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“Os seres humanos são estúpidos demais para evitar a mudança climática.”

As palavras de James Lovelock em sua entrevista para o The Guardian, em 2010, parecem cada dia mais fazer sentido. A manutenção de um modelo civilizatório predatório, competitivo e excludente, que trata as pessoas como recursos, e os recursos como infinitos, tem causado danos aos sistemas naturais e sociais que se tornam gradualmente irreversíveis. Os bônus desse modelo são para poucos, enquanto os ônus são compartilhados com todas as formas de vida do planeta.

A COVID-19 é também uma das inúmeras consequências das formas como nos relacionamos com o ambiente. Uma das características de um evento pandêmico é a velocidade com que sentimos suas consequências e a rapidez com que nos mobilizamos para enfrentá-lo, diferindo de outros problemas socioambientais, como, por exemplo, a mudança climática, apesar de já estar sendo chamada a tempos de emergência climática.

A mudança climática possui a característica de mostrar seus efeitos de forma lenta, gradual e que, por sua complexidade, dificulta análises mais apuradas de causa e consequência, em especial, em escala local. Dessa forma, ela se configura como um dos maiores desafios já enfrentados pela humanidade, e coloca em cheque um mundo de expressão neoliberal baseado nos combustíveis fósseis e no consumismo.

Grafite em uma parede próxima ao Canal Regent, em Camden, em Londres, em 22 de dezembro de 2009. A mídia britânica atribuiu o novo trabalho ao aclamado artista de rua britânico Banksy. REUTERS / Luke MacGregor

Em resumo, apesar das evidências e de que 97% dos cientistas climáticos concordarem que o clima está mudando graças às atividades humanas, a maior parte da população mundial está à margem desse debate, cética quanto às suas conclusões e, ao mesmo tempo, sofrendo suas consequências.

Segundo o NY Times, somente no primeiro semestre de 2019, mais de 7 milhões de pessoas perderam suas moradias por conta de eventos climáticos extremos. Vale lembrar que esse e outros impactos são vividos, em geral, por comunidades mais vulneráveis e acontecem, via de regra, distantes do conforto e segurança de onde vivem a maior parte dos políticos e outros tomadores de decisão.

Imagem: Creative Commons

As mudanças climáticas não podem ser encaradas como um tema ambiental, mas, sim, social. Reverter esse quadro complexo exige uma série de esforços combinados desde a esfera privada, via mudanças de comportamentos, até amplas políticas públicas de descarbonização. A eleição de Biden joga uma nova luz nessas questões, pois quebra a dominância de um olhar calcado no crescimento econômico, e no desprezo à ciência e à busca de novos modelos civilizatórios. Tal visão parece cada vez mais em moda no Brasil.

Sendo um desafio social, informação de qualidade e participação são fundamentais na busca por soluções. Nessa direção, a educação, e mais especificamente a Educação Climática, parece também emergencial nas escolas, uma vez que visa informar e motivar as pessoas a se tornarem cidadãos ativos no enfrentamento das mudanças climáticas (Stevenson, Nicholls, Whitehouse, 2017).

Parte central dos processos envolvendo Educação Climática é a aproximação do tema da Mudança Climática dos currículos do ensino básico e, consequentemente, da vida das comunidades. Apesar disso, em toda a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) o tema é mencionado somente três vezes de forma genérica e nada propositiva.

Existem diferentes caminhos possíveis para a implementação de uma Educação Climática. O trabalho com competências climáticas se mostra um dos mais promissores no momento atual.As competências climáticas guiam a criação de diferentes estratégias de ensino que visam desenvolver a compreensão, a consciência e as habilidades necessárias para o enfrentamento local e global das mudanças climáticas (Fuertes et al., 2020). Dessa forma, estabelecer o diálogo entre competências climáticas e o currículo exige uma abordagem não somente temática, mas que leve em consideração a centralidade de diferentes conceitos, atitudes, valores e habilidades a serem trabalhados.

Imagem: Creative Commons

Do ponto de vista estrutural, ou seja, pensando no currículo como possuindo uma lógica horizontal (que estimula a interdisciplinaridade) e uma vertical (visando progressão lógica e complexa), pode-se considerar quatro pontos fundamentais a serem considerados:

  • Informação: valorizando o papel da Ciência, dos cientistas, e das formas de construção desse conhecimento baseado em investigação e busca por evidências.
  • Adaptação: compreensão dos impactos, vulnerabilidades e a importância das ações locais e globais baseadas nos mecanismos de redução de risco de desastres e preservação da vida.
  • Mitigação: busca por novos modelos civilizatórios que reduzam a dependência dos combustíveis fósseis e estabelecimentos de novos propósitos de vida.
  • Comunicação: divulgar práticas inovadoras, ampliando o círculo de corresponsabilização na busca de soluções para as mudanças climáticas.

A informação depende da identificação de conceitos centrais na compreensão das dinâmicas associadas às mudanças climáticas, permitindo a construção de narrativas que estabeleçam conexões complexas e críticas entre causas e efeitos. Mecanismos de adaptação devem trazer o contexto, ou seja, o olhar para o território e as possíveis conexões com as mudanças climáticas, fomentando a criatividade na busca por soluções.

Mecanismos de mitigação, por sua vez, ampliam o olhar para a história e as escolhas da espécie humana de forma a compreendê-la melhor na busca por caminhos para a redução da emissão de GEEs. Por fim, a comunicação deve garantir escala e acesso às boas informações e ideias, inspirando o enfrentamento das mudanças climáticas. Todos os quatro pontos dialogam, estão conectados, e contribuem para a alfabetização climática dos estudantes e professores.A busca por mecanismos de adaptação e mitigação, em especial, possui grande potencial educacional, pois estimula a investigação, a pesquisa, a cultura maker e o uso de metodologias ativas de aprendizagem. Por meio da análise integrada da escola e do território, estimula-se a identificação de possíveis vulnerabilidades que precisam ser trabalhadas, a fim de buscar soluções para reduzir os riscos e impactos das mudanças climáticas e garantir, por exemplo, que a escola e outros serviços fundamentais continuem funcionando mesmo frente a um evento extremo, tornando a comunidade mais resiliente.

Imagem: Edson Grandisoli

Dessa forma, a Educação Climática pode transformar a escola em um polo de criatividade, enfrentamento das mudanças climáticas e construção de novos conhecimentos, garantindo um novo significado ao conceito de aprendizagem e influenciando as esferas pessoal, comunitária e política no estabelecimento de novos valores mais coletivos e solidários.

Para que essa revolução aconteça é preciso reconhecer a urgência das questões ligadas ao clima e ter coragem para agir. Um dos caminhos para isso é engajar sua comunidade em eventos pontuais como a Marcha pelo Clima, ou mais continuados como o Movimento Escolas pelo Clima.

Imagem: Creative Commons

Se todos reconhecemos a urgência e gravidade do problema, o que estamos esperando para agir?

Referências

Fuertes, M. A. et. al. Climate Change Education: A proposal of a Category-Based Tool for Curriculum Analysis to Achieve the Climate Competence. Education in the Knowledge Society 21, article 08, 2020. https://doi.org/10.14201/eks.21516

Stevenson, R. B.; Nicholls, J.; Whitehouse, H. What Is Climate Change Education? Curric. Perspect., 2017. https://doi.org/10.1007/s41297-017-0015-9

 

 

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