AlimentaçãoCidades Sustentáveis

Natureza como ferramenta de inclusão social

Mas desde quando natureza é ferramenta?

Eu não sei você, mas eu não resisto a um pé de amora, daquelas bem pretinhas, no caminho. Não importa para onde eu esteja indo ou de onde esteja vindo (a única diferença é que agora incluímos o álcool gel antes e/ou depois de qualquer contato), também pouco importa se vai manchar mão, boca e roupa. Parece sempre um chamado da natureza mostrando que ela está por toda parte, que está ali a um palmo de distância e tem um gostinho delicioso de conexão, de nutrientes, de saciedade, de vida!

Quantas vezes nos deparamos com quintais cheios de frutos caídos, calçadas e ruas cobertas com pedaços pisoteados de ameixas, mexericas (cada região tem um jeito de chamar essa fruta), cajus, mangas, etc. Com as estações mais quentes se aproximando, passamos a encontrar mais flores e frutos plantados e, por consequência, espalhados. E se eu dissesse que essa conta tem um coeficiente a mais para poder fechar? A vulnerabilidade social.

Fonte: Orquídeas Fácil.

Como Max Ehrmann já dizia, em Desiderata, “você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo vão cumprindo o seu destino”. Enquanto seres vivos, somos parte da natureza assim como o solo, as águas, o ar e todos os outros elementos. E, se tudo é natureza, o natural é que todos sejam e se sintam parte disso, de fato.

Por isso, sempre digo que a natureza pode ser sim uma excelente ferramenta de inclusão social, em diferentes frentes, mas hoje o assunto é muito específico: alimentação natural, gratuita ou barata, compartilhada, inclusiva na socialização, na nutrição, no acesso, na cultura. Se plantarmos não só o que queremos colher, mas também o que podemos dividir, estamos utilizando a terra para cultivar temperos, alimentos, frutos e também o bem, o amor, a solidariedade, a humanidade.

Imagem: Creative Commons.

Claro que não dá para sair rua afora plantando aleatoriamente. É necessário aprender um pouco sobre espécies, técnicas e solo, descobrir como funciona a questão no seu município, ver espaço apropriado, etc. Mas o poder que uma horta comunitária tem é transformador, é a comunidade pela comunidade, a natureza pela natureza. E, se o cultivo coletivo já é inclusivo, imagina a colheita!

Em Curitiba, este ano foi inaugurada a primeira Fazenda Urbana, um dos muitos exemplos de como podemos ressignificar espaços vazios ou improdutivos e transformá-los em ambientes de saúde, conhecimento e inclusão. Uma área que acumulava lixo a céu aberto, hoje concentra mais de 60 variedades de produtos orgânicos que são destinados a projetos sociais previamente cadastrados. Esses alimentos naturais, saudáveis, são transformados em refeições e entregues a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Fazenda Urbana em Curitiba. / Fonte: Daniel Castellano/ SMCS

Além da Fazenda, formalmente a cidade tem mais de 30 hortas comunitárias cultivadas pelos cidadãos, com supervisão e auxílio de órgãos ambientais e ONGs. E esse número é muito maior quando começamos a andar por aí, escolas, quintais, terrenos baldios, etc. Assim como sei que por outras cidades também seja assim.

Na Região Metropolitana, em Almirante Tamandaré, conheci um senhor que há mais de 20 anos levantava às 5 horas todos os dias para cuidar da horta que fez em um terreno abandonado na esquina de casa. Passei uma semana na comunidade e, diariamente, dezenas de pessoas passavam naquele lugar para pegar algum item. Milho, tomate, quiabo, pimentão, laranja, mamão, alface, temperos. E a cada entrega fazia sentido o acordar dele às 5 horas. Porque significava tornar um alimento acessível, partilhar o que a terra nos dá e viver melhor. Ele não precisava fazer aquilo, ele não era obrigado a estar lá todos os dias, ele não ganhava “nada” com isso, financeiramente falando. Mas aquilo dava a ele um retorno sem preço.

Imagem: Creative Commons.

Quando descobri que uma horta comunitária pode ser feita por um só e mesmo assim beneficiar uma comunidade inteira, sonhei com uma horta global que incluísse a natureza em todo e cada prato (mesmo de quem nem prato tem). Se cada um pudesse semear uma única coisa no mundo, você comeria um prato de um só item por quanto tempo? Quanto tempo levaria até aprender a partilhar e deixar o prato multicolorido vivendo em sociedade? Agora me diz, você está partilhando com quem está vivendo com você ou comendo um único item?

 

 

Tags:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *