ConsumoMeio AmbienteSaúde

Mercado da Cura e do Bem-Estar: a nova tendência da indústria

Paz interior é o novo sucesso. Ser saudável, comer bem, buscar terapias alternativas e medicinas naturais nunca esteve tão em alta. Cuidar é o novo cool. Mas será que estamos nos conectando com a cura do todo ou apenas criando estratégias de distração enquanto repetimos os mesmos padrões?

O questionamento pode parecer vago, ainda mais porque desde sempre existem ressalvas diante de todo tipo de crença, especialmente espirituais, ritualísticas e religiosas. Esses conflitos moldaram a história de como chegamos até o século XXI. Hoje são muitas outras razões que alienam ou convencem as pessoas a adotar certos tipos de práticas e comportamentos.

Vivemos afogados em uma enxurrada de informações. É a era das redes sociais e do mercado de influência. Aqui todo mundo é especialista em alguma coisa e vive uma eterna busca pela positividade, pela veneração da saúde e do corpo ideal, por uma vida equilibrada com relacionamentos sem defeitos.

Imagem: Creative Commons.

A espiritualidade da nova era exige uma perfeição que não oferece troca ou acolhimento, mas apresenta soluções incríveis e para alcançá-las é “só arrastar a tela para cima”. Em um deslizar de dedo você pode acessar toda uma filosofia de autoajuda que conecta energias sutis, que cura traumas através de óleos essenciais puros e cristais mágicos.

Dos mesmos criadores do greenwashing, nasce o mercado da cura.

O ego social trouxe uma positividade tóxica não só para as pessoas, mas também para o planeta. Os mesmos padrões de consumo seguem se repetindo a cada nova moda. No lento processo de conscientização diante da emergência climática que vivemos, de certa forma o consumidor acabou ficando mais exigente. Passou a ter algumas preocupações ao adquirir produtos ou serviços, levando em consideração o impacto que pode ter (principalmente) em si mesmo, mas também no todo. O mercado, no entanto, não perde oportunidade de se apropriar e participar de todos os discursos, buscando aquilo que é mais vantajoso para o mundo moderno, para as empresas e instituições: vender mais.

Tudo em excesso faz mal, inclusive extrair cristais do solo do planeta para se energizar e produzir monoculturas para destilação de óleos essenciais. Produtos que prometem bem-estar e beleza celestial, mas contém ingredientes tóxicos que contaminam nossas águas. Dietas que preservam os animais, mas vem embaladas em plástico ou embebidas em agrotóxicos.

Existe uma indústria que fatura bilhões de dólares anualmente promovendo cura e bem-estar em níveis físicos, emocionais e energéticos. A história se repete e o discurso continua centrado no ego da humanidade em mais uma das facetas do capitalismo destrutivo.

A série “A Indústria da Cura”, lançada em agosto pela Netflix, tem seis episódios que analisam tratamentos alternativos que se transformaram em tendência nos últimos tempos. Alguns inclusive são muito antigos, ancestrais, utilizados há anos por determinadas culturas. A série apresenta a versão da ciência e de pesquisadores, que alertam sobre os perigos e riscos do uso das terapias alternativas, a experiência de pessoas que utilizaram os métodos de cura apresentados e outros que se beneficiaram de maneira direta ou indireta dessas utilizações.

Imagem de divulgação da série “A Indústria da Cura”. / Fonte: Reprodução Netflix.

O que ninguém conta é a versão do planeta e dos recursos naturais necessários para sustentar mais este modismo. O primeiro episódio da série, por exemplo, traz a questão dos óleos essenciais. O aumento da demanda gera aumento da produção e esse é um assunto que não é abordado na série, nem no discurso das empresas e muito menos dos influenciadores que promovem sua utilização.

Os óleos essenciais são considerados a parte mais poderosa das plantas – o mecanismo de defesa ou de atração para polinizadores. As grandes indústrias da destilação cultivam ervas medicinais em enormes escalas de monocultura. Para se ter uma ideia, são necessárias de 1 a 3  toneladas de rosas para 1 litro de óleo essencial. Para aumentar a produtividade (e o lucro) existem diversas técnicas como, por exemplo, gerar distúrbios nas plantas para que, ao se sentirem ameaçadas, acionem seu sistema de defesa e produzam mais óleos essenciais nesse processo. Como pode algo que vem do incômodo do vegetal, que visa o lucro, que prejudica e explora o solo, ser ferramenta de cura?

Atração de abelhas pelos óleos essenciais./ Imagem: Camila Grinsztejn/Autossustentável.

Não são só as pessoas que influenciam e facilitam os ideais da perfeição e da cura os únicos responsáveis por essa alienação e pela falta de consciência do processo como um todo, mas também seus seguidores e admiradores que espalham experiências individuais como verdades absolutas.

Mas o fato é que pouca gente sabe como e porque essas gotinhas são tão especiais. Menos gente ainda conecta essas nuances de cura com a própria terra. Quando tratamos bem a natureza e deixamos que ela expresse toda sua potência e biodiversidade, podemos partilhar da sua medicina. Não é por acaso que as plantas medicinais mais comuns são também grandes enfermeiras para o solo e aparecem de forma espontânea contribuindo para a regeneração de áreas degradadas.

Processo da destilação para obtenção de óleos essenciais. / Imagem: Camila Grinsztejn/Autossustentável.

O processo da destilação para obtenção dos óleos essenciais é ancestral. Sob um ponto de vista mais sutil, as gotas dessa medicina carregam toda a energia da planta, a forma como foi cultivada, colhida e tratada. No líquido ainda estão as informações que corriam na seiva daquele vegetal. Mas o ego social foca apenas nos benefícios para si próprio, no consumo desenfreado de tudo o que pode lhe fazer melhor independente das consequências que isso traga para o todo.

A disseminação dessas novas modalidades de cura, seja através de plantas medicinais, cristais mágicos ou energias, faz com que, de alguma forma, as pessoas deixem de perceber problemas sociais da vida prática, gozando da good vibes enquanto tudo pega fogo ao redor, literalmente. Não associamos a realidade que vivemos aos nossos hábitos, ao nosso alimento, à nossa medicina, às nossas práticas e costumes mais corriqueiros.

Foto: Marco Terranova.

Espiritualidade para quem? Esse problemática não é sobre desacreditar das experiências e da fé de cada indivíduo, mas sim sobre não silenciar os debates climáticos, coletivos e urgentes só para não furar a bolha da paz interior. Mas o fato é que a aceleração destes hábitos insustentáveis nessa altura do campeonato é a nossa espécie fazendo check out do paraíso planeta Terra. O que por um lado pode ser bom, pois a nossa diária é caríssima e acaba prejudicando todos os outros hóspedes.

 

 

Tags:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *