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Florestas ou Desertos Verdes?

Em tempos de degradação de ambientes naturais, como o desmatamento e as queimadas que estão ocorrendo no Brasil, é cada vez mais necessário pensar em formas de recuperar os ecossistemas. A revitalização ambiental não se resume a encher determinado local com árvores e algumas plantas menores. Até porque, se fosse assim, os imensos eucaliptais, bosques de acácia e pinus que encontramos na beira das estradas seriam áreas recuperadas, certo? Na verdade, essas monoculturas arbóreas são verdadeiros desertos verdes, já que não permitem o desenvolvimento de complexidade na vegetação, de forma que poucos nichos ecológicos são possíveis e a diversidade biológica é muito baixa.

O excesso de árvores, especialmente se essas são sempre das mesmas espécies, e o ambiente seco (ou marcado por uma estação seca pronunciada), além de consumir muita água do solo da região, praticamente inviabiliza o crescimento de plantas arbustivas e herbáceas em quantidade apreciável, que são habitat da fauna de pequeno porte, como insetos polinizadores. Também não há abundância de anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, já que a estrutura vegetal não fornece abrigo e recursos para a sobrevivência desses animais. O resultado é uma imensidão verde, com pouquíssimos animais e sem relevância ecológica.

Eucalyptus_forest

Quando falamos de restauração ou recuperação ambiental, temos que nos preocupar com a qualidade do processo. Então, como saber se determinada área está bem recuperada ou restaurada? Primeiramente, essa avaliação só deve ser feita oficialmente por um profissional habilitado (biólogo e engenheiro florestal, por exemplo), uma vez que, envolve conhecimentos específicos e complexos e a tomada de decisão técnica. Mas todos, como cidadãos, devemos ter opinião e embasamento para fazer julgamentos.

Um ponto muito importante é se essa revitalização foi feita com espécies nativas. Arborizar um ambiente com muitas árvores exóticas pode cumprir funções estéticas e de redução do fenômeno das ilhas de calor, por exemplo, mas não são relevantes para a saúde do bioma da região, uma vez que, além de não cumprirem vários serviços ecossistêmicos, podem se tornar invasoras, como ocorre com as leucenas no arquipélago de Fernando de Noronha. Neste caso, especificamente, a intenção inicial não era estética, mas como fonte de alimentação para os animais da região. No entanto, a planta se espalhou por áreas não previstas e, por se tratar de ilhas oceânicas, o impacto é ainda maior e de proporções altamente destrutivas para a flora nativa.

A leucena está presente em 60% das áreas com vegetação de Fernando de Noronha. / Fonte: Thayná Mello/BBC Brasil

É importante, também, a preocupação com o sub-bosque das florestas, que é abrigo e fonte de alimentação de boa parte dos animais do ambiente. Uma área recuperada ou restaurada deve ter, via de regra, plantas lenhosas abaixo do dossel e outras herbáceas mais abaixo, configurando os estratos da vegetação. Essa diferenciação altimétrica, junto com florações e frutificações diversas, permite que o ambiente abrigue maior riqueza de espécies e a ocorrência dos processos ecológicos necessários para sua manutenção. Essas características são mais aplicadas a fitofisionomias florestais, mas é possível adaptar para as savanas e campos.

Especialmente nos últimos anos, em que os temas ambientais ganharam grande destaque na agenda política, é importante a população ter noções básicas desse assunto para embasar suas opiniões e escolhas e serem menos reféns de especialistas enviesados. Quando tiverem contato com notícias ou, principalmente, com a área revitalizada propriamente dita, algumas considerações podem ser feitas como primeira impressão e o julgamento consciente contribui para o poder de fiscalização de todos.

 

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