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Uma Vida Sustentável Através do Sentir

Foto: Helena Cooper

Esse não é um texto para te dar o passo a passo de como levar uma vida mais sustentável. É para ativar sensações que te despertem para uma conexão mais profunda em todos os momentos da vida.

Talvez um dos grandes erros da humanidade tenha sido enxergar a si própria como algo externo e, muitas vezes, superior a todas as demais espécies que habitam a Terra. Provavelmente veio daí a nossa desconexão, pois somos frutos de um sistema que promove o des-envolvimento, de não se envolver mesmo, de se ver de fora. Mas, aos poucos, com o despertar, vamos nos surpreendendo com tantas sincronias e similaridades entre nós e o mundo natural. Parece coincidência, mas não é.

Foto: Camila Grinsztejn.

Tudo o que somos e todas as nossas escolhas fazem parte de um único macroorganismo. O que acontece fora apresenta padrões que se repetem em nós. É clichê, mas é a mais pura verdade: nós somos a própria natureza.

Reconectar vai muito além de proteger e passar mais tempo na floresta. Sem descartar a importância da companhia do mundo natural na nossa vida nem os estudos que comprovam o quanto isso é positivo para o nosso bem estar e o do planeta, o que realmente está em pauta aqui é como essa natureza se manifesta dentro de nós e como sentimos essa ligação no nosso dia a dia.

Quando nos perguntamos como levar uma vida mais sustentável precisamos ter em mente que a mudança vem de atitudes muito singelas, que começa no sentir. Sentir que as coisas não estão como deveriam estar, sentir-se perdido sobre como agir e sobre o que fazer. Essa inquietude é uma das chaves para abrir as portas da reconexão.

Foto: Camila Grinsztejn.

A palavra sustentabilidade tomou proporções que extrapolam seu significado e, algumas vezes, não fazem jus à sua importância. Sua semântica foi há tempos usurpada pelo mercado verde, por tudo aquilo que parece, mas nem sempre é. Precisamos fazer uma releitura desse termo e a regeneração se apresenta como uma alternativa à altura da sustentabilidade.

Regenerar é revisitar as relações, compreender a conexão entre as partes para que seja possível perceber o todo com mais clareza. Se relacionar traz à tona sentimentos, está ligado diretamente ao campo emocional e, por isso, diz o ditado: quem ama cuida. Uma relação afetiva com o mundo natural faz com que as pessoas passem a cuidar, respeitar e perceber as necessidades de mudanças no paradigma sob o qual nossa sociedade e os nossos hábitos foram consolidados.

Seguindo o fluxo energético da vida no planeta, que vai do simples para o complexo, começamos, então, a fazer aquilo que está ao nosso alcance e, aos poucos, vamos complexificando as transformações e adotando atitudes que favorecem cada vez mais a vida e a manutenção dos recursos. É preciso uma dose extra de autocuidado nesse início para evitar frustrações.

Foto: Camila Grinsztejn.

A regeneração traz a responsabilidade para a humanidade de participar daquilo que sustenta a vida, por exemplo: se não estamos em uma situação de vulnerabilidade, todos os dias realizamos pelo menos uma refeição. O que nutre aquilo que nos nutre? Para alimentar a regeneração é fundamental valorizar os pequenos produtores e agricultores locais, realizar compras a granel e com o mínimo de embalagens possíveis, evitar o consumo de carnes e derivados de animais. É preciso compostar resíduos orgânicos, descartar corretamente os recicláveis e incentivar a coleta seletiva e cultivar uma horta em casa. Todos esses são passos práticos e quase óbvios para serem tomados depois que a inquietude chega.

“Descascar mais e desembalar menos” é uma máxima que nunca falha. Sentir é estar alerta e perceber que durante todo o ano encontramos as mesmas espécies de legumes, folhas e frutas nas prateleiras do mercado como se a natureza não fosse cíclica, como se a comida surgisse dali. O globalismo nos afastou das nossas raízes. Literalmente! Pois ainda existem pessoas nos centros urbanos que não conhecem a planta da mandioca, que não conectam a farofa da sua feijoada ou a tapioca da feira com a macaxeira tão importante na história desse país e com tantas comunidades que até hoje mantém suas casas de farinha em pleno funcionamento, esbanjando tradição e ancestralidade.

Foto: Camila Grinsztejn.

A cada refeição temos a oportunidade de consumir mais espécies nativas. Enquanto vivemos em uma das áreas mais biodiversas do planeta, a grande maioria das hortaliças e ervas medicinais que consumimos diariamente no Brasil tem origem euroasiática. A monotonia nos nossos pratos reflete a monocultura dos nossos campos. Precisamos sentir e saber que até mesmo diante da destruição do mundo natural seja pelo agronegócio, seja pelas queimadas, geleiras derretendo ou até pandemias, a mudança começa sempre nas coisas mais simples.

Na grande maioria das vezes, além de fazer bem para o planeta, essas mudanças também fazem bem para nós mesmos. Escolher alimentos locais, respeitando a sazonalidade, é muito mais saudável porque eles são compostos justamente daqueles nutrientes e medicinas que precisamos naquela estação. A natureza é sábia, só falta mesmo nos conectarmos com todo esse conhecimento.

Foto: Camila Grinsztejn.

Ouvi da minha amiga engenheira ambiental, Aline Matulja, que o melhor indicador para saber se a sua ação no mundo está fazendo a diferença é a transformação que acontece em você mesmo. “Se algo te tocou, já transformou o mundo”, ela disse. Essa revolução é silenciosa e individual e tem a ver com a percepção e sensibilidade. Ocorre dentro de cada um até que reverbera no mundo externo e caminha para uma sociedade mais feliz e mais harmônica, coerente com os fluxos da vida. Olhe para dentro de si, pegue na mão de quem estiver ao seu lado e seguimos!

 

 

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Um comentário

  1. Palavras tão profundas e coerentes, me fez perceber o quanto estou desconectado, insensível ao mundo natural. Pensei ter perdido a esperança de mudar algo lá fora, mas através desta mensagem percebi que a mudança é aqui dentro. Muito obrigado

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