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Um chá de transformação!

Diz a lenda que, em meados de 250 a.C., o imperador chinês Shen-Nung estava sentado na sombra de uma árvore e fervia uma água a fim de purificá-la, como era de costume. A brisa da primavera trouxe para a água quente algumas folhas da árvore. Atraído pelo aroma, o imperador bebeu aquela infusão e, percebendo a sensação de bem estar e lucidez, começou a propagar a cultura do chá.

Hoje em dia é muito comum falarmos de chá fazendo referência à infusão de qualquer erva em água. Todo mundo tem uma receitinha infalível para curar alguma doença, algum desconforto físico ou emocional. O que muita gente não sabe é que as folhas que caíram na água do imperador vem de uma planta específica chamada Camellia sinensis, a verdadeira planta do chá, que dá origem ao chá verde, chá branco, chá preto e tantos outros, dependendo da forma de processamento feita.

Camellia sinensis cultivada em sistema agroflorestal. Foto: Camila Grinsztejn/ Autossustentável

Chá é uma palavra em mandarim que chegou ao português justamente porque os portugueses colonizaram Macau, uma região na costa sul da China continental. Nas línguas espanhola, italiana, dinamarquesa, norueguesa, sueca e húngara se escreve té, em inglês Tea, em francês thé, em finlandês tee, em coreano ta. Ou seja, nós brasileiros falamos mandarim toda vez que queremos tomar uma xícara de chá, já que em quase todo o resto do mundo prevalecem as variedades de té.

Ainda assim não associamos o chá à planta Camellia sinensis e a cultura do chá no Brasil gira muito em torno das plantas medicinais e da medicina popular, que utiliza espécies nativas devido à nossa incrível biodiversidade. Mas, na época que moravam por aqui, os portugueses tentaram cultivar a planta chinesa em terras tupiniquins, especialmente na região de Registro (SP), onde ainda é possível encontrar algumas plantações.

Matchá usado para a tradicional Cerimônia do Chá. / Fonte: Mundo Nipo.

Hoje, muitos outros países se destacam como produtores de chá de qualidade. Cada um possui uma característica específica que depende do terroir, do solo, da altitude, do clima, entre tantas outras coisas. Por exemplo, os melhores chás pretos do mundo são os indianos, com destaque para os produzidos na região de Darjeeling, Assam e Nilgiri. Na Inglaterra qualquer chá preto será bebido com leite. Sim, a prática é quase obrigatória entre os ingleses, porque ao adicionar o leite, os taninos do chá ligam-se com as proteínas do leite, tornando a bebida muito menos adstringente. Os chás verdes do Japão trazem notas de algas, mas o grande destaque da região é o matchá, um chá verde em pó extremamente antioxidante.

A forma de colher e de processar a planta é o que vai definir o tipo de chá que ela vai ser. Tradicionalmente existem os mestres de chá que definem a qualidade do produto final. Entretanto, existem produtores que fazem isso de forma mais artesanal e outros em grande escala para atender a demanda global por chá, que é uma das bebidas mais consumidas do mundo. Este problema da escala de produção é justamente o que transformou toda uma cultura em produto, algo que deveria ser especial, mas hoje representa veneno para nós e para o solo, exploração de mão de obra e tantas outras coisas incompatíveis com a pausa delicada para uma xícara de chá no meio da tarde ou com o ritual proposto pelas cerimônias tradicionais do Oriente.

Foto: Helena Cooper.

A origem florestal e estrutura arbórea da Camellia sinensis deu lugar para a monocultura dos campos e sua característica arbustiva, que se dá por causa das podas constantes para estimular a colheita, o rebrote e mais colheita, feita muitas vezes por mulheres sob o sol escaldante. A monocultura vem ainda acompanhada de agrotóxicos, poluição das águas e da nossa própria mente.

Hoje em dia, uma xícara de chá é quase sempre uma xícara de veneno temperada com desigualdade social. É urgente e necessário valorizarmos a cultura do chá olhando para a origem florestal das plantas, para a relação das comunidades produtoras e consumidoras com toda a ancestralidade e tradição que envolvem a Camellia sinensis e tantas outras ervas medicinais que utilizamos para infusões.

A citação do monge vietnamita, Thich Nhat Hahn, ao mesmo tempo que traz uma conotação meditativa aplicada à sua realidade na década de 1930, no contexto atual pode soar até contraditório: “Beber chá é um ato completo na sua simplicidade. Quando bebo chá, só sou eu e o chá. O resto do mundo se dissolve. Beba o seu chá de forma lenta e reverente, como se fosse o eixo sobre o qual o mundo da Terra gira – lentamente, uniformemente, sem se apressar com o futuro”.

O futuro deveria ser representado por uma xícara de chá de floresta, que valoriza as pessoas envolvidas na produção, que valoriza o solo onde é cultivado e honra todo o beneficiamento artesanal e gera mais vida ao promover saúde e bem estar para quem bebe.

Fonte: Freepik.

Tomar uma xícara de chá é um convite para mergulhar nos elementos que acompanham todos os seres da natureza (fogo, água, terra e ar). A água tem uma capacidade muito especial de guardar memória. É a grande memória do Planeta Terra já que é a mesma água, em diferentes estados, que circula desde sempre por aqui. Numa xícara de chá, o espírito das plantas cede ao veículo água para ser a memória delas refletida no eterno. Do plantio à colheita, do preparo ao primeiro gole, é fundamental colocar muita intenção em todo o processo.

Essa alquimia é uma grande revolução que flui do simples para o complexo, seguindo a mesma lógica da floresta. Temos muita autonomia no processo de cultivo, colheita e preparo dessa medicina que as plantas doam para a água, que sempre tem um efeito muito potente mesmo que não possa ser percebido de imediato por quem toma.

Foto: Camila Grinsztejn/ Autossustentável.

É importante não preparar ou tomar um chá no modo automático, mas reservar um momento de contato profundo e íntimo com a planta, com sua trajetória, com o solo, com todas as pessoas e microorganismos envolvidos para que tenha chegado até a xícara. Aguçar essa percepção é uma forma de conectar com a origem da planta e naturalmente de reconhecer a situação atual do mercado de chá, tanto da Camellia sinensis quanto de outras plantas medicinais cultivadas em monoculturas. É uma oportunidade para buscar alternativas disponíveis que valorizam a agricultura familiar e um cultivo biodiverso, que não exploram o solo e seus nutrientes.

Tomar um chá é uma ferramenta incrível para reconectar consigo mesma através do Reino Vegetal, sentindo todas as sensações, o aroma, as notas sensoriais, as memórias que chegam, como essa infusão ativa o corpo e em qual parte ela se destaca. Essas são informações preciosas que fazem com que cada contato seja único e medicinal e, no final das contas, talvez o futuro devesse mesmo ser mais parecido com o passado.

 

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