EducaçãoMeio Ambiente

Decolonizar o olhar: a saída para proteção dos povos nativos

Imagine se a história que aprendemos na escola fosse contada do ponto de vista dos povos que aqui moravam antes da colonização. Quão diferentes seriam nossas percepções sobre os indígenas? Será que daríamos mais relevância para suas vidas?

Não sei responder a essas perguntas porque esta não é a realidade brasileira, já que, desde pequenos aprendemos que “índios” são aqueles seres atrasados na civilização, preguiçosos, que aprenderam a ser “humanos” com os europeus colonizadores. Aprendemos que eles foram catequizados e a partir daí ganharam “alma”. Aprendemos que eles permitiram a entrada dos colonizadores trocando os bens naturais por objetos simples, como espelhos ou pentes. Aprendemos que eles não foram bons o suficiente para o trabalho e, portanto, os europeus “precisaram” buscar negros no continente africano para escravizar.

Chocalho indígena. / Imagem: Creative Commons.

A construção da imagem desumanizada dos povos indígenas tem um objetivo: a facilitação de sua aniquilação. Quando os primeiros colonizadores chegaram, havia milhões de indígenas aqui. Hoje, temos algumas centenas de milhares e este número vem caindo por causa de uma política de destruição (em vez de proteção) do meio ambiente nacional.

Doenças, invasão de terras, evangelização/catequização, agronegócio. Todos esses males (ainda) contribuem para a difícil luta pela sobrevivência dos vários povos. Em 1988, o Brasil deu início à construção de um projeto de proteção às terras indígenas com o artigo 231 da Constituição Federal que foi regulamentado pelo Decreto n.º1775/96. Essa é a base normativa que serve de guia para a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) decidir sobre a proteção às terras que são tão fundamentais para a sobrevivência dos mais diversos povos.

Imagem: Creative Commons.

A consciência sobre a responsabilidade estatal de proteção aos indígenas veio tardiamente no Brasil. Apenas em 1910 foi criado um órgão que retirou das mãos da Igreja o papel assistencialista de cuidado aos indígenas. Em 1967 foi criada a FUNAI e apenas em 1988 a compreensão passou a ser desatrelada à ideia de assistencialismo para a ideia de proteção e certa independência dos povos.

Até que chegou 2019 e um novo governo que acredita que o tamanho das terras indígenas é “abusivo”, portanto, o trabalho da FUNAI tem sido dificultado e a destruição das florestas tem avançado. A Amazônia perdeu em média 2.110 hectares de floresta por dia em 2019, segundo Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas. A destruição da Amazônia está intrinsecamente ligada à destruição de terras indígenas, ao avanço de pessoas não-indígenas em áreas preservadas, ao avanço de doenças junto a elas e, consequentemente, à morte de brasileiros indígenas.

É preciso afirmar e reafirmar a humanidade dos brasileiros indígenas. Enquanto olharmos para este grupo como “outros”, não conseguiremos estabelecer empatia e continuará sendo fácil aceitar sua destruição. A ideia de que brasileiros e brasileiras estão sendo mortos para que a exploração econômica de terras seja possível talvez doa mais do que a ideia de que indígenas estão morrendo para que essa exploração aconteça.

Imagem: Creative Commons.

A minha provocação é: como você reagiria se a manchete fosse “Prédios em Copacabana estão sendo derrubados com pessoas dentro para que usinas sejam construídas” em vez de: “Número de mortes de lideranças indígenas em 2019 é o maior em pelo menos 11 anos, diz Pastoral da Terra (por G1, 10/12/2019)”?

Qual das duas manchetes dói mais em você? Qual você deixa passar na leitura diária das notícias? Apenas uma delas é real. Decolonizar a nossa visão de mundo é urgente para salvar o meio ambiente e nossos irmãos nativos deste projeto de destruição.

 

 

Tags:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *