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Quando a alimentação é ego e quando é eco?

Mudar hábitos alimentares tem sido pauta atual e constante na vida de muitos de nós. Todos nós estamos em algum processo de transformação de hábitos em algum setor da vida.

Quando resolvi mudar minha alimentação, para uma alimentação vegana, o motivador inicial girava em torno da manutenção de minha saúde. Buscava, não por uma dieta, mas por uma rotina alimentar mais saudável e mais leve, que concedesse também, tranquilidade ao meu estado emocional.

Obtive os resultados que eu esperava no aspecto físico e emocional, na gestão de minha saúde, com acompanhamento médico correto, mas, conforme eu mergulhava no mundo de uma alimentação vegana, outras percepções foram nascendo e foram dando seus frutos: Posso dizer com segurança, que a dinâmica diária de manter um cardápio vegano foi e ainda é, uma grande escola de ajuste e autoconhecimento, que transfere a energia de um cuidado e agrado puramente egoico ao corpo e ao paladar, para o lado mais eco e de respeito à todo ser e ao meio.

Delícias veganas da cozinha do Veganices da Val. Imagem: Valéria Amores

Dentro desse processo mais eco os limites do corpo são ultrapassados e os motivadores mudam porque entendemos que nossas escolhas geram impactos e que dentre os tipos de escolhas, as alimentares geram impactos profundos, podendo ser eles positivos ou negativos. Nada escapa a essa relação na teia da vida.

O ego alimentar e o eco alimentar – Uma percepção valiosa!

Quando consumimos apenas para “matar” a fome e satisfazer nosso paladar, sem perceber o entorno, a história de cada alimento, os processos envolvidos, a forma de aquisição desse alimento, estamos então, nos movendo pelo nosso ego alimentar. Esse estado faminto que apresentamos diante dos recursos naturais, começa lá, em nossos pensamentos e foi aprendido pela cultura a qual estamos submetidos. É comum a ideia de que somos aqueles controladores de toda uma cadeia de consumo. Em parte, até somos, porque quando não há consumidores, não há fornecedores.

Noutra parte não funciona bem assim: Aquele esquema que ensina que estamos acima de todos os demais seres de Terra é falho e até excludente. Basta relembrar a imagem por si só. Estar nos extremos não é fazer parte, não é mesmo? E sobre a ideia de controle, vale pensar se realmente controlamos o que está além de nós.

Um estado faminto de ser, vem de fome e o significado de fome, em muitos dicionários, não é positivo como pensamos! Fome está sempre associada a escassez, roubo, tomada, posse, devastação. Se nossa presença no planeta se resume a esse movimento, os resultados que nos chegam apresentam a mesma qualidade e densidade, porque não há uma ação que não dê seus frutos.

Ao observar a fotografia atual de nossos recursos naturais, a distribuição destes recursos, o desequilíbrio entre abundância e escassez, a presença da miséria, o aumento dos níveis de extinção, devastação, poluição, desastres naturais, doenças e falta de empatia, fica evidente que estamos mais famintos do que nunca. O ego alimentar inclui excesso de consumo e o consumo de alimentos de fontes, que de alguma forma, desrespeitam os ciclos naturais e bonitos da vida.

Imagem: Creative Commons

O eco alimentar vem nos trazer um outro lado! Eco tem relação com alimentar e o significado de alimentar envolve cooperação, colaboração, sustentar, criar, cuidar. A dinâmica da proposta é outra e por si só traz outra energia.

No eco alimentar, as escolhas consideram os impactos. Há o cuidador consciente que abdica de ser o consumidor consciente, existe apreço pela história daquele alimento, por manter a dinâmica orgânica da vida, dos ciclos. É validada a importância de cada ser senciente, como um ser que compõe o planeta, não para fins de exploração. Se fomenta a simplicidade criativa e o bom uso do que se tem e da melhor forma, sem desperdício.

Imagem: Creative Commons

Vivendo a rotina eco alimentar

Tal rotina traz o resgate do artesanal, do fazer, do elaborar, que favorece o autoconhecimento, a empatia, a presença mais concentrada e cuidadora no mundo. Ponto fundamental para uma vida sustentável. Vale a pena reparar o movimento diário de consumo alimentar, sem medo e sem culpa e com boas doses de experiências, de vivências. Vale transformar a rotina. Para isso, permita-se ir a eventos com a proposta vegana ou ao menos vegetariana, sente-se desapegado de juízos e conceitos em uma palestra, ouça, pergunte, veja documentários, teste receitas (você vai se surpreender com os sabores). É o passo de coragem que gera a ajuda.

Delícias veganas da cozinha do Veganices da Val. Imagem: Valéria Amores

Harmonizando para ser genuíno

Algo a se observar e exercitar todos os dias, é a empatia com a escolha do outro. Já foi dito anteriormente que nascemos sob o toldo de uma cultura, de hábitos estabelecidos e criamos pensamentos e percepções que levamos conosco e repassamos. Todos, portanto estão aprendendo. Eu, inclusive (risos!). Leva tempo para que mudanças se instalem. Cada um tem o seu tempo e medida. É preciso respeitar.

Se saímos de uma posição de controle dos recursos, para uma posição de controle de pessoas, estamos no mesmo ego que antes. O que muda é apenas o conteúdo do prato e mudando-se apenas o conteúdo do prato e não a consciência, na verdade, não se muda nada. É a mesma energia faminta que guia e devasta.

Imagem: Creative Commons

Tenho aprendido dia a dia que cativar, gera mais resultados que o assustar e o impor uma ideia. Nos tornamos eco, quando nossa natureza interna também tem suas flores a oferecer e aí sim estaremos agregando valor a causas.

 

 

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