Saúde

Comunidades Digitais: conectando pessoas e ideais através da biodiversidade digital

O tema das relações digitais efêmeras e da produção desenfreada de conteúdo não é algo surpreendentemente novo. Parece que de alguma forma normalizamos o contato e o consumo dessa nova vida digital. Para muita gente, aqueles que conseguiram se adaptar e prosperar neste cenário (de preferência mantendo a saúde mental), esse movimento também é sinônimo de lucro.

A pandemia, as incertezas, as transformações e a crise intensificaram ainda mais esse universo. Fizeram com que muita gente precisasse se reinventar, tanto na forma de oferecer conteúdo, serviços e produtos, quanto na forma de consumir.

Imagem: Freepik

Mesmo diante de limitações (e talvez justamente por causa delas), abriu-se espaço para oportunidades. Já dizia Bill Molisson, o pai da permacultura: “o problema é a solução”. Cada adversidade se torna placenta para soluções criativas e inovadoras. As estratégias de oferta, a comunicação e o relacionamento com os clientes precisaram ser repensadas.

O online virou a palavra-chave desse novo normal. Um grande desafio para quem já tinha seu negócio estabelecido, mas um momento oportuno para quem estava precisando se reinventar, se profissionalizar, mudar de área ou estudar sobre algum tema específico. A hora de tirar aquele hobby da gaveta, se encantar com alguma novidade e distrair a mente para não surtar.

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Segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), em 2020 durante a quarentena o uso da internet no Brasil cresceu entre 40% e 50%. Os dados também mostram que o impacto do isolamento contribuiu para que 46% dos brasileiros fizessem mais compras online. No setor educacional, os números são ainda maiores. As buscas por cursos online cresceram 73% de acordo com dados do Google.

Profissionais das mais diversas áreas aproveitaram a reclusão e a introspecção em meio à crise global para colocar no mundo seus projetos de ensino a distância. Aos poucos foram surgindo os mais diversos tipos de cursos. Quem surfou a primeira onda deve ter feito tantos zeros de lucro que, sem dúvida, aguçou o mercado. Plataformas se aprimoraram e deram início a uma grande corrida audiovisual com múltiplos formatos de produção, das mais caseiras às mais robustas.

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Nesse momento ganharam espaço aqueles cursos que te ensinam a vender seu próprio negócio, seja ele sobre cursos, serviços, conteúdos ou outros, sendo infoproduto ou não. Esses gurus da web dizem saber os segredos de como driblar o algoritmo, detém a resposta definitiva para o sucesso virtual. Com o passar dos meses, essas estratégias foram ficando cada vez mais óbvias e populares.

É só rolar o feed e observar. Praticamente todo mundo faz mais ou menos do mesmo jeitinho, com as mesmas palavras chaves, a mesma linguagem, as mesmas dancinhas, ritmos e jargões. É sobre isso, mas está mesmo tudo bem?

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Esse novo modelo do marketing-digital-versão-pandêmica e todos os seus gurus representam a monocultura da nossa mente. Representam a forma engessada de como estamos consumindo e produzindo conteúdo na internet e fora dela.

Passamos a entender nossos consumidores e clientes como números, suas vidas foram catalogadas em interesses e perfis de navegação. Seus desejos se tornam gatilhos para que sintam necessidade daquilo que oferecemos, vibrando a máxima da escassez. Afinal de contas, se você não comprar agora vai perder benefícios super exclusivos.

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É o padrão de beleza e a harmonização que se repete da mesma forma. A criatividade vem sendo tratada como commodity e, o pior, é que muitas vezes nos convencem em menos de 15 segundos a clicar no link e mudar de vida.

Se olharmos para a natureza, podemos perceber que essa padronização não faz sentido. A primeira coisa que salta aos olhos em uma floresta é a biodiversidade. Cada ser é único e especial e carrega consigo uma forma igualmente única e especial de perceber o mundo, de interagir e comunicar com tudo ao seu redor. Se massificamos a oferta, massificamos a procura. Repetimos os padrões que nos colocaram neste colapso climático e não estamos mudando o paradigma para garantir o bem-estar coletivo.

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Aliás, de coletivo esse movimento não tem nada. Geralmente essas estratégias de vendas digitais são centradas em um especialista que se torna inalcançável, desejado e hiper-valorizado. O objetivo muitas vezes está voltado para a quantidade e não para a qualidade, para a escassez ao invés da abundância.

Precisamos perceber que, assim como na natureza, o que gera mais lucro é justamente a abundância. Um sistema abundante é próspero, biodiverso e coletivo por conta das trocas e relações entre seus membros. Estamos esquecendo que a grande solução sempre esteve na natureza e se chama: comunidade. É uma união de seres com intenção, organização e troca. Valorizando a bagagem e as individualidades presentes no todo, aprendendo a somar as diferenças e multiplicar as conquistas, dividindo as missões.

Aprendi com o trabalho da Izadora Barros (www.instagram.com/izadorabarros) que as comunidades estão em tudo – da onde viemos, como sobrevivemos, o que buscamos, para onde vamos. Segundo ela, a comunidade é um espaço acolhedor, físico ou digital, em que uma pessoa lidera outras pessoas com um propósito em comum, com a intenção de criar um espaço seguro, de conexão, capacitação e evolução contínua em coletivo por meio da cooperação.

Isso porque, sim, somos animais sociáveis e co-dependentes que, mesmo estando em comunidade o tempo todo, criamos um sistema que muitas vezes reforça submissão, desconfiança, a não participação, a escassez e competição.

É preciso buscar uma conexão maior e de mais qualidade com nosso público. Embora as redes sociais sejam boas ferramentas, ainda existem muitas barreiras para a construção de relacionamento e confiança. As redes sociais são apenas um instrumento, não são a estratégia e não são perfeitas. O próprio termo social, das mídias sociais, tem sido deixado de lado. Estamos socializando ou apenas tentando vender?

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As comunidades são a resposta para estimular a biodiversidade digital e para driblar tanto os problemas online de falta de engajamento, baixo alcance, publicidade super cara, poucas vendas e etc, mas também para os problemas do mundo material e os percalços socioambientais que enfrentamos como sociedade planetária. As comunidades trazem justamente o elo que nos tem feito falta ultimamente: sensação de pertencimento e colaboração.

 

 

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GRINSZTEJN, Camila. Comunidades Digitais: conectando pessoas e ideais através da biodiversidade digital. Autossustentável. Disponível em: https://autossustentavel.com/2021/11/comunidades-digitais-conectando-pessoas-e-ideais-atraves-da-biodiversidade-digital.html.

 

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