desafios socioambientais. Sendo assim, corremos atrás de um futuro que está se distanciando cada vez mais velozmente de todos e todas.

No nível das universidades, um dos caminhos possíveis para a resignificação das relações de ensino-aprendizagem no tocante à sustentabilidade está ligado à ambientalização de espaços e currículos, considerando-se que a temática socioambiental é inerentemente transversal e pode ser trabalhada por diferentes cursos de diferentes faculdades, ponto já tratado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais na década de 1990 para a Educação Básica.

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O desafiador caminho da ambientalização e da interdisciplinaridade tem sido pesquisado por Bacci et al. (e.g. 2015; 2017 e 2019). Parte dessas pesquisas investigou professores e estudantes de graduação sobre a construção de uma “cultura da sustentabilidade”. Os dados foram coletados por meio de entrevistas a estudantes de graduação e professores/coordenadores de 8 cursos em 3 diferentes campi da Universidade de São Paulo.

Os estudantes entrevistados descrevem a praxis educativa como centrada no conhecimento e menos nos valores e formas de participação. Com relação aos professores/coordenadores, foram apontadas a falta de desejo pessoal e institucional como barreiras para incorporação da sustentabilidade e práticas mais transdisciplinares, bem como a disciplinarização dos conteúdos e baixo número de projetos (Bacci e Silva, 2020; no prelo).

O quadro apresentado anteriormente pode ser facilmente identificado em outros níveis de escolaridade, em especial, a partir do Ensino Fundamental 2, quando a disciplinarização e especialização docente entram em evidência e a instalação de uma nova cultura encontra mais resistência. Para Jacobi (2015),

“a transformação cultural é necessária para quebrar o hiato existente entre o reconhecimento da crise social e ambiental e a construção real de práticas capazes de estruturar as bases de uma sociedade sustentável”.

De forma geral, passamos por um momento de transição na educação, no qual o papel da interdisciplinaridade, da participação, da colaboração e da cocriação estão cada vez mais encontrando adeptos em diferentes espaços formadores e de tomadas de decisão. Segundo Jacobi, Toledo e Grandisoli (2016),

“Educar para a sustentabilidade é um excelente campo de conhecimento para expandir a crescente capacidade das entidades sociais de realizar ações relacionadas à sustentabilidade, uma vez que elas estão relacionadas aos processos de aprendizagem e seus resultados. Esse caminho relacionado ao conceito de aprendizagem social deve ser considerado no planejamento, execução e avaliação de programas, cursos e projetos […]”

Apesar de sua importância do ponto de vista da construção de novos conhecimentos mais contextualizados, processos de aprendizagem social podem ainda ser considerados incipientes graças à falta de cultura de participação (historicamente instalada) e à complexidade técnica para a instalação de processos dialógicos locais, regionais e globais.

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Espaços democráticos multiatores, nos quais a horizontalização das relações e a valorização e o respeito aos diferentes tipos de conhecimento (práticos, científicos, tradicionais, etc.) devem se tornar cada vez mais presentes nas comunidades e instituições de ensino, a fim de compreender-se mais e melhor seu real papel e aplicabilidade na busca pela sustentabilidade (ver Grandisoli, 2018; Ernest, 2019; Souza, 2019).

A aprendizagem social multiator pode ser um dos caminhos mais significativos na busca por um novo paradigma, não somente da sustentabilidade, mas por um novo paradigma voltado para a construção de sociedades mais igualitárias, solidárias e colaborativas, pontos que dependem diretamente da reconstrução e regeneração das redes de relacionamentos que devem estar fundadas na confiança e na visão compartilhada da busca pelo bem comum.

 

Artigo de: Edson Grandisoli & Pedro Roberto Jacobi

 

Referências:

BACCI, D.C., SILVA, R.L.F., SORRENTINO, M. Educação ambiental e universidade: diagnóstico disciplinar para a construção de uma política ambiental. In: Anais do VIII Encontro de Pesquisa em Educação Ambiental. Rio de Janeiro, RJ, 2015.

BACCI, D.C., CARDOSO, L.S.C., SANTIAGO, L.O. Educação Ambiental nos Cursos de Graduação: Tendências à Ambientalização Curricular. In: XVI Encontro Paranaense de Educação Ambiental. Anais do XVI Encontro Paranaense de Educação Ambiental. Londrina, PR., 2017.

BACCI, D.C., SILVA, R.L.F., CARDOSO, L. S., GARCIA, A.S.; SILVA, K.S.L.; PEREIRA, R.S.D. Ambientalização Curricular e Cultura da Sustentabilidade na universidade pública: pluralismo e diversidade na educação ambiental. Anais do X EPEA. Aracaju, SE, 2019.

BACCI, D.C., SILVA, R.L.F. A cultura da sustentabilidade nas instituições de ensino superior. In: GRANDISOLI, E.; JACOBI, P. R.; SOUZA, D. T. P. Educar para a sustentabilidade: visões de presente e futuro. IEA-IEE-USP, 2020 (no prelo).

ERNEST, A. Review of factors influencing social learning within participatory environmental governance. Ecology and Society, 24 (1): 3, 2019.

GRANDISOLI, E. Projeto Educação para a Sustentabilidade: transformando espaços e pessoas. Uma experiência de 7 anos no Ensino Médio. Tese de doutoramento. PROCAM-IEE-USP, 2018.

JACOBI, P. R. (Org.) Aprendizagem social e áreas de proteção ambiental. São Paulo: Annablume, GovAmb, IEE-USP, 2015.

JACOBI, P. R.; TOLEDO, R. F.; GRANDISOLI, E. Education, sustainability and social learning. Braz. J. Sci. Technol. 3:3, 2016.

MASLOW, A. H. A theory of human motivation. Psychological Review, 50(4), 370-96, 1943.

SOUZA, D. P. T. Caminhos para a transformação de uma realidade local: uma experiência de aprendizagem social para a sustentabilidade na comunidade da Lomba do Pinheiro - o caso do Arroio Taquara. Tese de doutoramento. PROCAM-IEE-USP, 2019.

WORLD ECONOMIC FORUM. New Vision for Education. Unlocking the Potential of Technology. Cologny/Geneva Switzerland, 2015.

 

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