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Como transformar sua cozinha em uma cozinha sustentável?

Mudar faz uma bagunça interessante. Ainda mais quando você decide colocar as ideias sustentáveis em prática.

Antes da mudança, foram alguns meses de “organização interna”. Primeiro, é preciso entender a dinâmica e a qualidade de nossa ecologia interna no momento (porque ela muda e é absolutamente normal) e captar ali, recursos, matéria prima, mesmo quando detectado algum tipo de caos. A reciclagem começa em nós.

Somente quando percebemos como está a arrumação interna e a gama de habilidades que temos para nos reorganizar, é que somos capazes de transformar o lado de fora, estabelecer meios, prioridades e fincar propósitos. Não é mais segredo para ninguém, que tudo começa e termina dentro de nós, por isso essa parte organizacional não tangível é importante.

Hora da Mudança. Imagem: Creative Commons

O que eu então buscava como ápice na mudança? Uma cozinha mais eco, mais simples, bem criativa e funcional. Essa ação que propus na “cozinha nova” visa minimizar gastos, criar pouquíssimo lixo e usar muito bem o que já se tem, organizando tudo de maneira interessante e sem dificuldades.

A cozinha como local de transformação, nada mais é que a extensão do local de pré-preparo que está em nós, ali, na mente e no coração e não na bancada de mármore ou inox. A experiência de planejar a partir do eu e não das coisas, sempre é profunda e bem significativa. 

Evitando o “movimento de entulhar”, usando o foco criativo

Quase sempre vemos as sugestões de reuso, reciclagem nas redes e revistas, também ouvimos as sugestões nas rodas de conversas e criamos um movimento que divertidamente gosto de chamar de “entulhada”. Vamos catando tudo, absolutamente tudo, porque mil ideias fervem na mente sobre o uso “daquele tudo” que encontramos pelo caminho. Muitas vezes, usamos aquilo que adquirimos, mas, na maioria das vezes, ficamos entulhando coisas.

Para evitar esse acúmulo, desmontei os armários da cozinha antiga e peguei cada item, listando tudo em quantidades e colocando ao lado um possível uso para aquilo. Se eu não via uso em um primeiro momento, colocava uma marcação e me dava um prazo de 24 horas para pensar. Do contrário, seria doado. Para doação também criei critérios: Pessoas, locais, grupos que sei que de fato usariam.

Me surpreendi com a quantidade de vidros, potinhos e travessas relíquias que ficamos guardando para “ocasiões especiais”. A regra implantada e que virou mantra para essa arrumação era: especial será todo dia e você vai usar sim a travessa do casamento da mãe e a taça que era da avó.

Imagem: Creative Commons

Claro, que foi um pouco estressante me “forçar” a decidir com rapidez sobre o que estava diante de mim e de minha família. No entanto, foi libertador. Quanta coisa se guarda! O que acumulamos é retrato das “prateleiras mentais” e eu sempre pensava em leveza, simplicidade e fluidez.

No novo apartamento tudo é útil e funcional. Potes de vidro? Guardo meus grãos. Pedi alguns aos amigos nos últimos dias porque era a única coisa que tinha pouco e eu realmente precisava. A ideia com os potes é educar o consumo. Sou vegana e consumo vários grãos diariamente, tendo eles visualmente nos potes, sei realmente qual preciso comprar. Antes, dessa forma de organização, era comum comprar vários pacotes de um mesmo grão, porque visualmente não era fácil saber o que tinha no armário. Agora, só reabasteço quando o pote chega na metade.

Imagem: Creative Commons

Os potinhos de fermento? Reutilizo para guardar de granulado a ervas para chás. Aquelas embalagens de bolo, plásticas, que alguém trouxe?  Uso para colocar meus bolos veganos e até transportá-los quando preciso e pego de volta para evitar que alguém jogue no lixo. Colheres um pouco quebradas? Temos cantoneiras e elas viraram pás que ajudam a cultivar a terra. Excelentes ferramentas! Garrafas de azeite? Vasos. Garrafas de vidro coloridas? Coloco água filtrada e deixo no sol. Depois bebo. Água com raio de sol e com a energia da cor faz bem. Algumas garrafas menores? Sigo fazendo porta velinhas. Pratinhos solitários de sobremesa? Ando criando porta incenso, colocando vaso de violeta em cima.

Imagem: Creative Commons

Tenho amado olhar para tudo e ver potencial. É como um ensaio para ver o mundo com novos olhos. A rotina vira uma sucessão de descobertas. Só é descartado, se realmente não tiver jeito e ainda assim, feito da forma mais correta que pudermos fazer. O prédio é bem envolvido nisso.

Senti que se trata de um exercício que devemos fazer uma vez ao ano, pelo menos! Aquela ideia de comprar pela moda ou ímpeto devido ao preço baixo, se dissolve. Sabemos que o preço do excesso nunca é baixo para o planeta. Preferir a simplicidade é simplificar a própria existência em outros setores da vida.

A cozinha é um espaço interessante para realizar a proposta. Podemos sair da ideia de que apenas o guarda roupa contém esse “efeito mágico”. Promovo em casa, o uso integral dos alimentos, para que de fato a simplicidade tenha também sabor. Hoje, por exemplo, foi dia de leite de semente de melão com resíduo usado no pãozinho de frigideira, chutney da casca e polpa cortada em cubos para degustação.

Chegamos a um limite em que precisamos nos perguntar se realmente os espaços de nossas casas são acolhedores e criam impactos positivos no entorno. Desapegar e recriar usos gera um movimento de engajamento real. Viver com menos, definitivamente nos permite ser mais. Ganhamos até mais tempo porque gerimos melhor.

A dica é: Corre lá para sua cozinha e divirta-se com as possibilidades de não guardar mais nada para amanhã e fazer todo bem ao planeta, começando hoje mesmo!

 

 

 

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